A Genoa Capital fez, em sua carta mensal de junho, um dos diagnósticos mais duros do mercado sobre as contas públicas brasileiras. Para a gestora, o país vive um equilíbrio instável, em que déficits primários “modestos” convivem com déficits nominais profundos, da ordem de 9% a 10% do PIB — patamar que, nos últimos trinta anos, só havia sido observado na recessão de 2015/16 e na pandemia. O resultado, diz a casa, é uma alta da dívida pública acima de 4 pontos percentuais ao ano, trajetória que classifica como claramente insustentável.
Segundo a gestora, tanto o resultado primário quanto o cumprimento formal do arcabouço deixaram de ser termômetros fiéis da saúde fiscal, seja pela extensa lista de exceções ao regime, seja pelo uso crescente das chamadas políticas parafiscais, que ampliam gastos via déficit nominal sem afetar o primário. A carta observa ainda que houve continuidade na aprovação de medidas de estímulo às vésperas das eleições.
No campo monetário, a Genoa critica a decisão do Banco Central de cortar os juros na última reunião mesmo reconhecendo uma piora do ambiente inflacionário. A gestora nota que o comunicado citou um cenário alternativo de alta de juros que levaria a inflação abaixo de 3% no horizonte relevante, enquanto a ata apontou balanço de riscos assimétrico para cima e simulações de trajetórias de “stop and go” da Selic. Para a casa, a combinação de deterioração do cenário corrente, manutenção do ciclo de cortes e comunicação que considera errática reforça a percepção de um BC inclinado a prolongar o afrouxamento monetário. A gestora destaca também que o hiato do produto foi revisado para cima pelo décimo nono trimestre consecutivo.
Apesar do quadro, a Genoa reduziu no curto prazo sua projeção de inflação, diante da queda mais rápida do que a esperada no preço do petróleo, que voltou para perto de US$ 70 o barril. O IPCA projetado para 2026 caiu de 5,5% para 5,2%, e o de 2027, de 5,0% para 4,7%. Entre os riscos altistas ainda não plenamente incorporados, a casa lista um El Niño mais intenso, a eventual aprovação da PEC do fim da escala 6×1 e um viés inflacionário de curto prazo da reforma tributária. Na atividade, a leitura é de desaceleração na margem, limitada por uma economia que opera sob restrição de oferta, com PIB potencial estimado entre 1,0% e 1,5% ao ano.
O principal risco apontado é o de uma reprecificação sensível dos ativos domésticos caso o cenário externo piore — seja por juros mais altos nos EUA, seja pela retomada do “excepcionalismo” americano puxado pela inteligência artificial, com valorização do dólar. Nos Estados Unidos, a gestora vê economia resiliente, mercado de trabalho dando sinais de reversão e inflação persistentemente acima da meta. Sob o comando de Kevin Warsh, que assumiu a presidência do Federal Reserve, parte relevante do comitê já sinaliza a possibilidade de alta de juros ainda neste ano.
Esse pano de fundo orienta o posicionamento dos fundos. No Arpa, de renda variável, a Genoa mantém exposição líquida abaixo do neutro, em torno de 50% (bruta perto de 90%), com preferência por empresas americanas — sobretudo semicondutores e financeiras — e postura mais seletiva e defensiva no Brasil. No mês, as maiores contribuições positivas vieram de posições compradas em bancos americanos e semicondutores, enquanto software e tecnologia nos EUA pesaram negativamente.
Na performance, o multimercado Radar, carro-chefe da casa, subiu 1,74% em junho, ante 1,12% do CDI, puxado por posições em juros no Brasil e no exterior e por moedas globais, com renda variável levemente detratora. No ano, o fundo acumula 6,73% (contra 6,85% do CDI) e, desde o início, em junho de 2020, 108,49%.
Fonte: Genoa


