O mercado de IPOs nos Estados Unidos reabriu com força em 2026, com o volume de emissões já atingindo máxima histórica em termos de dólares. O movimento reacendeu duas preocupações centrais para o mercado de ações: se sinaliza um alerta de fim de ciclo e se o mercado conseguirá absorver confortavelmente tanta oferta nova.
Segundo levantamento da Goldman Sachs, as novas emissões somaram cerca de US$ 125 bilhões no ano até o momento, superando o recorde anterior de aproximadamente US$ 120 bilhões registrado em 2021. A projeção é de que o volume total ultrapasse US$ 200 bilhões em 2026.
O quadro, porém, é bem menos extremo quando se olha o número de operações. Cerca de 60 empresas americanas abriram capital no ano — alta de mais de 50% na comparação anual, mas ainda distante dos níveis de picos anteriores. A mediana de 25 anos gira em torno de 100 IPOs por ano, patamar para o qual o mercado caminha em 2026. Em 2021, mais de 250 companhias foram à bolsa; em 1999, no auge da bolha das ponto-com, quase 400. Assim, embora os volumes em dólares estejam em níveis recordes, a reabertura se parece mais com uma normalização da atividade, amplificada por poucas operações de grande porte — em boa parte ligadas à IA —, do que com um verdadeiro boom.
As avaliações reforçam esse diagnóstico. O IPO mediano do ano passado foi negociado a 5x EV/sales, contra a mediana de 30 anos de cerca de 4x, e bem abaixo dos 9x de 1999 e dos 7x de 2021.
Os especialistas ouvidos divergem sobre o grau de risco. Ben Snider, estrategista-chefe de ações dos EUA do Goldman Sachs, afirma estar menos preocupado que o investidor médio, argumentando que os sinais de alerta de fim de ciclo que historicamente acompanham os booms de IPO não estão presentes hoje e que os temores de indigestão são exagerados. Jay Ritter, da Universidade da Flórida, pondera que um volume elevado de novas emissões costuma anteceder retornos futuros mais baixos, mas ressalta que o sinal é fraco — acerta apenas cerca de 52% das vezes.
Já Owen Lamont, da Acadian Asset Management, adota postura mais cautelosa. Ele classifica uma onda de emissões como um dos “quatro cavaleiros” de uma bolha de mercado, sobretudo quando combinada a uma onda de emissão de dívida — fenômeno já em curso para financiar o buildout de infraestrutura de IA. Ainda assim, Lamont pondera que ondas de emissão podem durar anos e “marcar o começo de uma bolha, e não o fim”.
O ponto de maior atenção recai sobre a concentração. Os dez maiores componentes do S&P 500 respondem hoje por cerca de 40% do índice, superando os níveis observados na bolha tecnológica do início dos anos 2000. A própria exposição dos bancos ao tema é relevante: o Goldman Sachs revelou que cerca de 16% de seu livro de financiamento de prime brokerage estava diretamente ligado a ações de memória voltadas à IA ao fim de junho.
O balanço entre oferta e demanda tende a ficar mais desafiador em 2027, quando expiram os lockups das aberturas deste ano. Por ora, no entanto, a demanda por ações americanas segue saudável, sustentada por recompras corporativas — estimadas em cerca de US$ 1,3 trilhão em 2026 — e pela migração das famílias americanas de vendedoras líquidas a compradoras líquidas de ações.
Os fatores a monitorar daqui em diante, segundo os analistas, são os retornos de primeiro dia das novas ofertas — termômetro de sentimento e de euforia especulativa — e, sobretudo, a trajetória da IA. Uma mudança brusca nas perspectivas do setor alteraria o cenário tanto para o mercado quanto para os IPOs a ele associados.
Fonte: Goldman Sachs Global Investment Research — Top of Mind, Issue 150, “IPO Surge: A Red Flag for Markets?”, 22 de julho de 2026.
Fonte: Goldman Sachs
Traduzido via Claude
