Por Fernanda Guimarães e Mônica Scaramuzzo — De São Paulo
20/07/2023 05h02 Atualizado há 6 horas
Fundos de private equity, que compram participação em empresas, já venderam mais de R$ 3 bilhões em ações na bolsa neste ano, dentre leilões (“block trades”) e ofertas subsequentes (“follow-ons”), a despeito da volatilidade que marcou os mercados, especialmente no primeiro trimestre. Segundo banqueiros de investimento, os investidores financeiros são, historicamente, os primeiros a aproveitar a retomada da atividade do mercado de capitais.
O Pátria tem sido um dos mais ativos em desinvestimentos em 2023. A gestora vendeu em duas tranches participações na rede de academias Smart Fit: a primeira, por meio de um “block trade”, levantando R$ 225 milhões, e a segunda, em uma oferta de ações na bolsa, em junho, com mais R$ 591 milhões. Na empresa de agronegócio Lavoro captou R$ 544 milhões na Nasdaq em uma oferta primária (aumento de capital para a empresa). Na semana passada, concluiu a venda de uma parte de sua participação na Hidrovias do Brasil, movimentando R$ 441 milhões. No total, as operações totalizaram R$ 1,8 bilhão.
“Entendo que há uma demanda reprimida de ofertas de ações. Existe um pipeline grande de operações no mercado. Como os fundos de private equity participaram da grande maioria dos IPOs nos últimos anos, naturalmente vão ser muito ativos nos follow-ons também”, diz Ricardo Scavazza, sócio do Pátria e CEO de private equity de uma das maiores gestoras do país.
Scavazza vê o Pátria como um dos protagonistas nesse processo nos próximos meses. Segundo ele, a gestora tem mais negócios que deverão ser desinvestidos ao longo dos próximos meses, seja de vendas parciais ou totais, que ainda estão estruturadas, no mercado privado e de empresas listadas em bolsa.
Outra operação que marcou o mercado na primeira metade do ano foi o início do desembarque do Goldman Sachs da Oncoclínicas. Segundo fontes que acompanharam a transação, a oferta também teve a função de injetar mais liquidez no papel da companhia com o objetivo por trás de ajudar a destravar valor na ação.
O número ainda contempla as vendas realizadas pela holding de investimento Itaúsa das ações da XP neste ano. Uma de cerca de R$ 1 bilhão, em um leilão em bolsa de ações da XP, no início de junho. E uma segunda ontem, que movimentou aproximadamente R$ 600 milhões, deixando a Itaúsa mais perto de se despedir da corretora. Embora não seja um fundo de private equity clássico, a Itaúsa compra participações em companhias.
Os fundos de private equity sempre foram motores das ofertas de ações, lembra Piero Minardi, diretor da Warburg Pincus e conselheiro da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap). “Passada a volatilidade por conta das eleições em 2022 no país e as incertezas do início do ano sobre os rumos da economia aqui dentro e no exterior, acredito que haverá uma retomada do mercado de capitais”, diz.
Para Minardi, ainda é difícil prever a velocidade da expansão, mas acredita que o alinhamento do Congresso em relação à reforma tributário e sobre o arcabouço fiscal poderá acelerar esse processo. “Os fundos de private equity são os primeiros que buscam saídas, uma vez também que há um prazo estipulado pelo próprio ciclo de investimento.” Neste ano, WP e Gávea venderam em abril, por meio de um block trade, R$ 530 milhões em ações da GPS, empresa de serviços, como segurança e logística.
Segundo levantamento da Abvcap, associação dessa indústria, dos 28 IPOs de 2020, por exemplo, metade foram de investidas de private equity. Já em 2021, das 46 aberturas de capital, 18 foram de empresas do portfólio de fundos. Do ano passado para cá, as empresas não fizeram IPO na bolsa brasileira.
Com o ciclo de retomada, o movimento natural começa com as operações de follow-ons e depois com as ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês). Os futuros IPOs, segundo ele, deverão ser de cheques maiores, independentemente dos setores de atuação das companhias que forem à bolsa. “Em um passado recente, vimos uma forte demanda por empresas com potencial de crescimento. Veremos agora foco em empresas que possam gerar caixa e valor ao seu negócio”, afirma.
O especialista em M&A e mercado de capitais e sócio da Pulse Capital, Marcos Camilo, afirma que, historicamente, cerca de 70% dos IPOs são feitos por empresas que possuem fundos private equity como investidor. Para este ano, como a janela para abertura de capital segue fechada, o executivo vê também mais fundos vendendo suas investidas para outros fundos, operações chamadas “sponsors to sponsors”.
Fonte: Valor Econômico


