Boa parte das pessoas que resgataram os seus recursos dos fundos de ações e multimercados perdeu a oportunidade de ganhar bastante dinheiro em 2025. Enquanto os fundos de ações deram uma remuneração média de 31,6% — abaixo do Ibovespa, que rendeu 34% no ano, mas ainda assim uma rentabilidade bem alta —, os fundos multimercados tiveram um retorno médio de 14,7% — acima do CDI (que anda colado na Selic, a taxa referência para os juros da economia), que pagou 14,3%.
É mais que os produtos de renda fixa, que deram ganhos médios de 12,3%, abaixo do CDI. Contudo, os cotistas aplicaram R$ 88,4 bilhões nos fundos de investimentos no total, descontando as retiradas, e os aportes continuaram em direção aos fundos de renda fixa, justamente os que renderam menos. A entrada caiu de R$ 258,8 bilhões em 2024 para R$ 84,3 bilhões em 2025, mas ainda foi grande.
Já as saídas seguiram nos fundos de ações e nos fundos multimercados. Na categoria de ações, a debandada disparou de R$ 16,3 bilhões em 2024 para R$ 54,5 bilhões, a maior da história da classe, enquanto nos multimercados, os resgates recuaram de R$ 349,1 bilhões em 2024 para R$ 58,9 bilhões.
Os números, divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em coletiva com a imprensa nesta quinta-feira (8), mostram que os cotistas até começaram a retornar para os multimercados, mas ainda devagar. Já os fundos de ações estão longe de ter de volta os investidores.
A aversão aos investimentos de risco ainda está alta com os investidores tendo retornos ao redor de 15% nas aplicações que acompanham os juros, afirmou Pedro Rudge, diretor da Anbima. E ainda que a expectativa seja de reduções na Selic em 2026, a renda fixa continuará entregando remunerações muito interessantes, o que deve dificultar um pouco o retorno dos investidores para os fundos de ações e dos fundos multimercados. No entanto, a expectativa é que os cotistas aos poucos voltem para esses produtos.
Ele acha que os fundos multimercados tendem a voltar a atrair os cotistas mais rapidamente do que os fundos de ações. “Com a incerteza em relação à velocidade da redução de juros e à eleição, o investidor permanece reticente de tomar risco. Porém, em um cenário de cortes de juros e de uma normalidade macroeonômica, a tendências é vermos um retorno para os fundos de ações”, afirmou Rudge nesta quinta-feira. “O retorno do Ibovespa em 2025 ajuda os brasileiros a ficarem mais confiantes com a bolsa e a terem uma visão de que a diversificação é importante”, disse.
Ele acha que os fundos multimercados tendem a voltar a atrair os cotistas mais rapidamente do que os fundos de ações. “À medida que os fundos continuarem entregando retornos interessantes, o investidor vai voltar a procurar esses produtos. Os fundos de ações devem ir nessa linha também, porém, como são uma classe mais arriscada, eles estão mais ligados ao apetite dos investidores por risco”, afirmou.
Apesar disso, ele espera que os fundos de renda fixa continuem contribuindo mais para as aplicações nos fundos de investimentos em 2026, com a Selic ainda alta. Contudo, a categoria de debêntures incentivadas, onde os cotistas aportaram R$ 110,1 bilhões em 2026, deve perder um pouco de tração, como já começou a acontecer. Em dezembro de 2025, entraram somente R$ 1,2 bilhão nesses produtos, a menor entrada desde janeiro de 2025, quando os cotistas aplicaram apenas R$ 400 milhões.
“Acho que após o crescimento que vimos em 2025, é razoável haver uma acomodação em alguns meses. Porém, existe demanda pelo financiamento de bons emissores e há fundos com capacidade de identificar oportunidades em um segmento que tende a ser bastante importante”, disse.
Tamanho do setor cai em algumas classes, mas cresce em outras
O patrimônio líquido investido nos fundos continuou aumentando em 2025, assim como o número de produtos e de contas dos cotistas. No entanto, os fundos de ações e multimercados registraram uma redução nos números de fundos e de contas, causada pela debandada que esses produtos estão vivendo.
O patrimônio líquido da indústria de fundos alcançou R$ 10,7 trilhões, em dezembro de 2025, uma alta de 15,2% em comparação a dezembro de 2024, mostram os dados da Anbima apresentados nesta quinta-feira. O número de contas atingiu 43,3 milhões em novembro de 2025, um aumento de 4,6% em comparação a novembro de 2024. Já o número de fundos bateu 33,2 mil em dezembro de 2025, um avanço de 4,3%, enquanto o número de gestoras chegou a 1.081 em novembro de 2025, um crescimento de 4,3%.
O patrimônio dos multimercados continuou estável em R$ 1,6 trilhão no mesmo período. Porém, o número de contas caiu 9,5%, de 4,2 milhões para 3,8 milhões de contas, enquanto o número de fundos diminuiu 6,5%, de 12,2 mil para 11,4 mil fundos. A redução é um reflexo dos resgates que esse setor sofreu nos últimos três anos e do desempenho ruim, que aparentemente ficou para trás.
Já nos fundos de ações, o patrimônio subiu de R$ 578,1 bilhões em dezembro de 2024 para R$ 660,1 bilhões em dezembro de 2025. Já o número de fundos caiu de 4,4 mil para para 4,2 mil, enquanto o número de contas diminuiu de 6,1 milhões para 5,9 milhões.
Em contrapartida, os fundos de renda fixa fizeram o maior sucesso, principalmente os de debêntures incentivadas. O patrimônio desses fundos aumentou de R$ 202,7 bilhões em janeiro de 2025 para R$ 346,5 em dezembro de 2025, enquanto o número de produtos subiu de 1,4 mil para 2,2 mil e o número de contas cresceu de 1,3 milhão para 1,7 milhão.
Fonte: ValorInvest