No seu memo de 9 de dezembro, Howard Marks, fundador da gigante de ativos de crédito Oaktree, questionava se havia uma bolha nas empresas de inteligência artificial (IA) se formando no mercado de ações. Numa continuação em fevereiro, ele próprio recorreu à ferramenta da Anthropic, o Claude, com prompts que resultaram num tutorial sobre o tema. A resposta veio no formato de nove capítulos, que ele acabou incorporando ao documento que escreveu em 26 de fevereiro.
Marks relatou que a sua conclusão foi que a IA lê tudo o que já foi escrito, lembra e identifica padrões que produziram certos resultados no passado, extrapolando-os para o futuro, comparando ao processo de aprendizado de um bebê, que observa estímulos e aprende como tudo funciona até se expressar. Ao expor isso na conferência global da XP, Marks disse ter ficado impressionado com a capacidade da IA de responder a perguntas, explorar assuntos de forma ponderada e até fazer piadas com o experiente gestor.
Marks disse não ter dúvidas de que a IA é provavelmente a maior inovação tecnológica já vista, com um potencial enorme que pouquíssimas pessoas que realmente entendem e conseguem delinear. Mas, pensando na história, disse haver paralelos típicos de bolhas.
“Quando algo novo surge, como ferrovias, rádio, computadores ou internet, as pessoas ficam animadas e acreditam que isso detém a chave para a riqueza. Os primeiros participantes entram barato, antes que a coisa seja descoberta, e exibem grandes ganhos”, afirmou Marks. Isso gera o sentimento de inveja em outras pessoas que então se apressam para participar, impulsionadas pelo medo de ficar de fora. “Elas querem ter certeza de que não vão perder a oportunidade, porque se perderem e seus amigos ficarem ricos, eles terão que se matar.”
É assim que entram de cabeça, investem capital demais a preços muito altos. “Fazem isso sem investigar, sem se importar com os riscos, e grande parte do dinheiro se perde. Esse é o comportamento típico de uma bolha”, afirmou Marks. “E a bolha sempre envolve algo novo, porque a novidade é muito empolgante. A imaginação em relação à novidade é ilimitada. E, por ser algo novo, as falhas nunca vêm à tona. O novo é um grande veículo para a bolha.”
No mercado de crédito, esse sentimento se refletiu, por exemplo, em questionamentos sobre dívidas tomadas pelas companhias de software. No segmento, Marks lembrou que a volatilidade costuma ser menor e não fica aparente até que algo dê errado.
“Agora as pessoas querem resgatar seu dinheiro, mas são informadas de que não podem e se preocupam com os preços aplicados a esses empréstimos para os quais não há mercado que forneça um preço de referência, dizem que não sabiam que havia todo esse problema. Claro que tinham como saber. O que pensavam estar comprando? Quando dizem crédito privado é crédito privado mesmo, não há liquidez, não há garantias.”
Para Marks, a boa gestão de crédito deriva da prática de controle de risco, não significa evitar o risco, porque senão o capital não estaria sendo remunerado por isso, seria o mesmo que evitar o retorno. “Num portfólio de títulos ‘high yield’ [de alto rendimento], se não houver inadimplência, provavelmente não se está assumindo risco suficiente.”
Ele comparou a gestão de crédito à forma como as companhias de seguros de vida atuam, praticando o que chama de “suporte inteligente de risco para lucro”. Mesmo sabendo que todos os seus clientes vão morrer, as companhias diversificam o risco e são bem remuneradas por isso. Certos ativos podem parecer ruins, mas quando se coloca o preço correto que se paga para amplificar os retornos, pode valer o investimento.
Em mais de 35 anos de investimentos, uma lição que Marks disse ter aprendido com outros grandes investidores foi que as flutuações extremas, das emoções e da psicologia humanas, fazem com que os preços de mercado oscilem drasticamente em torno do chamado valor intrínseco. “Essa é a importância de saber em que ponto do ciclo estamos e se o mercado está superaquecido ou em baixa”, afirmou Marks, citando o economista John Kenneth Galbraith. (*A repórter viajou a convite da XP)
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Fonte: Valor Econômico
