A estratégia de negociação comercial errática adotada pelo presidente Donald Trump amplificou as incertezas sobre os mercados acionários americanos, com potenciais desdobramentos para a economia real dos Estados Unidos. Em um contexto em que não é possível precisar o desenho final do que será estabelecido entre as duas maiores potências do mundo atualmente, gestores têm aproveitado o momento para reduzir a posição “comprada” (que se beneficia da alta) em bolsa americana, com as alocações chegando às mínimas históricas, em alguns casos.
Por outro lado, as casas avaliam que o posicionamento técnico elevado em ativos americanos pode impulsionar fluxos para outros países, o que ajuda a trazer uma perspectiva um pouco mais otimista para a Europa e também para o Brasil, na avaliação de algumas gestoras, caso o país seja capaz de fazer o “dever de casa” na área fiscal.
Em meio a um ambiente de pouca clareza sobre os efeitos da política tarifária de Trump, a Franklin Templeton está entre as instituições que reduziram a posição comprada em ações americanas desde o fim de março e que aguarda novos desdobramentos para avaliar futuras alocações, explica o diretor de investimentos (CIO) da casa, Frederico Sampaio.
O executivo lembra que as empresas de tecnologia tiveram uma trajetória “espetacular” nos últimos anos e que isso levou a uma sobrealocação no país. “Agora, o cenário é de muitas incertezas. É cedo para dizer que essa volatilidade vai parar. Tem muito ruído e movimento técnico de investidores saindo de ativos americanos. Não é um movimento de dois meses”, resume o profissional.
Para Sampaio, os anúncios de Trump parecem “agressivos” demais, mas o “valuation” (valor justo de um ativo) das ações americanas depende de muitas variáveis, como o nível dos juros americanos e se os EUA vão entrar em recessão. “Mais para o segundo semestre é que teremos resultados mais confiáveis dos verdadeiros impactos do tarifaço nos balanços das empresas. Por enquanto, não sabemos onde vai parar essa história e nem qual será a alíquota. O terreno está muito ‘movediço’.”
A avaliação, porém, é diferente quando o assunto é o mercado acionário brasileiro. Na visão do CIO da Franklin, a bolsa local está “hiper barata e descontada” e o Brasil tem capacidade de se beneficiar dos fluxos para fora dos ativos americanos se fizer o “dever de casa fiscal”. Para ele, dois gatilhos que poderiam ajudar as ações brasileiras seriam a queda dos juros americanos, no curto prazo, e as eleições aqui, no médio e longo prazos.
“O valuation [da bolsa local] dá uma razoável segurança para alocar. Tem que ver também quais serão as consequências do cenário internacional para a nossa política monetária. Se o mercado acreditar que o juro do Fed vai cair, isso poderia ajudar o Brasil e tirar a força do dólar”, observa Sampaio, que diz ver boas oportunidades em ações domésticas, como Localiza, Arezzo e Iguatemi.
O nível elevado de incerteza que se instalou nas últimas semanas também levou a Genoa Capital a reduzir de forma significativa a posição comprada em bolsa americana, ao mesmo tempo que ampliou a exposição a ações locais. Os gestores de estratégia de ações da casa, José Luiz Torres e João Vitor Julião, destacam que as dúvidas em torno da confiança de consumidores e empresas devem provocar uma revisão nas projeções de crescimento dos Estados Unidos nos próximos 12 meses.
Torres e Julião defendem ainda que a postura austera do governo americano, com os cortes promovidos pelo Departamento de Eficiência Governamental (Dodge), também levanta questionamentos, já que a redução de custos tem ocorrido de maneira mais acelerada do que o esperado.
Paralelamente a isso, os executivos da Genoa avaliam que o leque de países para se investir parece mais amplo. Eles afirmam que os maiores incentivos a gastos fiscais na Europa tendem a alimentar o crescimento dos países do bloco. Da mesma forma, os dois observam que a agenda positiva da China em torno do setor tecnológico acaba competindo com o fluxo de investimentos que direcionado anteriormente para os ativos americanos.
