Com o envelhecimento da população e avanço das doenças crônicas, essa classe de medicamentos criada há 23 anos representa hoje 14% do mercado
Por Jussara Maturo
30/06/2023 05h10 Atualizado há 7 horas
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Fábrica da EMS, em SP: 238 milhões de unidades vendidas em 2022 e plano de expansão — Foto: Divulgação
Em fevereiro de 2023, a Lei dos Medicamentos Genéricos completou 24 anos de sua promulgação, em 1999. De lá para cá, essa classe de medicamentos conquistou participação crescente de mercado. Em 2022, foram comercializadas nas farmácias 1,89 bilhão de caixas, o que correspondeu a 35,44% do total movimentado. Sobre 2021 o volume representou crescimento de 8,21%. Até abril de 2023, as farmácias venderam 630,36 milhões de unidades, com avanço de 3% sobre os mesmos quatro primeiros meses de 2022. A expectativa é fechar 2023 com crescimento próximo a 1%, o que elevaria a quantidade para 1,90 bilhão de caixas de medicamentos genéricos. Em receita, no ano passado, os genéricos geraram R$15,37 bilhões, contribuindo com 14,4% do faturamento total do mercado farmacêutico no Brasil. Essa movimentação constituiu alta de 7,78%, número que deverá se repetir neste ano.
Medicamentos genéricos são assim chamados por não terem nome comercial e serem vendidos pelo princípio ativo. Por lei, essa classe de remédios deve custar 35% a menos do que os fármacos de referência. No entanto, há variação para cima e para baixo nos pontos de venda. Determinado em até 5,6% pelo governo federal, o reajuste de preços mais recente passou a valer a partir de abril.
A expansão das vendas desse segmento é atribuída a uma combinação de fatores. De um lado, a alta da inflação e o elevado índice de desemprego, fomentando a busca por opções de tratamento mais acessíveis e que onerem uma menor parcela da renda familiar. E, de outro, pelo progressivo e perene amadurecimento do segmento de genéricos no Brasil”, avalia Cauê Nascimento, diretor-executivo de genéricos da EMS. Conforme o executivo, a empresa lidera esse segmento desde 2013, respondendo atualmente por 16,6% do valor total gerado.
Nascimento ressalta que o envelhecimento da população brasileira e o consequente aumento da incidência de doenças crônicas também contribuíram para o crescimento dos genéricos no país. Além disso, ele destaca a maior preocupação com a saúde e o autocuidado, assim como a retomada de consultas médicas após a pandemia de covid-19, como razões para a ampliação do consumo de genéricos e também da oferta. Segundo a PróGenéricos, associação que representa os principais laboratórios que atuam na fabricação e comercialização de medicamentos genéricos, atualmente são 94 laboratórios comercializando o produto no Brasil. Em número de unidades, os medicamentos genéricos atuantes no sistema cardiovascular foram os mais vendidos entre janeiro e abril de 2023, informa a entidade.
Para a EMS, primeira empresa do setor a produzir medicamentos genéricos no Brasil, em 2000, a unidade desse segmento continua estratégica e está em plena expansão, afirma Nascimento. Até maio de 2023, a companhia comercializou 102 milhões de caixas de genéricos. Em 2022 inteiro, foram 238 milhões de caixas.
Atualmente, o portfólio da EMS inclui 400 produtos, distribuídos por 96 classes terapêuticas, fabricados em quatro plantas no Brasil, localizadas em Hortolândia e Jaguariúna (SP), além de Brasília (DF) e Manaus (AM). Entre os produtos mais recentes, o diretor menciona o lançamento em maio de 2021 do rivaroxabana, para prevenção de AVC, considerado o primeiro genérico da molécula no país. No fim de 2022, o laboratório colocou no mercado 14 novos medicamentos, como dipirona 1g, para tratamento de febre e dor, e bilastina, recomendada para quadros de rinoconjuntivite alérgica.2 de 2 Scherer, da Eurofarma: nove produtos e 13 apresentações lançados em 2022 — Foto: Gladstone Campos/Divulgação
Scherer, da Eurofarma: nove produtos e 13 apresentações lançados em 2022 — Foto: Gladstone Campos/Divulgação
Entre 2023 e 2024, os projetos da EMS incluem lançamentos de genéricos nas áreas de transtornos psiquiátricos, como depressão, além de analgésicos e produtos para o tratamento da doença de Alzheimer. Também prevê ampliar as opções voltadas para insuficiência cardíaca, diabetes, colesterol, entre outras doenças. Os genéricos de alta complexidade (ou supergenéricos), baseados em tecnologia de peptídeos (aminoácidos), integram o escopo de investimento e marcam a entrada da empresa no mercado dos Estados Unidos, conta Nascimento.
