Dados mais fracos do mercado de trabalho americano intensificaram a perspectiva de que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) deverá adotar uma postura menos conservadora na reunião da semana que vem e nas próximas, o que desencadeou um ajuste global do dólar. Por aqui, não foi diferente: a moeda americana recuou 0,33% frente ao real, a R$ 5,3125, sendo que chegou a tocar os R$ 5,2991, na mínima do dia. Com isso, o dólar à vista se aproximou dos menores níveis do ano, mesmo com o fluxo cambial indicando forte saída de capital na semana passada.
Já o Ibovespa chegou a se aproximar dos 162 mil pontos e marcou o segundo pregão consecutivo de recorde duplo: intradiário, aos 161.963 pontos; e de fechamento nominal, aos 161.755 pontos, com alta de 0,41%, distante da mínima de 161.093 pontos. Por vezes, durante o pregão, o índice chegou a dar sinais de que poderia passar por um dia de correção, mas a alta expressiva das ações da Vale e da Petrobras atuou como contraponto e ajudou a manter a principal referência acionária no azul. No fim do pregão, as ações ON da mineradora subiram 3,23% e as PN da petroleira avançaram 0,75%.
Nem mesmo a abertura da curva futura (aumento das taxas) conseguiu pressionar para baixo o Ibovespa, que já sobe mais de 34% no ano. Após um pregão de alívio visto na terça-feira, os juros futuros fecharam em alta moderada, pressionados por um movimento de correção do mercado em um dia sem gatilhos locais para os negócios.
Os investidores devolveram parte da forte queda da sessão anterior na véspera da divulgação do PIB do terceiro trimestre, que pode ser crucial para balizar as expectativas do mercado para o começo do ciclo de cortes da taxa Selic.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 subiu de 13,58%, do ajuste da véspera, para 13,605%; a do DI de janeiro de 2029 anotou alta de 12,675% a 12,715%; enquanto a do DI de janeiro de 2031 avançou de 12,905% para 12,935%.
Investidores aguardam divulgação do PIB do 3º trimestre para calibrar apostas de corte da taxa Selic
Na avaliação dos economistas do Banco Daycoval, o PIB do terceiro trimestre deve revelar um enfraquecimento da atividade após o bom desempenho nos primeiros seis meses de 2025. “Projetamos estabilidade na variação trimestral e [alta de] 1,5% na variação anual. Se confirmado, o resultado mostrará desaceleração da atividade no segundo semestre, conforme esperado”, notam em relatório.
Ainda que a atividade econômica possa desacelerar neste ano e no próximo, as perspectivas para a bolsa permanecem positivas. O J.P. Morgan, por exemplo, projeta o Ibovespa a 190 mil pontos no fim de 2026, um potencial de alta de 18% em relação ao patamar atual. No entanto, o banco chama atenção para a imprevisibilidade da eleição presidencial e, por consequência, para as incertezas em torno da política fiscal em 2027.
Em relatório, a equipe liderada pela estrategista de ações para América Latina e Brasil, Emy Shayo Cherman, destaca que um ambiente de juros baixos não deve durar muito se a trajetória das contas públicas não mudar em relação aos últimos três anos, quando os gastos cresceram mais de 20%. “O resultado da eleição é crucial”, resumem os profissionais.
Ainda assim, o J.P. lembra que o Brasil é um dos poucos emergentes negociados com desconto em relação à média e que tem um indicador preço sobre lucro bem inferior ao dos pares. Nesse sentido, sete dos dez setores estão negociando abaixo de suas próprias médias, além das médias de emergentes e globais.
Um dos exemplos é o índice de ações de materiais básicos da B3Cotação de B3 (Imat), que encerrou ontem aos 5.873 pontos, mas que já chegou a ultrapassar os 7 mil pontos em 2021. O setor tem sido afetado pelo dólar global mais fraco e pelos preços mais baixos de algumas commodities, como o minério de ferro.
Mesmo em meio a uma saída de dólares do país, o câmbio local tem conseguido apreciar. No acumulado do ano, a moeda americana recua mais de 14% frente ao real. Apenas no último mês, saíram do país US$ 7,115 bilhões, na segunda maior evasão de recursos para o mês desde 1982, com o saldo mensal melhor apenas que em novembro de 2008.
“Esse é o movimento que vimos ao longo de todo o ano, de um fluxo de saída enorme, mas com o movimento externo muito favorável beneficiando nossa moeda”, diz o superintendente de câmbio do Banco Rendimento, Jacques Zylbergeld. “Fico pensando em que nível o dólar estaria, caso não houvesse um fluxo financeiro tão negativo como vimos neste ano. Possivelmente estaríamos vendo um dólar mais perto de R$ 4,90”, acrescenta o profissional.
Embora o movimento não seja novo, a saída de capital vista no começo desta semana chamou ainda mais a atenção de agentes do mercado. Um gestor lembra que, na segunda-feira, o Banco Central rolou antecipadamente o leilão de linha que venceria em janeiro. Normalmente, o BC faz a rolagem um mês antes do vencimento, mas, desta vez, houve rolagem de um estoque de janeiro ainda no fim de novembro. “Sinal de que o BC estava mapeando bem esse fluxo de saída e quis sinalizar que teria liquidez à disposição”, diz o profissional, na condição de anonimato.
Zylbergeld vai na mesma linha e defende que a postura mais atenta do BC também pode estar dando suporte para o câmbio. “O BC tem indicado que tem ferramentas para dar liquidez ao mercado, então não me parece que teremos uma grande mudança no nível da cotação do câmbio até o fim do ano, mesmo que haja uma pressão de saída de capital”, afirma, acrescentando que o dólar deve encerrar o ano entre a marca de R$ 5,30 e R$ 5,40.
Fonte: Valor Econômico


