Por Caitlin McCabe e Peter Rudegeair — Dow Jones Newswires
26/02/2024 05h03 Atualizado há 5 horas
Os fundos de hedge dos titãs Steve Cohen, Izzy Englander e Ken Griffin estão arrasando. E seus imitadores têm dificuldade para acompanhar o ritmo.
A vantagem das gestoras dos três gigantes vem do fato de que foram as pioneiras no que se tornou a estratégia mais badalada entre os fundos hedge nos últimos anos. Elas distribuem dinheiro entre centenas de equipes de investimento especializadas, com o objetivo de produzir retornos mais estáveis, não correlacionados com os mercados mais amplos. Seu método põe de cabeça para baixo a ideia original de um fundo hedge com a visão estratégica de uma única classe de ativo.
A Point72 de Cohen, a Millennium Management de Englander e a Citadel de Griffin conseguiram retornos em torno de 10% ou mais no ano passado. Isso não chega nem perto da alta de 26%, com a inclusão de dividendos, do S&P 500 em 2023, mas normalmente os fundos hedge não comparam seu êxito com o do mercado como um todo. Seu objetivo é fazer dinheiro em qualquer tipo de ambiente de mercado. Um índice amplo de fundos hedge teve retornos de 7,5% no ano passado, segundo a consultoria HFR.
As concorrentes das três líderes, enquanto isso, tiveram dificuldades para superar o retorno que qualquer investidor pode conseguir ao deixar seu dinheiro no banco e ganhar juros. A Balyasny Asset Management terminou com uma alta de 2,7% em seu fundo mais importante. A Schonfeld Strategic Advisors ganhou perto de 3%. A Walleye Capital, fundada em Minnesota, teve retorno de cerca de 4%. A LMR Partners, de Londres, gerou 2,9% no seu fundo.
Somas enormes de dinheiro fluíram para gestoras multiestratégia nos últimos anos, na contramão do que, à exceção disso, foi um período de crescimento morno dos ativos no setor dos fundos hedge. Segundo o Barclays, os ativos de fundos multiestratégia saltaram de US$ 185 bilhões no fim de 2019 para US$ 350 bilhões no fim do ano passado. Os grandes investidores institucionais, como os fundos de pensão e os fundos patrimoniais, consideram a classe atraente porque funciona mais como uma instituição do que como um operador de mercado.
Nos últimos tempos, o crescimento acontece entre os imitadores porque as três maiores fecharam as portas para novos aportes. Mas poucos desses recém-chegados foram capazes de igualar os ganhos obtidos pela velha guarda.
Segundo investidores e executivos, uma grande parte do êxito de Citadel, Point72 e Millennium se deve a seu tamanho e à quantidade de dinheiro que têm para aplicar. Executivos do setor bancário e investidores dizem que as assets maiores têm capital para selecionar gestores de carteira de destaque com altos retornos, podem expandir suas fronteiras como no mercado de commodities e investir em novas tecnologias para manejar melhor os riscos e identificar investimentos novos e lucrativos.
“As líderes têm a vantagem”, disse Rob Christian, diretor da K2 Advisors, uma unidade da Franklin Templeton que investe US$ 10 bilhões dos clientes em fundos hedge. “Elas têm a infraestrutura, a tecnologia, os dados, os contatos com [Wall Street], os canais de contratações e a gestão de riscos.”
Em alguns aspectos, o êxito das três grandes gestoras derruba a visão tradicional sobre os fundos hedge. Nos velhos tempos, quanto mais seus retornos cresciam, mais os fundos hedge tinham dificuldades para repeti-los. Em geral, as operações vitoriosas funcionavam bem quando se usavam pequenas quantias de dinheiro. Caso contrário, os rivais se apropriavam rapidamente das estratégias de negociação.
A Citadel e a Millennium gerem cerca de US$ 60 bilhões cada e a Point72, em torno de US$ 32 bilhões, valores que as colocam entre as maiores do mundo. No ano passado, depois de descontadas as comissões, a Citadel teve um retorno de 15,3% no seu carro-chefe, o fundo Wellington, enquanto a Point72 ganhou 10,6% e a Millennium, cerca de 10%. Estas empresas não divulgam publicamente que tipos de investimentos fizeram, mas a Citadel teve ganhos com ações e renda fixa, como já tinha noticiado o “Wall Street Journal”.
O tamanho desses colossos marca uma evolução dramática com relação ao primeiro fundo hedge, lançado há cerca de 75 anos, quando o jornalista e sociólogo Alfred Winslow Jones juntou US$ 100 mil como capital inicial. Seu objetivo era simples, mas revolucionário para a época: ao adquirir títulos que achava que estavam subvalorizados e ao mesmo tempo proteger sua carteira – ou vender títulos a descoberto que considerava sobrevalorizados -, ele poderia ganhar dinheiro tanto se o mercado subisse como se recuasse.
