Por Adriana Cotias e Rita Azevedo — De São Paulo
09/03/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
Os fundos de crédito privado acumulam neste ano resgates de quase R$ 13,5 bilhões, na esteira do estresse com os ativos da Americanas, que entrou em recuperação judicial em janeiro, e de outros casos de renegociação de dívidas que vieram à tona na sequência.
O levantamento, feito pelo economista Marcelo d’Agosto, coordenador do Guia Valor de Fundos, considerou as carteiras de renda fixa e os multimercados com baixa oscilação das cotas diárias com o sufixo “crédito privado”. São carteiras compostas majoritariamente por títulos de dívida. A compilação traz quase 170 fundos. “Neste ano saíram quase 20% do que entrou em 2022, é relevante”, destaca.
As movimentações interromperam um ciclo positivo para o segmento, que em 2022 tinha atraído R$ 71,3 bilhões. Em 12 meses, esse grupo mapeado acumula ingressos de R$ 44,7 bilhões.
O fluxo negativo mais recente foi observado principalmente nos fundos de curto prazo, com resgate em até 15 dias após o pedido do investidor, com saídas de R$ 13,9 bilhões. Os portfólios com conversão em liquidez superior a isso tiveram baixas de R$ 428,9 milhões, mas podem não ter ainda contemplado as solicitações de saque dos seus investidores.
Fundos DI também podem ter dívida privada na composição da carteira até o limite de 49%. Cálculos do Itaú BBA, com base em dados da Comdinheiro, mostram que abarcando carteiras com mais de 15% em crédito, as saídas totais podem ter encostado em R$ 58 bilhões entre 12 de janeiro e 24 de fevereiro, para um patrimônio total de R$ 1,142 trilhão.
O executivo de uma grande asset diz não ver o mercado disfuncional. “O que o evento Americanas trouxe para a mesa é que o crédito tem risco. O primeiro efeito são os saques nos fundos e um pouco mais de volatilidade. O investidor observou a cota do fim do mês, esperava retorno de 1% e viu 0,20%, e daí houve uma pequena onda de resgates em fevereiro. O setor ficou pressionado uns 45 dias, mas o resultado foi uma revisão importante e saudável de preços.”
Assim como as carteiras de ações e multimercados, os de crédito acabaram recebendo uma montanha de dinheiro no período de juros ultrabaixos. Agora, com a Selic de volta aos 13,75% e dúvidas de quando começará a cair, os recursos estão migrando para alternativas percebidas como de menor risco. “Não estou estruturalmente preocupado, mas atento”, diz um gestor. Um ponto de atenção é que, num ambiente de juros mais altos, algumas companhias podem se ver numa situação financeira mais fragilizada.
Renato Jerusalmi, gestor da Riza Asset, observa que os spreads de crédito “high grade”, de melhor qualidade, estão estáveis nos últimos 10 dias e o mercado, marginalmente mais comprador para papéis de setores anticíclicos e defensivos, como energia elétrica, saneamento e rodovias. “Na medida em que os spreads se estabilizarem, a tendência é que os fundos high grade performem razoavelmente bem e este pode ser um trigger [gatilho] de estabilização do fluxo de resgates. Precisamos de um mês estável para possivelmente ver uma reversão.”
O índice de debêntures da Anbima, que representa títulos indexados ao CDI, apresenta neste ano desvalorização de 8,12%.
Fonte: Valor Econômico