Por Adriana Cotias — De São Paulo
23/06/2023 05h03 Atualizado há uma hora
Depois de dois anos complicados para os fundos de ações, com desvalorizações das cotas na casa de dois dígitos, as estratégias ativas ligadas à bolsa começam a reagir e já há mais de uma dezena de carteiras de assets tradicionais com retornos entre 10% e 20%. A boa temporada de teses relacionadas à economia doméstica é que tem feito a diferença para os gestores à medida que se desenha, ainda que com percalços, um ambiente de condições financeiras mais frouxas adiante. Em geral, essas empresas se destacam em ciclos de queda de juros. Falta ainda capital novo para irrigar os portfólios.
Segundo uma amostra monitorada pela Nord Research, no biênio 2021- 2022, um conjunto de 25 fundos de ações tinha apresentado, em média, queda de 24%, enquanto o Ibovespa caiu 8%. Agora, no segundo trimestre, até 15 de junho, a indústria ganhava 26,13%, exibindo um excedente em relação ao índice, com alta de 21,27%.
O processo de alta de juros, que levou a Selic de 2% no início de 2021 para os 13,75% atuais, drenou recursos dos fundos de ações, com efeitos colaterais sobre a performance da bolsa como um todo. Neste ano, até 16 de junho, os resgates líquidos na classe somavam R$ 36,4 bilhões segundo a Anbima, que representa o mercado de capitais e de investimentos. Já é mais do que saiu em 2022 inteiro, quando os saques totalizaram R$ 27,1 bilhões.
O resultado é que a participação das carteiras de ações na indústria de fundos recuou de 10,1% ao fim de 2021 para os 6,6% atuais, com um encolhimento de R$ 108,5 bilhões no patrimônio. “Perdeu muita representatividade, foi um volume gigante em resgate e redução [por desvalorização dos ativos]. Quando o investidor sai, o gestor tem que fazer caixa e acaba batendo nos papéis, vira um efeito cascata”, diz Luiz Felippo, sócio e analista da Nord.
Os gestores locais tradicionalmente privilegiam papéis mais descolados do Ibovespa, não capturando, em geral, períodos de ganhos concentrados em commodities, de grande peso no índice, como o que se viu em 2021, afirma Felippo. Ele cita que o setor de consumo caiu mais de 40% entre 2021 e 2022, o financeiro recuou 15%, enquanto as fabricantes de matérias-primas ganharam 5%. Tal comportamento gerou uma discrepância de retornos entre os fundos de ações e o Ibovespa, graficamente “abriu-se uma boca de jacaré”, diz.
Nos últimos ciclos de corte de juros, desde 2005, foram as ações domésticas que melhor performaram – menos, porém, entre 2011 e 2012, quando as taxas foram reduzidas artificialmente, na gestão de Alexandre Tombini no Banco Central. Na média, as empresas com foco na economia local subiram 67% nesses intervalos de afrouxamento monetário, em comparação a 49% do Ibovespa, mostra a Nord. A Selic alta, contudo, ainda mantém a disposição para tomada de risco baixa.
“Nas conversas com alocadores e a turma de private banking, existe a vontade de alguns clientes mais arrojados de entrar na bolsa, um movimento pequeno ainda, mas não se fala mais em resgates”, relata Fabio Spinola, sócio-gestor da Apex Capital, que vê uma indicação qualitativa de que o ambiente pode melhorar. Ao acompanhar dados de fluxo de alta frequência, o especialista diz que os fundos de ações líquidos, com resgate em até cinco dias, já mostram alguma captação.
Do lado técnico do mercado, sua percepção é que os gestores de multimercados que vinham fazendo um duplo carrego – comprados em real e vendidos no Ibovespa futuro – cortaram a posição “short”, que previa a queda do índice. Até o fato de “formadores de opinião” no segmento, como Luis Stuhlberger, da Verde Asset, serem mais vocais a respeito de “gostar de bolsa” acaba tendo um efeito nas expectativas, prossegue Spinola.
A descompressão que se ensaiava nas taxas futuras até a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de quarta-feira, a inflação cadente e sem deprimir tanto a atividade econômica vêm sendo colocadas na balança, diz Spinola. “Essa parte das expectativas tem um peso tão grande na construção dos modelos e decisão da alocação de capital que os fundos vivem de tentar, no balanço de risco, achar a assimetria para frente.”
Apesar da valorização das ações no segundo trimestre e do alto custo de oportunidade da renda fixa, o gestor diz ver prêmio de “equity” considerável, nos maiores níveis históricos em 15 anos. “Rodando os modelos, a gente não acha difícil [o Ibovespa] andar mais 20%”, diz. “Mas precisa tanto de fluxo local quanto externo.”
