O Ibovespa tem mostrado forte oscilação nas últimas semanas, à medida em que o mercado negocia o efeito combinado de ruídos políticos domésticos, o fluxo de investidores estrangeiros e a curva de juros global. Apesar da volatilidade recente, analistas ouvidos pela Capital Aberto mantêm, de modo geral, uma visão construtiva para o índice no horizonte que vai do fim deste ano até 2026, embora ressaltem cenários alternativos que podem levar a grandes diferenças de desempenho.
Para Flávio Conde, analista da Levante Investimentos, a queda observada em determinados pregões teve caráter local e político: “Essa oscilação forte do Ibovespa ocorreu principalmente por causa do fator Flávio Bolsonaro na sexta-feira passada”, afirmou. Ainda segundo ele, o mercado havia incorporado níveis considerados elevados e, na avaliação da Levante, um patamar em torno de 160 mil pontos seria “mais razoável” para o fim do ano do que 170 mil.
Conde ressalta, no entanto, que a decisão do Fed de iniciar cortes nos juros externos contribuiu para recompor parte do fluxo estrangeiro para o Brasil e que, nos meses de novembro e dezembro, o Ibovespa foi impulsionado pelo saldo comprador de investidores exeternos.
A presença do investidor estrangeiro é um tema recorrente entre as casas. Lauro Samawura, gestor de fundos de investimento da Patagônia Capital, destaca o componente de carry trade: com a Selic em 15% e cortes já iniciados nos EUA, o diferencial de juros mantém atraente a alocação de recursos no país.
“Esse fluxo, nesse curto prazo, tende a continuar”, afirmou, explicando que, mesmo com a expectativa de cortes futuros na Selic, a janela de diferença de taxas deve perdurar ao menos até o início do próximo ano, o que seguirá estimulando entradas de capital para renda fixa e, por consequência, para ações.
Na visão de Nícolas Merola, analista da EQI Research, a alta do Ibovespa em 2025 foi fortemente influenciada por um movimento global de realocação de portfólios: investidores buscaram alternativas fora dos Estados Unidos diante de múltiplos elevados no mercado norte-americano e de fatores geopolíticos. Merola enfatiza, porém, que a incorporação de um choque político-local, que chamou de “evento local, político e potencialmente fiscal”, adicionou risco ao cenário e tende a aumentar a volatilidade.
“Aumento de volatilidade é mais ou menos o que esse novo fator incrementou a esse nosso outlook”, afirmou. Apesar disso, ele mantém um posicionamento construtivo de longo prazo para o índice, observando que as projeções publicadas para 2025 já tinham sido alcançadas e que o modelo usado pela casa privilegia horizontes mais longos.
Entre os gestores, há também quem destaque fundamentos corporativos como motor da valorização. Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, atribui parte significativa do desempenho do índice à melhora dos resultados de empresas intensivas em capital — educação, saúde, logística, commodities e bancos — que, após um período de forte investimento e endividamento entre 2020 e 2022, conseguiram reduzir alavancagem e elevar margens.
“A grande razão por trás da valorização do Ibovespa são os fortes resultados que estamos vendo de grande parte das empresas que compõem o índice”, afirmou. Belitardo projeta que o Ibovespa encerre o ano na faixa de 165 mil pontos e trabalhe em 2026 entre 150 mil e 180 mil pontos, condicionando a amplitude do intervalo tanto a fatores macro como juros e câmbio quanto a riscos eleitorais.
Os cenários políticos, de fato, aparecem como elemento que pode definir trajetórias opostas para o índice. A Levante, por exemplo, trabalha com um cenário binário para 2026: em caso de vitória da centro-direita, o caminho para a Bolsa até dezembro de 2026 poderia levar o Ibovespa a algo em torno de 200 mil pontos, enquanto uma reeleição do atual governo, segundo a casa, colocaria o índice perto de 150 mil pontos. Conde reconhece que as estimativas são ainda passíveis de refinamento, mas ilustram como as expectativas eleitorais já são incorporadas às modelagens das gestoras.
Do lado externo, o ponto de atenção é a sustentabilidade do fluxo de capital. Os analistas lembram que parte dos recursos que entraram no mercado brasileiro nos últimos meses refletiu uma busca por retorno diante de múltiplos elevados e de riscos percebidos nos ativos americanos, especialmente no segmento de tecnologia, onde há discussão sobre se parte da valorização nos EUA reflete uma bolha em segmentos como inteligência artificial. Segundo Conde, há preocupação com correções no Nasdaq que, se amplas, poderiam reduzir o apetite por ativos emergentes e, consequentemente, afetar o fluxo para o Brasil.
A taxa de juros doméstica, por sua vez, funciona como um amortecedor e um atrativo para o Ibovespa simultaneamente: a Selic em 15% protege retornos reais e alimenta o carry, enquanto perspectivas de queda futura ampliam o potencial de ajuste para cima nos preços de ativos de risco. Para Sawamura, a manutenção de uma Selic elevada por mais tempo aumenta o prêmio de carry e deve sustentar o ingresso de estrangeiros no curto prazo. Belitardo acrescenta que a desaceleração recente do dólar frente ao real também tem colaborado para diminuir expectativas de inflação e, portanto, para uma trajetória de juros mais favorável ao mercado acionário.
Apesar do consenso moderadamente positivo, as vozes consultadas convergem em um ponto: a volatilidade deve permanecer elevada enquanto os fatores políticos, fiscais e de fluxo global continuarem a interagir. Nicolás Merola enfatiza que o novo fator de risco apenas “incrementou” a volatilidade em uma conjuntura que já vinha sendo moldada por movimentos globais. Já para Conde, a reação recente do mercado é fruto dessa combinação entre política doméstica e ambiente externo.
Em geral, casas e gestores mantêm otimismo para o Ibovespa no horizonte que vai do fim do ano a 2026, apoiado por entradas de capital e pela recuperação de resultados corporativos. Ao mesmo tempo, destacam que eleições, disciplina fiscal e possíveis correções em mercados externos são riscos capazes de reverter parte dos ganhos ou de ampliar a volatilidade.
Fonte: Capital Aberto


