A piora percepção global de risco devido às tensões na Groenlândia levou os investidores a buscar diversificação nas suas carteiras na sessão de ontem, o que ajudou o Ibovespa a renovar seu recorde nominal de fechamento. O otimismo com a bolsa não se espalhou para outros mercados, com as taxas futuras e o câmbio mais pressionados, afetados, ainda, pelo estresse na renda fixa global diante da possibilidade de uma crise fiscal no Japão.
No fim do pregão, o Ibovespa registrou valorização de 0,87%, aos 166.277 pontos, enquanto o dólar à vista teve apreciação de 0,30%, cotado a R$ 5,3802. Já no mercado de juros, a taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2031 subiu de 13,485% para 13,61%.
A saída de recursos de ativos americanos por conta do temor da ofensiva dos Estados Unidos pela Groenlândia acabou alimentando um fluxo positivo para a bolsa local, especialmente para blue chips. As units do Santander foram destaque, com alta de 2,01%, assim como outras ações de bancos. Blue chips de commodities também avançaram, com as ações ordinárias da Vale terminando com ganho de 1,92%, enquanto as ações ordinária da Petrobras subiram 0,85%.
“O fluxo de rotação continua muito forte”, afirma o líder da mesa de operações de ações da Warren, Ricardo Maluf. Segundo ele, os mercados emergentes passaram a ser vistos como porto seguro em meio ao imbróglio geopolítico e às ameaças tarifárias de Donald Trump à Europa, o que tende a favorecer as ações brasileiras diante da rotação de papéis. “O Brasil é basicamente uma tese de valor, com destaque para bancos, utilities [serviços públicos] e commodities. Em um ambiente de dólar mais fraco, as empresas do setor de commodities tendem a se fortalecer”, ainda segundo Maluf.
Leitura similar tem Eduardo Aun, sócio e gerente de portfólio da AZ Quest Investimentos. Para ele, os mercados emergentes podem se beneficiar de uma dinâmica de redistribuição de risco nas carteiras. “Há essa questão geopolítica, mas também há a questão institucional americana, com dúvidas sobre quem vai suceder Jerome Powell no Federal Reserve (Fed), além de o mercado vir questionando o ciclo de crescimento do setor de tecnologia nos Estados Unidos”, afirma.
Com a perspectiva de que as moedas de mercados emergentes também devem valorizar frente ao dólar, Aun aponta que o fluxo para bolsa desses países tende a crescer. “É um movimento de reflexividade dos ativos”, diz, acrescentando que a busca maior por metais (como ouro, cobre e minério de ferro) em meio ao estresse atual ajuda, mais uma vez, divisas ligadas às commodities, muitas das quais são de mercados emergentes.
A sessão de ontem ainda foi marcada por uma pressão particular nos mercados de câmbio e de juros. No caso do real, o movimento se deu de forma pontual e possivelmente porque o mercado brasileiro foi utilizado como espaço de proteção (“hedge”) de investidores globais em meio ao estresse internacional. “Temos um diferencial de juros elevado, mas para movimentos pontuais e táticos, a liquidez ganha mais relevância neste tipo de operação”, diz Aun, lembrando que o mercado cambial brasileiro é um dos maiores entre emergentes.
No caso dos juros futuros pesou o estresse observado nos títulos da dívida do Japão, que conferiu à curva local um desenho de “bear steepening”, diante da alta firme registrada nas taxas mais longas. (Colaboraram Victor Rezende e Vinícius Lucena)
Fonte: Valor Econômico