Operadores de destaque que arriscaram tudo com apostas concentradas dominaram o setor nas décadas que se seguiram. Paul Tudor Jones, da Tudor Investment, ganhou US$ 100 milhões na Black Monday, em 1987, enquanto George Soros conseguiu US$ 1 bilhão ao apostar contra a libra esterlina em 1992. Os anos 2000 trouxeram retornos maiores, como US$ 15 bilhões que a empresa de John Paulson fez ao apostar contra o mercado de imóveis residenciais dos EUA no início da crise financeira.
As primeiras gestoras multiestratégias, que surgiram há três décadas, seguiam o modelo original de A.W. Jones. Elas começam com uma abordagem neutra em termos de mercado, com o objetivo de se beneficiar de ativos em ascensão ou em queda, e a aplicam a dezenas de equipes de investimento, com frequência extremamente focadas em setores ou títulos específicos. Esses times operam de forma semiautônoma, o que aumenta as chances de que as apostas sejam dispersas e os retornos, mais estáveis. Elas buscam rebatidas de base, não “grand slams”.
Um ponto forte que muitas delas oferecem é o foco na gestão de risco. Nos casos mais extremos, o desempenho é acompanhado minuto a minuto e as exigências podem ser ferozes: interrompa suas perdas rapidamente (“stop loss” – ou corra o risco de ser zerado.
“Nós os chamamos de estabilizadores – são os fundos que demonstraram sua capacidade de administrar bem o risco”, disse Sherban Tautu, fundador da Ten Edges Capital, de Genebra, que se concentra em investimentos em fundos hedge para clientes, que incluem famílias muito ricas.
“Certamente estes gestores não podem correr atrás de projetos grandiosos e quase impossíveis”, acrescentou. “Mas são gestores dos quais esperamos que entreguem algo entre 5% e 10% cada ano, com baixa volatilidade.”
“São gestores que esperamos que entreguem entre 5% e 10% cada ano, com baixa volatilidade” — Sherban Tautu
Muitas empresas em ascensão, várias delas originárias das três grandes, enfrentam dificuldades em parte porque não conseguem espalhar suas apostas de forma ampla o suficiente. Uma das vantagens que empresas como Citadel, Millennium e Point72 têm é a capacidade de manejar múltiplas estratégias de investimento ao mesmo tempo, tais como operações macro ou seleção de ações. Uma pesquisa recente do Barclays concluiu que as gestoras multiestratégia que no ano passado conduziram quatro ou mais estratégias registraram quase o dobro dos retornos daquelas que concentraram a maior parte de sua carteira em apenas uma.
Este ano, novos veículos de assets novatas colocarão à prova o interesse dos investidores nesses tipos de fundos hedge. Há lançamentos consideráveis pela frente, por parte do Fortress Investment Group, do ex-coexecutivo-chefe da Millennium Asia Jonathan Xiong e de Robert Kim, ex-diretor de investimentos da AllianceBernstein.
Bobby Jain, ex-codiretor de investimentos da Millennium, planeja lançar em julho uma gestora, a Jain Global. Para atrair investidores, Jain cortou as taxas de performance para aqueles que aderiram até uma certa data ou se comprometeram com determinadas quantias de dinheiro. Os maiores descontos são para aqueles investidores que empenharam pelo menos US$ 250 milhões, segundo fontes familiarizadas com o assunto. Oferecer vantagens como essas para os primeiros investidores é algo comum no setor.
Parte do atrativo de montar novos fundos multiestratégia são as comissões maiores do que o habitual que eles podem cobrar. Em vez da estrutura tradicional de “2 e 20”, em que se cobra 2% de taxa de administração e 20% de quaisquer lucros acima de algum referencial, as gestoras cobram os custos de gestão, tais como bônus de contratações e gastos com tecnologia.
Nesse modelo, os investidores pagam, em média, despesas equivalentes a cerca de 5% dos ativos do fundo, além de comissões por desempenho, de acordo com uma pesquisa do Barclays com investidores. O banco constatou que em alguns casos as despesas podem equivaler a mais de 7%.
As gestoras multiestratégia também costumam pedir aos investidores que mantenham seu dinheiro imobilizado por mais tempo. Na Millennium, por exemplo, hoje os investidores demoram cinco anos para poder tirar todo o seu dinheiro, a partir do momento em que decidem sacá-lo.
Marlin Naidoo, que comanda as apresentações entre investidores e fundos de hedge do BNP Paribas, disse que, como a demanda por essa estratégia foi tão voraz nos últimos anos, os investidores têm pouca influência para reagir contra os termos impostos pelas gestoras multiestratégia.
Segundo ele, as coisas começaram a mudar, em especial porque as empresas mais novas não conseguiram acompanhar o desempenho das gestoras multiestratégia mais consolidadas.
“É possível que estejamos em uma fase em que o equilíbrio de poder não está necessariamente com o investidor, mas está emparelhado”, afirmou Naidoo.
Fonte: Valor Econômico
![foto26fin-101-fundos-c4[1]](https://clipping.ventura.adm.br/wp-content/uploads/2024/02/foto26fin-101-fundos-c41-1000x500.jpg)


