Por Sérgio Tauhata — De São Paulo
15/06/2022 05h01 · Atualizado há 2 horas
Os riscos de uma recessão nos EUA começam a se elevar perigosamente, avalia o executivo-chefe de investimentos global (CIO) e integrante do comitê executivo da Pimco, Dan Ivascyn, em entrevista ao Valor. Segundo o gestor, ainda que não seja o cenário base da casa, os modelos indicam atualmente uma probabilidade de 35% a 40% de uma retração na atividade nos Estados Unidos para o próximo ano, quase o dobro do visto há alguns meses.
O CIO da americana Pimco, que reúne US$ 2 trilhões em ativos sob gestão, porém, avalia haver razões para acreditar que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) consiga levar a economia dos EUA a um “pouso suave” e evitar uma retração, como efeito do aperto da política monetária em andamento.
“Grande parte da inflação é impulsionada pelo lado da oferta e, à medida que segmentos da economia continuarem a se abrir, vai ocorrer redução natural nas pressões inflacionárias. Do lado da demanda, o impacto do estímulo fiscal, colocado em 2020 e 2021, diminuirá gradualmente. Além disso, já vimos um aperto bastante significativo nas condições financeiras. A combinação de fatores traz chance razoável de o Fed conseguir controlar a inflação, sem ter de ir significativamente acima do juro neutro”, diz.
Sobre o Brasil, Ivascyn afirma que a Pimco tem uma visão construtiva em relação à moeda e à renda fixa local. O gestor aponta a subida dos juros como “uma das razões pelas quais somos mais construtivos em relação à moeda brasileira, ainda que a gente reconheça haver incerteza em um ano eleitoral”. O executivo cita ainda a valorização das commodities. “Ainda que não estejamos prestes a iniciar outro superciclo, achamos que haverá um período de preços mais altos de commodities, cenário favorável ao modelo de crescimento brasileiro.” Leia os principais trechos da entrevista.
Valor: Qual sua visão sobre o risco de recessão nos EUA?
Dan Ivascyn: Reconhecemos que este é um dos momentos mais desafiadores com os quais os investidores tiveram de lidar dentro de uma perspectiva macro em décadas. Acreditamos que essa inflação mais elevada, a tensão geopolítica, ligada à situação com a Rússia na Ucrânia e na Europa, está levando a uma incerteza extrema. A inflação está elevada em uma base global, os bancos centrais estão decididos a apertar a política monetária de forma bastante agressiva. Portanto, acreditamos que há um risco maior de recessão. Ainda não é nosso cenário base. Mas atribuímos uma probabilidade de 35% a 40% de recessão nos Estados Unidos [em 12 meses]. Achamos que a Europa tem um risco um pouco maior, já que eles têm desafios únicos, uma vez que há literalmente uma guerra acontecendo no continente. Nosso cenário base é o de que existe uma boa chance de alguma forma de pouso mais suave [da economia nos EUA], mas o risco de recessão certamente é elevado.
Valor: O Fed tem sido otimista sobre a inflação?
Ivascyn: Achamos que o Fed e os bancos centrais em geral costumam adotar um tom otimista quando se comunicam. Mas, nos bastidores, o Fed certamente está preocupado com sua capacidade de controlar a inflação sem uma desaceleração [econômica] mais significativa. Acreditamos que há uma chance de o Fed ser capaz de desacelerar a economia o suficiente sem ter que elevar a taxa de juros muito acima do que consideraríamos neutro [nível de juros que mantém equilíbrio de preços sem retração da atividade]. E há algumas razões para isso. Uma delas é que grande parte da inflação que estamos vendo é impulsionada pelo lado da oferta. E, à medida que você vê segmentos da economia global continuarem a se abrir, achamos que vai ocorrer alguma redução natural nas pressões inflacionárias. Em segundo lugar, muito da inflação que temos visto também se deve à política fiscal incrivelmente agressiva durante a pandemia, principalmente nos Estados Unidos. E os preços mais altos, ao longo do tempo, estão reduzindo o colchão [financeiro] que as famílias têm devido ao estímulo fiscal. Colocando de forma mais simplista, o impacto desse estímulo fiscal que foi colocado em 2020 e 2021 diminuirá gradualmente ao longo do tempo, tornando um pouco mais fácil para o Fed, e outros bancos centrais, combater a inflação. Outro ponto-chave é essa ligação muito forte entre os mercados financeiros e o mercado real. Já vimos um aperto bastante significativo nas condições financeiras, já que o Fed começou a falar muito duro do ponto de vista da política monetária. Portanto, acreditamos que, à medida que eles continuem a apertar a política monetária, combinados com a redução planejada do balanço, o setor privado vai ampliar o aperto por meio de spreads de crédito mais altos e ‘valuations’ menores das ações. Essa combinação de impacto de política monetária com os pontos que mencionei trazem uma chance razoável de o Fed conseguir controlar a inflação, sem ter que ir significativamente além do juro neutro.
Estamos testemunhando forças de estagflação muito fortes, com inflação alta e redução no crescimento”
Valor: Há um crescente temor global sobre a perspectiva de uma estagflação. Qual sua visão?
