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Um fundo de investimentos americano especializado em dívidas problemáticas disse que credores de crédito privado como a Blue Owl estão encobrindo fragilidades em suas carteiras, e que uma forte correção nos mercados de dívida pode estar próxima.
O Glendon Capital Management, um fundo de Los Angeles com US$ 5 bilhões em ativos, afirmou em uma apresentação vista pelo “Financial Times” que fundos de crédito privado administrados pela Blue Owl e por muitos de seus concorrentes teriam “deturpado” as taxas de perdas em suas carteiras e estariam acumulando “perdas maiores do que as divulgadas”.
Fundado por Holly Kim, veterana da Oaktree Capital Management, o Glendon não disse se está apostando contra a Blue Owl ou quaisquer de seus veículos de crédito ou os empréstimos presentes nas carteiras que criticou.
O capital privado se transformou, na última década, em uma indústria de vários trilhões de dólares, atraindo enormes volumes de recursos de todo tipo de investidores institucionais e de varejo. Mas a alta dos juros e as dificuldades financeiras enfrentadas por algumas empresas das carteiras começaram a expor fragilidades na concessão de crédito e a levantar preocupações com a liquidez e a qualidade dos empréstimos, fatores que podem ameaçar diversos gestores de ativos de grande destaque.
O Glendon concentrou suas críticas na forma como a Blue Owl avaliou empréstimos dentro de um de seus maiores fundos, o Blue Owl Capital Corporation, com US$ 17 bilhões em ativos. Ele observou que o fundo atribuiu, no final de 2025, valores mais altos a esses empréstimos do que os preços atuais de negociação, em mercado aberto, de dívidas vinculadas às mesmas empresas, o que gerou “preocupações sobre a verdadeira avaliação” de seu portfólio.
O Glendon disse que empréstimos a várias empresas do fundo de crédito da Blue Owl, conhecido como OBDC, foram avaliados pelo credor em níveis significativamente superiores aos preços recentes de negociação pública de dívidas mais seguras e com maior prioridade de pagamento emitidas por essas mesmas companhias. Normalmente, tranches subordinadas da dívida raramente são avaliadas acima das seniores, pois têm prioridade menor de recuperação em caso de falência ou reestruturação.
Em um exemplo, o OBDC avaliou em cerca de 90 centavos por dólar US$ 235 milhões em ações preferenciais subordinadas e dívida de segundo grau que detinha na empresa de software de recursos humanos Cornerstone OnDemand no fim de 2025.
Mas a parcela mais sênior da dívida da empresa, controlada pela Clearlake Capital, foi recentemente negociada a 78 centavos por dólar, um preço amplamente considerado um sinal de dificuldade financeira. A diferença sugere que o OBDC terá de fazer uma baixa parcial no valor de seus títulos subordinados da Cornerstone OnDemand no trimestre que termina no fim deste mês.
O preço atual das ações do OBCD implica um desconto de 25% em relação ao seu valor patrimonial líquido reportado no final do ano passado.
O Glendon apontou discrepâncias semelhantes em empréstimos da Blue Owl a empresas como o grupo de segurança cibernética Barracuda (controlado pela KKR), a Peraton Corp, uma contratada de defesa controlada pelo grupo de private equity Veritas Capital, e a Conair Holdings, uma empresa de private equity que vende secadores de cabelo e eletrodomésticos da marca Cuisinart, entre outras. O Glendon questionou se a Blue Owl será obrigada a reduzir ainda mais o valor desses empréstimos, que representam 3% dos US$ 17 bilhões em ativos totais do fundo.
Uma fonte a par do modo de pensar da Blue Owl disse que a comparação feita pelo Glendon é “misturar maçãs com laranjas”, já que as avaliações foram feitas no fim de 2025, enquanto os preços dos empréstimos caíram acentuadamente em 2026. A fonte observou ainda que as dívidas também haviam sido avaliadas a preços inferiores aos das dívidas mais seniores no fim do ano passado, o que justificaria as avaliações adotadas.
Vários outros gestores, entre eles a Ares e a KKR, tinham fundos de dívida com avaliações semelhantes ou mais altas do que aquelas apontadas pelo Glendon no caso da Blue Owl. As empresas não responderam de imediato a pedidos para comentar.
Vários fundos de investimentos ouvidos pelo “Financial Times” nos últimos meses manifestaram preocupação com parcelas subordinadas de empréstimos avaliadas a preços superiores aos de tranches mais seniores relacionadas negociadas nos mercados públicos.
O preço das ações do OBDC caiu mais de 20% no último ano, em meio ao aumento dos temores de perdas de crédito e à queda dos rendimentos dentro de sua carteira de dívida.
Já o preço das ações da Blue Owl, que administra o fundo mediante uma taxa, recuaram ainda mais: 60% no mesmo período, em meio ao aumento dos resgates em seus fundos de crédito voltados a pequenos investidores.
O Glendon também argumentou que as empresas de desenvolvimento de negócios – fundos de crédito privado como o OBDC – divulgam em materiais de marketing taxas de perdas baixas demais para o perfil de risco das empresas às quais emprestam. As carteiras de empréstimos analisadas pela gestora em várias empresas de desenvolvimento de negócios indicavam perdas inferiores a um décimo de 1%.
O Glendon classificou essas taxas de perdas como enganosas e disse que as empresas que recorrem a gestores de crédito privado tendem a ser estruturalmente mais frágeis, tendo “sido forçadas a recorrer ao crédito privado após serem rejeitadas pelos mercados públicos”.
O Glendon especulou que “as perdas no crédito privado são deturpadas e a qualidade do crédito é muito pior do que se imagina”, observando que os rendimentos dos títulos junk subordinados – hoje abaixo de 7% – são sistematicamente menores do que os dos empréstimos seniores de crédito privado, que costumam pagar cerca de 10% ou mais.
Várias empresas de desenvolvimento de negócios listadas em bolsa, incluindo as patrocinadas pela KKR e pela BlackRock, reduziram os dividendos ou cortaram de forma acentuada o valor atribuído a certos investimentos de suas carteiras nas últimas semanas, após registrar baixas contábeis significativas.
Fonte: Valor Econômico