Spinola conta que a Apex pegou bem a recuperação da bolsa, achava que as ações estavam baratas e espera que em algum momento o recuo dos juros vai ajudar, mesmo sem saber “quando ou quanto”. Ele vinha com posições em empresas com boa execução operacional e deu uma apimentada na carteira com companhias mais alavancadas, que se beneficiam do corte da Selic. “Na hora que o macro deixar, haverá uma economia de despesa financeira, junto com a reativação da atividade pela redução dos juros.” Nesse movimento, o gestor privilegiou nomes do varejo e da construção civil.
A Neo vinha operando com uma posição de caixa de cerca de 10%, mais do que roda tradicionalmente, mas metade dele foi consumido com novas compras, a fim de potencializar a valorização do portfólio, diz o sócio e gestor Matheus Tarzia. “O fundo já tinha exposição grande para papéis mais voltados para a economia doméstica com viés de longo prazo. A gente costuma evitar os cíclicos globais muito sujeitos a preços de commodities.” Uma das maiores posições é na varejista Arezzo, e a carteira ainda inclui nomes como a construtora Cury e o BTG Pactual.
No líquido das carteiras de ações, o gestor da Neo diz que ainda sai mais dinheiro do que entra. O varejo não voltou e os fundos de pensão, que costumam definir suas políticas de investimentos em determinados períodos do ano, seguem muito alocados em renda fixa. Tarzia observa que o movimento atual tem sido capitaneado pelos multimercados, que têm feito rotação das carteiras, saindo de outras classes e indo para ações. “Ao que parece, estão comprando o setor de consumo, os casos mais ligados à economia doméstica, e com isso o setor está diminuindo o atraso em relação às companhias que seguem o mercado global, como Petrobras e Vale.”
A LIS Capital, cuja gestão preza por casos de valor, virou o ano com quase 20% de caixa, e de lá para cá reduziu a sua posição de liquidez para perto de 5%, para reforçar o peso nas teses em que tem convicção, conta o sócio-gestor Fernando Pina. “Os ativos estavam muito depreciados e nos deparamos com um princípio de ciclo positivo em função da queda de juros que se avizinha”, diz. “E como o estilo é o ‘value investing’ raiz, a característica é achar com alguma margem de segurança a discrepância entre preço e valor, as posições têm viés mais doméstico, voltadas para o varejo.”
Pina diz que já começa a ver ingresso de dinheiro novo de um perfil restrito de investidores atentos a viradas de ciclo. Para manter o lema de ganhar mais do que o Ibovespa nos períodos positivos e sobreviver às fases de baixa, a disciplina é manter um nível estrutural de caixa que vai sendo modulado conforme o cenário. Além disso, mantém uma posição de proteção, em que compra só o prêmio de uma opção (“put”, fora do dinheiro), para eventos drásticos. Isso vira dinheiro novo quando está tudo muito depreciado e permite aproveitar as barganhas.
Para Fernando Tendolini, chefe de renda variável da Fator Administração de Recursos (FAR), as forças inflacionárias começam a jogar a favor e não tarda haverá a inflexão da política monetária restritiva que se reflete no mercado de ações. “Em todos os ciclos, desde 2006, os cortes de juros provocaram uma grande recuperação da bolsa, de ‘small’ a ‘large caps’ [de empresas de menor capitalização a grandes]”, diz. “O ciclo econômico, tirando o PIB agrícola, é ainda de recessão. Tirando esse impacto, a indústria ainda não vai bem.”
Enquanto o olhar se divide entre a economia local e a cena internacional, se vai ou não ter uma recessão em economias desenvolvidas como os Estados Unidos, o gestor afirma que esse ambiente chama atenção para o ciclo de valor das small caps, que “ficaram muito amassadas no seu valor intrínseco. É algo que se vê desde o fim do ano passado, é um ciclo longo, não é um voo de galinha”. Para aproveitar essa fase, a FAR criou um fundo dedicado, o Momentum, para buscar oportunidades em empresas de pequena e média capitalização, que representam 0,5% do valor de mercado da bolsa.
Apesar das oportunidades, Tendolini diz que este “ânimo de parte dos gestores é ainda desconectado do fluxo, que o investidor demora para virar a chave e acaba voltando para a bolsa quando as ações já estão mais caras. “O obstáculo número 1 são os juros, o investidor está alocado em taxas altas e a temperatura do mundo real ainda é ruim, salvo o agro. Tem notícias como o fechamento de turno nas montadoras, o governo dando a mão para segurar alguns setores, além do rescaldo da crise de crédito por causa de Americanas.”
Fonte: Valor Econômico
