Por Beth Koike, Valor — São Paulo
09/03/2023 11h05 Atualizado há 13 horas
Com uma crise que se arrasta desde o dia 1 de março, a Hapvida, a maior operadora de planos de saúde do país, já perdeu mais da metade do seu valor na B3. Desde então, a companhia já desvalorizou R$ 18,2 bilhões. Valia R$ 13,9 bilhões nesta quinta-feira. As ações fecharam o pregão a menos de R$ 2, com queda de 33,56%, após a empresa informar que estuda um aumento de capital.
Até então, essa hipótese era tratada como algo remoto pelo mercado, a última das opções, tendo em vista o valor atual do papel. O comunicado, publicado na noite de quarta-feira após a ação ter subido 10% num dia de pregão animado, surpreendeu novamente, fez essa alta virar pó e azedou ainda mais a relação com o mercado, que reclama da falta de transparência.
“Nunca vi uma empresa anunciar que analisa a possibilidade de fazer aumento de capital. As empresas anunciam que terá aumento de capital”, diz uma fonte do setor.
O Itaú BBA destacou em seu relatório que o fato da companhia mencionar “o aumento de capital com um preço das ações deprimido mostra um cenário de estresse maior que o esperado, o que deve deixar o mercado em alerta”.
No comunicado divulgado pela Hapvida, a companhia informa que “está constantemente avaliando oportunidades e alternativas para fortalecer sua estrutura de capital com sua base acionária, bem como com novos investidores, incluindo a possibilidade de emissão de novas ações em aumento de capital, o que dependerá de condições favoráveis de mercado condições e aprovações pelos órgãos sociais competentes.
Outra fonte de recursos para a companhia levantar caixa é seu patrimônio imobiliário. A operadora tem uma ampla rede verticalizada de hospitais e clínicas e pode vender os imóveis e alugar os ativos (operação conhecida como “sale & lease back”) e vender ativos que não façam parte do seu negócio principal como a empresa de ambulância São Francisco Resgate e uma empresa de tecnologia especializada na gestão de carteiras de plano de saúde, adquirida em 2019 por R$ 20 milhões.
Após a confirmação de que um aumento de capital está na mesa para análise, as atenções agora estão focadas no próximo lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) a fim de se calcular a geração de caixa. No último trimestre, a companhia queimou cerca de R$ 600 milhões de caixa e viu seu endividamento subir para a casa dos R$ 7 bilhões — o que fez surgir os questionamentos sobre a necessidade de novos aportes.
A companhia terminou o ano com uma alavancagem de 2,45 vezes, sendo que o ideal era que essa relação estivesse próxima de dois. A Fitch disse que a Hapvida tem como desafio reduzir sua alavancagem líquida para patamares abaixo de 2,5 vezes, além de baixar as taxas de sinistralidade e melhorar margem.
O Goldman Sachs lembra que a companhia tem R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento neste ano e R$ 1,3 bilhão com prazo de amortização em 2024, “além de incertezas de capital de giro e exigências de investimentos de R$ 1,8 bilhão nos próximos dois anos.”
A companhia enfrenta uma crise de confiança com o mercado que veio à tona de forma mais incisiva após a publicação dos resultados do quarto trimestre, quando a companhia apresentou uma taxa de sinistralidade (a relação entre o custo do sinistro e o prêmio recebido pela empresa) maior e um repasse de preço menor do que o prometido nos trimestres anteriores. Além disso, a queima de caixa de R$ 600 milhões foi uma surpresa, mesmo que metade desse valor seja relacionada a itens não recorrentes.
Fonte: Valor Econômico

