Mesmo com a sequência de quedas do Ibovespa nos últimos dias, a visão predominante no mercado é a de que a bolsa ainda tem espaço de valorização. A expectativa é que a alta registrada entre abril e junho, que fez o índice sair da casa dos 100 mil pontos para o patamar de 120 mil pontos, tenha sido a primeira parte do movimento. À frente, esperam que a modalidade receba fluxo proveniente da renda fixa e a engatar nova sequência positiva à medida que a Selic cair de fato.
Um levantamento realizado pela Genial, que analisou a variação mensal da Selic e do Ibovespa desde 2005 a partir de uma regressão linear, mostra que, em média, uma queda de um ponto porcentual na taxa básica de juros gera retorno positivo de aproximadamente 8% para o Ibovespa. Foram cinco ciclos de afrouxamento na janela analisada, que resultaram em uma queda média de 5,25 pontos percentuais para a taxa Selic.
“É preciso avaliar o contexto de cada ciclo, mas os números condizem com a retórica do mercado. No passado, o mercado antecipou parte dos ganhos e depois foi se posicionando em reação à melhora ou não dos resultados. Resta saber se, neste ciclo, os balanços das empresas vão melhorar”, diz Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial.
Rafael Oliveira, gestor de fundos de ações na Kinea Investimentos, nota que o cenário de curto prazo é errático em praticamente todas as geografias, com Europa pressionada, juros longos dos Estados Unidos avançando e China lidando com reabertura e uma possível mudança no comportamento da população. Mesmo assim, ele vê um horizonte positivo para as ações locais.
“Assessores de investimento e gerentes de banco mostram mais interesse em se reunir com gestores de renda variável e isso tende a aumentar, já que eles precisam oferecer novos produtos com potencial de rentabilidade para que os seus clientes não tirem dinheiro do banco para, por exemplo, comprar imóveis”, diz.
Em termos de exposição, o executivo nota, por exemplo, que papéis do setor construção andaram bastante e alguns gestores mais ativos buscaram migrar para outras teses. Porém, existem muitas empresas com momento operacional ruim, o que pode anular a tendência macro positiva.
“A recuperação que a maioria dos papéis sensíveis aos juros registrou no curto prazo, por alavancagem ou modelo de negócios, foi natural. No médio prazo, vai crescer a necessidade de separar o joio do trigo. Daqui para frente, principalmente pensando na próxima temporada de balanços, o foco tende a migrar para o micro das empresas”, afirma.
Paulo Weickert, sócio-fundador da Apex Capital, acredita que há setores que podem sofrer se o mercado acreditar que os cortes de juros estão em ritmo acelerado demais e que o BC pode se tornar leniente com a inflação. “A queda mais rápida do juro de curto prazo, se não for bem telegrafada pelo BC, pode ter efeito contrário nos vencimentos mais longos da curva, conforme investidores passam a temer um rebote da inflação”, diz. “Como o valor dessas empresas está em prazos mais longos, há impacto no possível ‘upside’ [potencial de valorização] desses papéis.”
Ainda que parte do mercado tenha considerado o corte inicial da Selic exagerado, Sara Delfim, sócia da Dahlia Capital, acredita que havia espaço para a queda inicial de 0,50 ponto porcentual. “Mas agora vamos monitorar. Se houver choque de petróleo ou de fertilizantes que traga novo repique de inflação, o BC pode ser mais conservador na próxima reunião. Vai depender dos dados”, opina. “Com a informação e o cenário que temos hoje, acho que dá para continuar nesse ritmo.”
Para Weickert, a escolha do BC de iniciar o ciclo com um corte mais intenso beneficia mais determinados papéis. Segundo o executivo, alguns setores, como o de mercado de capitais, ganham demanda, porque é dinheiro novo que entra no mercado. E em outros, como o de construção civil, para além do patamar de juros ser extremamente relevante para o negócio em si, também impacta a confiança do consumidor. Ele opina que investidores de média e alta renda podem, inclusive, voltar a realizar investimentos imobiliários nesse contexto. São dois dos segmentos favoritos da Apex.
Delfim também aponta para o “financial deepening” (companhias que oferecem serviços financeiros e atraem novos clientes ao mercado), para além de infraestrutura e varejo como setores em que a casa escolheu se posicionar na bolsa. “Como o brasileiro vai ter que repensar seus investimentos, o ‘financial deepening’ volta a atrair a atenção. Também tem o setor elétrico, de infraestrutura, porque o retorno para investimentos desse tipo pode ficar mais interessante. O setor de varejo também. Primeiro, as empresas mais alavancadas tendem a se beneficiar mais e, em seguida, com a melhora na demanda das famílias, outras também conseguem andar.”
Delfim vê a exposição ao petróleo como um hedge [proteção] atrativo para a carteira de bolsa. Ela afirma que o preço do petróleo é o que mais influencia a inflação, tanto em alimentos quanto energia e transporte. Assim, diz, tem exposição à bolsa do Brasil, mas é sempre difícil ir de peito aberto. “Temos a carteira de ativos que mais gostamos aqui, e outros ativos que nos protegem.”
Isabel Lemos, gestora de renda variável do Fator, diz que, de modo geral, o juro baixo é benéfico para toda a bolsa, porém “alguns podem se beneficiar mais e outros menos”. As companhias com alto endividamento em reais, por exemplo, aproveitam mais o afrouxamento monetário, assim como empresas dos setores de varejo e imobiliário.
A casa está posicionada no setor de construção. “Primeiro, pelos juros mais baixos. E as companhias que temos são mais voltadas para o Minha Casa, Minha Vida, então devem se beneficiar do investimento no programa. Além dos preços atrativos”, afirma. Ela também mantém empresas de varejo, mas principalmente nos setores de loja física. “Estamos fora do varejo on-line”, afirma. Entre o setor financeiro, Lemos privilegia bancos que se beneficiam da melhora do mercado de capitais e do aumento de ofertas de ações.
“O que estamos ficando fora e temos mantido posição menor é commodities”, observa. “O setor externo tem sido o vencedor nos últimos tempos, mas agora pode ser fonte de financiamento dos demais papéis.”
Fonte: Valor Econômico