Por Estevão Taiar, Larissa Garcia e Marcelo Osakabe, Valor — Brasília e São Paulo
08/05/2023 17h00 Atualizado há 11 horas
Depois de meses de indefinição, o governo federal anunciou nesta segunda-feira os seus dois primeiros nomes para a diretoria do Banco Central (BC). O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, foi indicado para a diretoria de política monetária. Já o auditor-chefe do próprio BC, Ailton de Aquino Santos, foi o escolhido para a diretoria de fiscalização. Ambas possuem um voto cada nas decisões periódicas sobre a Selic.
A diretoria de política monetária estava vaga desde o fim de março, quando o então diretor Bruno Serra Fernandes deixou o cargo, após o mandato dele chegar ao fim. O posto vinha sendo ocupado interinamente pelo diretor de política econômica, Diogo Guillen. Mas a indicação de Galípolo foi recebida com ressalvas pelo mercado e por diversos economistas, que temem que o BC adote nos próximos anos postura menos independente em relação ao governo.
Os indicados foram anunciados pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em entrevista coletiva em São Paulo, e serão submetidos ao Senado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deverá enviar mensagem ao Congresso com as indicações nesta terça-feira. “Não imagino que o Galípolo enfrente resistência no Senado”, disse o ministro.
Segundo Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia e análise setorial da Tendências Consultoria, a indicação de Galípolo é “um sinal de mudança gradual da composição” do Copom. “Não é um nome extremo da heterodoxia. É mais moderado, já foi CEO de banco”, diz, lembrando que o economista comandou o Banco Fator.
De acordo com ela, o governo sabe que um nome “muito heterodoxo” teria “efeito muito danoso” sobre as condições financeiras de mercado. Mas a sócia da Tendências também lembra que Galípolo está “alinhado com a crítica da política monetária” conduzida atualmente pelo Copom.
“Por ora, o mercado não vai gostar [da indicação]”, diz, mas acrescenta que os efeitos devem “ser marginais” em um primeiro momento. Isso justamente por Galípolo ser “moderado” e pelo fato de os nomes indicados por Lula ainda representarem dois de um total de nove votos. São necessários cinco dos nove votos do Copom para decidir o rumo da Selic.
Mas, à medida que novos diretores forem indicados pelo presidente da República, os efeitos serão “mais expressivos” — se mantida a lógica de alterar o perfil da diretoria. Entra nessa avaliação a possibilidade de o presidente do BC, Roberto Campos Neto, ser substituído, já que ele tem mandato apenas até o fim de 2024.
Para o diretor do departamento de pesquisas econômicas para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, a presença de Galípolo no Copom pode levar para o colegiado uma avaliação “diametralmente oposta” ao que a orientação “apropriada” de política monetária “deveria ser”.
“Enxergamos espaço para um potencial aumento nos ruídos de comunicação no curto prazo”, escreve Ramos em relatório. “Não ficaríamos surpresos se começássemos a ver decisões divididas do Copom e visões diametralmente opostas dentro do comitê a respeito do que a orientação apropriada [de política monetária] deveria ser.”
Ramos também afirma que “a percepção” de que Galípolo pode substituir Campos “tem potencial para gerar alguma fricção e inquietação dentro do Copom”.
Marcelo Kfouri, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-servidor do BC, afirma que Galípolo será uma espécie de “interventor” de Haddad no Copom — o que tornaria o colegiado “mais heterodoxo”.
“Os diretores de áreas não-econômicas não se sentem à vontade para influenciar a decisão sobre a taxa básica”, diz Kfouri, que foi chefe do departamento de pesquisa econômica da autoridade e membro não votante do Copom. “Esses membros tendem a seguir o voto do presidente [do BC]. Como o novo diretor é cotado para assumir a presidência em dois anos, alguns membros poderão segui-lo.”
A economista Julia Braga, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que Galípolo tem “formação sólida, experiência no mercado financeiro e boa interlocução com a academia”.
“Creio que ele possa atuar no sentido de tornar a política monetária atenta ao duplo mandato, de atingir a meta de inflação e ao mesmo tempo o pleno emprego, dando um peso mais forte para esse segundo objetivo”, diz.
Por sua vez, o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, afirma que faltam para o indicado “experiências intensas com mesas de operações”.
“Vai além de se ter feito parte de um banco. Envolve todo um cotidiano e instrumentos que exigem uma experiência operacional e que fogem aos atributos de Galípolo”, diz.
Um ex-diretor do BC diz que o secretário-executivo da Fazenda precisará explicar suas convicções, já que há pouco ele defendia abertamente uma política econômica não ortodoxa. Além disso, assinou com o economista André Lara Resende um texto com propostas na linha da Nova Teoria Monetária (conhecida pela sigla em inglês, MMT).
Sobre um possível viés político para a indicação, outro ex-diretor avalia que a estrutura bem montada, blindada e profissional do BC fará a diferença.
Mas a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, disse horas após a indicação que Galípolo será “a voz do governo federal” dentro do BC.
“Será a voz do governo federal, a voz do Brasil dentro do Banco Central. Tem capacidade, experiência, diálogo e bom relacionamento com o presidente do Banco Central”, afirmou a jornalistas no Ministério do Planejamento.
Em evento na Fiesp, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), disse ver Galípolo como “um excelente quadro” para a diretoria do BC.
Fonte: Valor Econômico