Para inovação, o centro de P&D da EMS emprega 500 pesquisadores e recebe 6% do faturamento anual do laboratório em investimentos. Também conta com um centro de pesquisas, MonteResearch, na Itália. Para 2023, a EMS prevê movimentar R$ 9 bilhões com a comercialização de genéricos, que representará alta de 27% sobre 2022, estima Nascimento.
Vice-líder no mercado brasileiro de genéricos, com participação de 13,7% em receita, a Eurofarma cresceu 17% em 2022, com faturamento próximo a R$ 2,1 bilhões, informa Donino Scherer, diretor da unidade de genéricos da empresa. O valor representa 15,7% das vendas consolidadas do grupo Eurofarma. De acordo com o executivo, o laboratório comercializou 138 milhões de caixas de medicamentos dessa classe em 2022, correspondendo à participação de 53% no volume da companhia.
O laboratório tem participação destacada com genéricos em áreas como endocrinologia, ginecologia, neurologia, oncologia, ortopedia, pediatria, pneumologia, reumatologia e urologia. Em 2022, a empresa adicionou nove produtos e 13 novas apresentações no mercado de genéricos. “Chegamos às mil moléculas desenvolvidas (medicamentos) em nossas próprias instalações, sendo 350 patenteadas, e com um pipeline atual contemplando mais de 450 projetos”, acrescenta Scherer.
A expectativa é lançar entre 2023 e 2024 pelo menos 20 medicamentos genéricos, conta o diretor. Entre os investimentos industriais está a construção de uma planta em Montes Claros, Minas Gerais, cuja inauguração ocorrerá em etapas. A primeira delas está prevista para entrar em operação no fim de 2024. O principal objetivo da nova fábrica é ampliar a produção de antibióticos, como amoxicilina e benzetacil. “Adicionalmente, a nova fábrica atenderá o Brasil e todos os outros países da América Latina”, afirma. Atualmente, a empresa opera dez fábricas, três delas no Brasil.
O diretor enfatiza que a expansão internacional é um dos pilares de crescimento da empresa. “No último ano, concluímos nosso plano de cinco anos que contempla objetivos estratégicos atingidos com sucesso, inclusive a meta de ter atuação em 100% dos países latino-americanos. Para 2027, buscaremos a liderança na América Latina e a exploração de outras geografias e modelos de negócio. Toda a divisão de genéricos da Eurofarma, com certeza, já é uma realidade dentro desses planos”, acrescenta.
Todo ano a Sandoz aporta cerca de R$ 15 milhões para atualização e expansão da fábrica brasileira, instalada em Cambé, no Paraná, responsável pela produção de 51% dos genéricos comercializados, explica Marcelo Belapolsky, country head da empresa para o Brasil. Os outros 49% são importados.
Em 2023, para o Brasil, o laboratório prepara a fase de lançamento de um medicamento de cardiologia, indicado também para o tratamento de diabetes tipo 2. Prevê ainda lançar neste ano outros três produtos com foco em sistema nervoso central e anti-inflamatórios, áreas de forte atuação da companhia.
No Brasil, a Sandoz atua com duas unidades de negócios. A maior, responsável por 60% dos negócios, concentra as linhas dos produtos genéricos, similares e prescrição médica, vendidos no varejo (redes de farmácias e distribuidores). Os demais 40% são sustentados pela unidade de negócios de especialidades, com medicamentos oncológicos, biossimilares e hospitalares.
Para a Cimed, outra fabricante do setor, 2023 será um ano importante para expansão em áreas terapêuticas consideradas chave para a empresa, como gastroenterologia, cardiologia e sistema neurológico, explica João Adibe Marques, presidente da companhia farmacêutica. De acordo com o executivo, grande parte do crescimento da Cimed é impulsionado pela unidade de genéricos.
Os medicamentos genéricos representam 33% do faturamento anual da companhia, que em 2022 registrou R$ 1,3 bilhão em receita líquida de venda, conforme o balanço financeiro. Com essa movimentação, a Cimed detém 7,7% do volume do mercado de genéricos brasileiro, diz Marques.
O presidente da Cimed comenta que a entrada em operação da segunda planta industrial em Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais, inaugurada em setembro de 2022, dará mais capacidade produtiva para medicamentos sólidos (comprimidos), especialmente genéricos, aumentando para cerca de 60 milhões de unidades por mês.
A principal área de atuação da Cimed em genéricos são os medicamentos de inverno, como antialérgicos e anti-histamínicos. “Possuímos um portfólio muito completo nessa especialidade e com a covid-19 esse se tornou o principal pilar da empresa”, diz Marques.
Fonte: Valor Econômico