Por Matheus Prado e Augusto Decker — De São Paulo
12/06/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
A forte recuperação do Ibovespa nas últimas semanas não contou, pelo menos até aqui, com um impulso historicamente importante, o fluxo estrangeiro. Para além da preocupação com o ciclo de aperto de juros das economias desenvolvidas, que começou depois do movimento local e ainda reduz o apetite global por risco, o grupo tem mostrado neste ano preferência pelos ativos mexicanos entre os mercados da América Latina – convicção que, no entanto, pode mudar no curto prazo.
Principal índice da bolsa mexicana, o Mexbol subia 27,23% em dólares no ano até sexta-feira, 9 de junho, na medida em que investidores enxergam um cenário macro positivo e vislumbram ganhos no longo prazo por conta da proximidade geopolítica com os EUA, tese que vem sendo chamada de “nearshoring”. Já o Ibovespa apresentava ganhos inferiores, de 13,73%, com muitas incertezas no radar no início do ano e a maior parte do movimento se dando graças ao desempenho do real.
Essa dinâmica perdeu força em maio, com ruídos políticos limitando os ganhos no México e a melhora na perspectiva macroeconômica local impulsionando as ações brasileiras. Mesmo assim, investidores estrangeiros sacaram R$ 4,27 bilhões do segmento secundário da B3 (ações listadas) no período. Por isso, enquanto a tese mexicana segue sendo preferida pelo mercado para prazos mais longos, os ativos domésticos têm ganhado prioridade entre investidores globais em vencimentos mais curtos, muito por conta do nível de preços no momento.
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Para os executivos do Bank of America, a bolsa brasileira tem espaço para mais ganhos, enquanto a mexicana já “andou” bem em 2023. Em relação ao portfólio do MSCI LatAm, a exposição do banco ao mercado brasileiro é 10,2 pontos percentuais maior: 69% contra 58,8%. Já os ativos mexicanos correspondem a 27,5% da carteira latino-americana do BofA, contra 31,2% do MSCI. O banco tem ainda 3,5% de exposição ao mercado panamenho.
O chefe da área de mercados emergentes e investimentos globais do Goldman Sachs, Caesar Maasry, diz enxergar uma história de longo prazo melhor no México, mas está taticamente mais otimista com Brasil, particularmente com o setor de consumo. Ele nota, no entanto, que a narrativa de que a bolsa está barata é muito distorcida pelas exportadoras de commodities.
“O juro básico do Brasil está estável há algum tempo e parece estar perto de cair, enquanto o banco central do México parou de aumentar sua taxa agora. Acreditamos que o ciclo de cortes ‘adiantados’ da América Latina é um fator chave para o ‘alfa’ desses países”, diz. “Os papéis de consumo discricionário do Brasil são nossa exposição favorita a esse tema.”
Maasry aponta ainda, que, se o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) pausar o ciclo de aperto de juros na próxima reunião em razão de dados de inflação benignos, isso seria claramente positivo para as ações da América Latina por uma maior probabilidade de que os ciclos de corte nos mercados emergentes possam começar e por um dólar potencialmente mais fraco. No entanto, as últimas decisões de juros de BCs de países desenvolvidos parecem indicar caminho mais duro à frente.
Um possível enfraquecimento adicional da moeda americana também é apontado pelo diretor de renda variável da Schroders para Brasil e América Latina, Pablo Riveroll, como gatilho importante para a performance dos mercados latino-americanos. O movimento está no cenário-base da gestora britânica e pode beneficiar mais as teses domésticas, que estão mais descontadas. Ele nota, por outro lado, que o investidor estrangeiro prefere apostar em ativos brasileiros mais líquidos, muitos deles de exportadoras de commodities.
“Por isso, em termos globais, também estamos olhando para a China. No fim do ano, estavámos otimistas com a reabertura, mas ela tem se mostrado mais fraca que o esperado”, afirma Riveroll. “A América Latina se tornou uma das únicas opções para a compra de commodities, por conta de questões ESG, e essa recuperação daria mais fôlego à tese Brasil.”
Nessa linha, mas com viés mais negativo que os pares, Matt Culley, cogestor de mercados emergentes da Janus Henderson, diz que a resposta econômica pouco firme da China após sua reabertura fornece vento contrário à história de investimento no Brasil, a menos que vejamos mudança de direção do país para uma tese de infraestrutura mais tradicional e estímulos imobiliários, pontua.
“China e Brasil mais fracos teriam ainda um efeito de transbordamento positivo para o México em termos de fluxos de fundos, já que os dois países concentram espaço significativo dentro das estratégias para mercados emergentes definidas por investidores globais”, diz Culley, ao ponderar, ainda, que cortes de juros nos EUA devem ter impacto positivo nas duas geografias.
O estrategista-chefe para mercados emergentes do BCA Research, Arthur Budaghyan, é outro com visão menos construtiva para os ativos brasileiros, mas suas preocupações começam já no ambiente interno. O executivo acredita que o Banco Central local não está tão próximo assim de cortar os juros, já que os núcleos de inflação ainda estão estressados e o novo arcabouço fiscal não garante melhora na dinâmica da dívida pública. Budaghyan ainda vislumbra um dólar mais forte à frente.
“O viés mais provável para as taxas de juros dos EUA é de alta no curto prazo. Isso, combinado com a fraca manufatura global, apoiará o dólar nos próximos meses. Se, ainda por cima, tivermos manutenção de um patamar deprimido para as commodities, essa é uma combinação bem negativa para emergentes”, defende o estrategista.
Fonte: Valor Econômico