A captura de Nicolás Maduro em uma operação liderada pelos Estados Unidos na Venezuela explicita uma política externa americana disposta a impor resultados quando identifica vantagem operacional e baixo custo político, avalia o cientista político Ian Bremmer, presidente do Grupo Eurasia.
Segundo Bremmer, a ação só foi possível pelo trabalho de inteligência com apoio interno nas Forças Armadas venezuelanas, o que evitou confronto aberto e reduziu o risco de escalada militar. O desfecho imediato tende a ser um governo de transição com forte presença militar, sem perspectiva de eleições no curto prazo.
O recado, diz, vai além da Venezuela. “Se eu estivesse hoje operando tráfico de drogas na Colômbia, eu estaria mais preocupado — no México também”, afirmou no vídeo postado em suas redes sociais. Para ele, ao demonstrar capacidade de remover um governo indesejado, os Estados Unidos tornam “as soberanias nacionais muito mais vulneráveis”, especialmente no seu entorno regional.
No plano global, Bremmer diferencia o caso venezuelano da guerra entre Rússia e Ucrânia. Ali, observa, o presidente Volodymyr Zelensky foi legitimamente eleito e conta com apoio popular, mas a diferença decisiva está na capacidade militar. “Os russos tinham o desejo. O que não tinham era a capacidade”, disse, emendando que talvez a posição americana fosse diferente no tema se Putin tivesse sido bem-sucedido.
O episódio na Venezuela reforça uma lógica de força nas relações internacionais. “Isso é a lei da selva”, afirmou, ao avaliar que a combinação entre poder, disposição para agir e ausência de regras claras molda um mundo cada vez mais instável — cenário que ele define como G-zero, em substituição a G-7 ou G-20, que se tornam irrelevantes.
Nesse contexto, Bremmer diz que as declarações de líderes do Reino Unido, França e Alemanha — que se disseram satisfeitos com a ação americana — “refletem a posição fraca e vulnerável que esses países ocupam hoje em temas de segurança global”.
Ao relativizar o argumento democrático, o analista lembrou que Trump mantém proximidade com Jair Bolsonaro, apesar de o ex-presidente brasileiro ter sido preso após contestar o resultado eleitoral, e que o próprio Trump se recusou a reconhecer a derrota para Joe Biden em 2020. Não se trata de Maduro ter fraudado as urnas e nem exatamente da conexão com cartel de drogas (Trump já aliviou para o ex-presidente de Honduras). A lógica, resume Bremmer, é direta: “se Trump não gosta de um líder e acha que pode removê-lo, ele vai fazer isso”.
Fonte: Pipeline