Ivascyn: Se pegarmos o sentido estrito de estagflação, significando um crescimento econômico negativo com inflação muito alta, achamos que essa combinação é relativamente improvável. Mas já estamos testemunhando forças de estagflação muito fortes, estamos vendo uma inflação muito alta e começamos a ver uma redução significativa no ritmo de crescimento. E quando temos um ambiente onde a inflação é bastante alta e está contribuindo para a destruição da demanda, isso cria um ambiente de investimento muito diferente. Esse é um ambiente em que tendemos a ver a maioria dos ativos financeiros cair de uma só vez. Nosso cenário base não é de recessão. É de uma inflação que vai permanecer teimosamente alta, mas começará a cair. Achamos que os núcleos da inflação já podem ter começado a cair, mas que isso vai ser um processo de vários anos e, com isso, a inflação permanecerá frustrantemente alta [por um tempo]. Certamente há riscos de algum tipo de cenário de estagflação. Nos próximos trimestres, os riscos inflacionários ainda serão parte fundamental do processo de análise dos investidores. Nesse sentido, a renda fixa está finalmente começando a parecer mais atraente. Cerca de dois anos atrás, a taxa do título de dez anos do Tesouro americano estava mais próxima de 1% e, com a inflação se elevando, os rendimentos não eram suficientes para compensar a inflação. Hoje, com taxa em torno de 3% para a Treasury de dez anos, começa a haver algum valor. Se você acredita, como a Pimco, que há uma boa chance de que os bancos centrais [nas economias avançadas] consigam reduzir a inflação nos próximos dois anos, para um patamar perto dos 2,5%, um retorno de 3% do papel de dez anos, dado que é instrumento líquido de altíssima qualidade, não seria um valor terrível. Os investidores deveriam pensar em voltar a entrar no mercado [de renda fixa].
Valor: Quais as oportunidades no atual cenário?
Ivascyn: Embora nosso cenário base não seja uma recessão, há uma probabilidade alta, entre 35% a 40%, de que ocorra uma recessão ou uma desaceleração econômica [mais forte], contra uma probabilidade típica de cerca de 20%. As pessoas têm de ser muito cuidadosas em assumir uma exposição de crédito excessiva, especialmente de crédito com classificação mais baixa. A Pimco tem se concentrado mais em alguns dos segmentos de maior qualidade do mercado. Gostamos também de investimentos securitizados de riscos hipotecários que têm ativos tangíveis apoiando nosso investimento [como CRIs no Brasil], em oposição ao risco não garantido dentro do mercado corporativo [como as debêntures brasileiras]. É importante para o investidor estar preparado para aproveitar o que achamos que será um segundo semestre muito volátil. Nós continuamos construtivos em certas moedas fora dos Estados Unidos, particularmente as de exportadores de commodities, sendo o Brasil um exemplo de desempenho muito bom, ainda sabendo que haverá alguma volatilidade. Cada país tem seu próprio conjunto de riscos. No Brasil, é claro, há uma eleição próxima. Mas vemos valor na moeda local e também na de outros países exportadores de commodities. Em resumo, há retorno de valor para os mercados de renda fixa, talvez não tanto quanto gostaríamos. Estamos cautelosos em relação ao crédito e encontramos oportunidades fora dos EUA cada vez mais interessantes.
Valor: Quais os principais riscos a serem monitorados?
Ivascyn: A tensão entre inflação e recessão será o fator mais importante para os mercados no futuro próximo. Agora não é apenas a inflação, com os bancos centrais, tão focados em apertar a política monetária. Vimos que os mercados começam a negociar, como se os apertos [dos BCs] pudessem levar a uma recessão. Os riscos geopolíticos são significativos. E são muito difíceis de prever. É muito difícil entender o que está na mente de Vladimir Putin [o presidente russo] ou quão forte a coalizão anti-Putin vai se manter, o que está na mente dos chineses no que se refere a Taiwan, há uma tensão claramente elevada lá. Há uma tremenda incerteza geopolítica.
Valor: O BC brasileiro começou a subir juros antes de outros países. Isso traz alguma resiliência?
Ivascyn: Acompanhamos muito de perto e estamos muito favoráveis à moeda brasileira. Achamos as taxas de juros atrativas nesses níveis [no Brasil]. O BC foi muito rápido em reagir à situação inflacionária do Brasil e ficou à frente do processo inflacionário em relação a outros bancos centrais globais. Se o Federal Reserve soubesse que a inflação permaneceria tão alta quanto está, eles teriam esperado ou desejado que tivessem se movido de forma mais agressiva, mais cedo também. O fato de o Fed ter que fazer mais agora, com a inflação mais embutida na economia dos EUA, está aumentando o risco de aterrissagem forçada. Nossa percepção do Brasil é que vocês podem ter mais necessidades de aperto, mas têm um pouco mais de flexibilidade porque aumentaram as taxas de forma mais agressiva no início do ciclo. Uma das razões pelas quais somos mais construtivos em relação à moeda brasileira é por causa dessa dinâmica ainda que a gente reconheça haver alguma incerteza ao entrar em um ano eleitoral. Os investidores estarão muito focados no lado fiscal. Em geral, achamos que o BC no Brasil fez um trabalho muito bom ao se antecipar à inflação em relação a outros bancos centrais globais.
Valor: O Brasil está mais atrativo diante do movimento de reorganização das cadeias globais?
Ivascyn: Não prevemos, no nosso cenário base, outro superciclo de commodities. Os próximos anos serão um período de aumento da tensão política global entre os EUA e a China, especificamente, e, é claro, entre Europa, EUA e Rússia. Portanto, haverá um desejo de fortalecer as cadeias de suprimentos e estabelecer parceiros comerciais adicionais. Nessa perspectiva macro, há uma oportunidade para o Brasil. Ainda que não estejamos prestes a iniciar outro superciclo, achamos que haverá um período de preços mais altos de commodities, em relação ao que vimos nos últimos cinco a dez anos. Então achamos que há uma oportunidade para países como o Brasil e outros [na América Latina]. Essa é uma das razões – e não é a única – pela qual estamos empolgados com o Brasil, tanto como área para investir, quanto para expandir nossa presença e relacionamento com clientes locais.
Fonte: Valor Econômico