Por Adriana Cotias — De São Paulo
11/04/2022 05h01 Atualizado há 26 minutos
Depois de o investidor migrar em massa de estratégias de maior risco para a renda fixa à medida que os juros subiam, agora talvez fique a sensação de ter deixado dinheiro na mesa. Quem saiu dos multimercados macro, fundos em que os gestores balizam suas posições conforme os diversos cenários econômicos, vai olhar pelo retrovisor e ver retornos médios de 7,3% no primeiro trimestre, ou 304% do CDI, segundo a Anbima.
Com o aumento da volatilidade que se observou nos mercados ao longo de 2021, principalmente no segundo semestre, muita gente começou este ano preferindo se acomodar nas estratégias mais conservadoras, que sinalizavam retorno de dois dígitos – e, de fato, a Selic chegou aos 11,75% e pode beirar os 13% com um novo ajuste do Comitê de Política Monetária (Copom). Mas o CDI, ponto de partida para a maioria das carteiras mistas e de renda fixa, ficou em 2,4% de janeiro a março.
Tomando-se como base amostra da Quantum Axis, há pelo menos três dezenas de carteiras com retorno de mais de 6% nos três primeiros meses do ano, quase metade da taxa básica atual. Na ponta mais alta, destaque para os fundos da Vista (27,8%), SPX (25,3%), XP (16%), Capstone (14,6%) e Vinland (14%). Gap, Legacy e Novus tiveram rentabilidade acima de 10%, enquanto Kairós, Ibiuna, Kapitalo, Sparta, Neo e Garde ficaram no bloco dos 8% a 9%. O fundo Verde, que teve aberturas disputadas durante a pandemia, acumulava ganhos de 7,13% no primeiro trimestre, depois de um raro ano negativo em 2021 (-1,13%).
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Olhar para o desempenho de curto prazo não é a melhor matemática para fundos que são recomendados para horizontes de pelo menos três anos. Mas é educativo perceber que abortar um plano de investimentos e apenas seguir o fluxo pode ter um custo.
“Eu sou muito crítico desse movimento, foi ignorante. Sacaram um lote grande, migraram para a renda fixa e agora estão correndo atrás do rabo”, diz Felipe Arslan, sócio-responsável pela área de relações com investidores da Vinland Capital. “A pergunta que mais recebo dos assessores de investimentos, depois do parabéns pelo desempenho de 2021, é se o fundo vai continuar performando bem.”
Como as carteiras tiveram bons resultados nos três últimos anos, a Vinland não sentiu a saída de R$ 41 bilhões dos multimercados no primeiro trimestre. “A gente pegou a alta de juros e vai tentar pegar a queda, o multimercado é para dar CDI mais alguma coisa e o ambiente em que navega é muito melhor quando os juros estão a 11%, 12% do que quando estavam a 2%”, diz.
O trabalho dos fundos hedge é depurar o que está ou não nos preços dos ativos, não é acertar os “finalmentes”, diz Caio Santos, sócio-responsável pela área de relações com investidores da Ibiuna. E como a política monetária raramente fica parada, é nos momentos de inflexão que se ganha mais dinheiro. “Se o gestor entende os juros, ele sabe operar inflação, moedas e também as bolsas, isso se traduz em outras posições”, afirma.
Santos ressalva que os fundos vão ter fases piores, nenhum gestor vai acertar o tempo todo, mas “não adianta o investidor sair do seu ‘asset allocation’ e voar para o 1% [ao mês da renda fixa].” Quando a Selic baixou para 2% ao ano, muita gente arredia a risco revisou a carteira e foi para produtos mais voláteis. Daí o jogo virou e houve um movimento de volta, o investidor talvez tenha tomado um risco para o qual não estava preparado. “Mas é médio e longo prazo, não adianta olhar as janelas mais curtas.”
Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo, lembra que os multimercados são estratégias “CDI+”, “para o bem e para o mal”, e que ainda há um trabalho de educação financeira a ser feito com investidores e com quem atende o cliente. “Teve venda errada, a indústria tem que reconhecer, não é razoável olhar os retornos dos anos passados como referência e esperar que renda a mesma coisa quando os juros estão a 15% e quando estão a 2%”, diz. Ele rejeita a tese de que é mais difícil bater o CDI quando a taxa está alta. “O gestor aplica o caixa em CDI, não faz diferença.” Investir nos multimercados macro por causa dos ciclos de alta ou queda é motivação errada, prossegue. “Tem que investir porque se acredita no time de gestão.”
Woelz coloca a sua tese no Excel e mostra que os principais multimercados tiveram em 2021 retorno médio de 5,23% (118% do CDI). Em 12 meses, essa conta já sobe para 11,29% (175%). No primeiro trimestre, foi de 6,61%, ou 272% do indexador.
Fonte: Valor Econômico