“Em 2023 e 2024, havia poucos lugares no mundo para você colocar seu dinheiro, e podemos discutir se o destino piorou ou não, mas agora estão aparecendo mais oportunidades”, diz Torres. Nesse sentido, os gestores dizem ter ampliado a exposição ao Brasil, em razão do fluxo mais positivo para mercados emergentes. Na hora de alocar, ambos estão priorizando ações com menor volatilidade nos lucros, com foco nos setores financeiro e de serviços públicos, tanto no mercado local quanto em empresas americanas.
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Depois de iniciar o giro do portfólio no fim do ano passado, com uma redução da exposição às ações dos Estados Unidos, o gestor multimercados da Asset Management Warren (AMW), Eduardo Grübler, conta que a alocação da casa em ativos americanos está nas mínimas históricas agora, especialmente no setor de tecnologia.
Por outro lado, a gestora está com posições relevantes nos mercados acionários europeus e chineses. Embora o evento DeepSeek, que eliminou cerca de US$ 1 trilhão em valor de mercado das ações dos EUA, tenha surpreendido em termos de reação, o setor de inteligência artificial de Pequim já era acompanhado de perto pela AMW. “O pessoal estava meio míope, e o DeepSeek funcionou como óculos para enxergar o potencial da China”, afirma.
No entanto, Grübler acredita que a Europa será a “grande ganhadora” do movimento de rotação das ações globais. Ele explica que, apesar de o Japão ser uma opção considerada por muitos gestores, as bolsas europeias são escolhas mais acertadas, especialmente por causa das ações defensivas. Nesse sentido, a casa tem investido em empresas boas geradoras de caixa, especialmente nos setores financeiro e industrial.
Outros países, como o Brasil, também estão entre as regiões em que a casa está mais otimista. O gestor da AMW destaca a resiliência do Ibovespa em comparação a outros emergentes, mesmo com o acúmulo de perdas registrado pelas bolsas globais após a imposição das tarifas de Trump aos parceiros comerciais. Além de estar bastante descontada, diz, a bolsa local se beneficia do fato de o mercado brasileiro ser altamente desenvolvido em relação ao seu valor de mercado, especialmente quando comparado a outros emergentes.
“Uma pequena mudança no sentimento do investidor estrangeiro pode gerar um fluxo muito relevante para cá”, avalia. “Com o dinheiro saindo dos EUA, está tendo um maior interesse em mercados emergentes e o Brasil é o país mais interessante entre os Brics”, completa o gestor da AWM.
No acumulado do ano até o último dia 23, os estrangeiros acumulam saldo positivo de recursos no segmento secundário da B3Cotação de B3 (ações já listadas), no valor de R$ 4,9 bilhões. Já ao longo de abril, a categoria apresenta um déficit de R$ 5,8 bilhões. Nos últimos pregões, entre os dias 17, 22 e 23 de abril, porém, voltou a registrar mais entradas do que saques de capital externo, segundo a B3Cotação de B3.
O sócio e integrante da equipe de gestão de ações da Vinland Capital, Humberto Meireles, não descarta a hipótese de que uma piora nas bolsas americanas possa impulsionar fluxos para outros países, mas tem dúvidas se o Brasil será o “cavalo da vez por causa das suas próprias mazelas”.
Em meio a declarações de Trump que só “trocam uma incerteza pela outra” e a cenários pouco claros para a bolsa brasileira e americana, Meireles diz que zerou posições vendidas (que apostam na queda) na classe e que está com pouco risco direcional em ações. “Acredito que essas incertezas criadas [por Trump] vão ser transmitidas para a economia real. Isso vai afetar as projeções de lucro e as empresas dos EUA terão que suspender os guidances [projeções].”
Fonte: Valor Econômico


