Por Adriana Cotias — De São Paulo
26/04/2022 05h03 Atualizado 26/04/2022
A Guide Investimentos recebeu um aporte de cerca de R$ 120 milhões do controlador chinês Fosun em 2021 e para este ano prevê uma capitalização adicional de R$ 200 milhões. Vinda de uma sequência de prejuízos desde 2019, a perspectiva era que a operação se tornasse rentável a partir de 2023, mas esse horizonte se estendeu um pouco por conta da transformação da corretora e reforços de tecnologia e marketing, diz o CEO da instituição, Fernando Cardozo.
“A gente preferiu fazer um investimento mais robusto em detrimento da rentabilidade, o que demonstra o comprometimento do Fosun com o Brasil, que está aqui para construir um negócio sólido, maduro, consolidado para o longo prazo”, afirma. O reforço financeiro, explica, é adicional ao acordo de aquisição finalizado no início de 2018.
A afirmação de Cardozo se contrapõe a uma série de conversas que circularam no setor dois anos atrás de que os chineses teriam colocado à venda a Guide e a gestora de recursos Rio Bravo, seus ativos financeiros no Brasil. Cardozo diz que nunca houve intenção de se desfazer totalmente da plataforma de investimentos, mas que consideraria um sócio estratégico. “Talvez, lá atrás, a empresa se antecipou a um movimento que não estava maduro. Hoje, está claro que não basta ter um sócio financeiro para aportar dinheiro, não é o que preciso. Se encontrar um parceiro em que possa ajudar na estratégia dele e ele na minha, se fortalecer mutuamente, toparia conversar.”
Na reestruturação pela qual a Guide passou, descreve Cardozo, houve a integração da plataforma institucional com a de varejo, por isso a saída de dezenas de profissionais da equipe, que foram para a Terra Investimentos. “A mudança partiu da gente”, diz Cardozo. “Antes, tínhamos duas mesas de derivativos, duas de ‘papel’, agora é tudo uma unidade de negócio, com os melhores preços no fluxo de ofertas e que traz uma série de benefícios para o cliente. A ideia é ter um ‘business’ institucional integrado em todos os aspectos.” No início do ano, a corretora trouxe Fabiano Romano, ex-Santander Corretora, como chefe de operações.
As renovações do quadro incluíram a chegada de Alex Lima, como estrategista-chefe, que teve passagens por gestoras como Lifetime e V8 Capital, e a de Fernando Siqueira, para liderar o time de pesquisa, vindo da Infinity Asset, mas conhecido de Cardozo dos tempos de Citibank, onde o profissional atuou por quase dez anos, como estrategista e economista-chefe. No ano passado, a Guide trouxe ainda Juliana Nogueira, ex-Next, Safra, Santander e HSBC para comandar a área de atendimento a clientes, enquanto Tiago Siqueiros assumiu já em 2022 como executivo-chefe de tecnologia, vindo da Ágora.
“Foi um reforço grande do time de ‘management’ e de áreas estratégicas para de fato conseguir se fortalecer num mercado competitivo e também mais abundante”, diz Cardozo. Se antes o negócio era baseado em encorpar o time de bankers, de assessores de investimentos e corretores, no caso do institucional, os esforços foram redirecionados a partir de 2019 para melhorar a prestação de serviços.
Foi um período em que novos competidores surgiram de times saídos de bancos, em que bancos se transformaram em plataformas de investimentos, e plataformas mais maduras se transformaram em bancos, descreve o CEO da Guide. “Nosso diferencial, de fato, é ser uma plataforma de investimentos independente. Ainda que traga serviços bancários de ‘cash’, crédito com colateral, câmbio para melhorar a prestação, não tem a ambição de competir com os bancos, vê mais valor sendo a plataforma mais relevante de investimento no Brasil, não necessariamente a maior, na perspectiva do cliente.”
Numa fase de intensas consolidações e de acordos societários, principalmente liderados por XP e BTG, a Guide deu alguns passos. Comprou a carteira de varejo da Magliano e depois levou o negócio de administração fiduciária, mas descontinuou a parte dedicada à retaguarda de fundos de investimentos, porque a ideia não era competir com nomes como Intrag ou BNY Mellon. “Não fazia sentido desviar recursos para isso, um negócio de margem baixa e risco alto.”
A corretora também assumiu a carteira de clientes da sim;paul, que nasceu com foco em pessoa física e tinha o canal de distribuição via assessores de investimentos. Foi o ponto de partida para abrir a filial em Porto Alegre, somando-se aos escritórios de Belo Horizonte, Rio, Salvador, Curitiba, além da base em São Paulo.
No disputado mercado de assessoria de investimentos, Cardozo afirma que a Guide reposicionou a sua atuação entre escritórios menores, com algo entre R$ 200 milhões e R$ 500 milhões. “É um grupo que não consegue ter a atenção das plataformas principais e acaba tendo que se conectar a outro agente autônomo, com remuneração menor. Aqui, ele tem acesso direto à corretora”, afirma. O suporte para fomentar essas iniciativas vem na forma de capital e também de no auxílio à gestão dos escritórios. No primeiro trimestre, ele conta que oito assessorias, com 20 profissionais no conjunto, se plugaram à plataforma.
No ambiente digital, a Guide lança nos próximos dias o seu sistema de operações de alta frequência (HFT), segmento destinado ao público que faz “day trade”, comprando e vendendo ativos e contratos de derivativos no mesmo dia. Era uma lacuna que identificou, em que viu a oportunidade de se posicionar para ganhar “um naco de um mercado relevante”, diz Cardozo. “Nos rankings da bolsa, tem Clear, Modal, com volumes de transação bastante significativos, e a gente estava fora desse segmento.”
Com cerca de 220 mil clientes no total, a corretora tem um tíquete médio relativamente alto, de R$ 500 mil, e com o avanço dessa nova linha de negócios o plano é crescer os volumes no perfil de varejo. Quando fechou o acordo para a venda do controle para o Fosun, a corretora tinha R$ 11,5 bilhões, distribuídos entre 41 mil investidores – no início do ano passado, eram R$ 24 bilhões. Cardozo diz que a política agora é não abrir os volumes sob custódia.
Quem olha de fora diz que a sensação é que, como o Fosun detém parcela relevante do capital, os sócios que efetivamente tocam a operação no Brasil ficaram com parcela pequena e capacidade limitada para se movimentar.
O grupo chinês adquiriu 70% do negócio em 2018 por R$ 170 milhões, com R$ 120 milhões adicionais condicionados a desempenho futuro, o que somaria R$ 290 milhões – avaliando a companhia em cerca de R$ 414 milhões à época. Do restante, 20% ficou com o Banco Indusval e 10% com os sócios executivos da Guide. Em 2019 e 2020, os chineses já tinham injetado cerca de R$ 100 milhões na operação em cada ano.
Fonte: Valor Econômico