Por Laurence Fletcher — Financial Times
09/03/2023 05h01 Atualizado há 5 horas
Os fundos hedge estão consolidando seu poder de fogo em transações macro globais, num momento em que tentam aproveitar o ambiente atual, o mais lucrativo desde a crise financeira. As transações macro, uma estratégia operante há décadas que ganhou fama pelas mãos de pessoas como George Soros e Louis Bacon, envolve apostar nos movimentos de bônus, moedas e outros ativos globais.
Após anos de retornos modestos em mercados dominados por incentivos dos bancos centrais, o setor foi turbinado pelos cortes acentuados das taxas de juros realizados durante a pandemia de covid-19 e depois pela volta da inflação elevada e pelos aumentos acentuados das taxas à medida que as economias se abriam.
As americanas Schonfeld, Graham Capital e ExodusPoint estão entre as empresas que vêm contratando nesse espaço. Os gestores se preparam para o previsto ingresso de capital por parte de investidores que procuram maneiras de proteger suas carteiras, em um ambiente de mercados agitados e de retração do apoio dos bancos centrais.
“Houve uma mudança de paradigma do interesse em macro da década passada para agora, devido, em grande medida, [ao nível de] atividade dos bancos centrais”, disse Kenneth Tropin, presidente do conselho de administração da Graham Capital, gestora com US$ 17,5 bilhões em ativos, que ele fundou em 1994. “Os mercados macro têm se movimentado loucamente, o ano passado foi especialmente bom e a oportunidade criada é fantástica.” A empresa, sediada em Connecticut, contratou recentemente um economista e um gestor de fundos macro e busca incorporar mais profissionais em investimentos.
Em fevereiro, o “Financial Times” revelou que o fundo hedge multiestratégias Schonfeld estava contratando o gestor macro Ben Melkman, um antigo astro das transações da Brevan Howard que, até o ano passado, dirigia a Light Sky Macro. A Schonfeld – que cerca de dois anos atrás começou a ampliar sua presença em transações macro discricionárias, ou realizadas por humanos – planeja contratar agressivamente nesse segmento, num momento em que aprofunda a diversificação nessa área.
No mês passado, a ExodusPoint Capital, que administra US$ 13 bilhões em ativos, contratou Patrik Olsson, ex-diretor de investimentos da Nektar Asset Management, lotado em Londres, para comandar uma estratégia macro. A MKP Capital, com sede em Nova York, vem expandindo o número de membros da equipe, na medida em que tenta aproveitar o que acredita ser uma “guinada estrutural” dos mercados. E a Trium Capital, com sede em Londres, lançou um fundo macro no fim do ano passado, em vista do prenúncio, decorrente do fim do afrouxamento quantitativo, de uma “era rica para o macro global”, segundo o coCEO Donald Pepper.
A demanda por operadores macro está “excepcionalmente alta, tanto em análise quantitativa quanto em discricionária”, disse um recrutador. Uma das estratégias mais antigas do segmento, os fundos hedge macro enfrentaram dificuldades por muitos anos, quando trilhões de dólares de incentivos dos bancos centrais suprimiram a volatilidade do mercado e empurraram as taxas de juros para níveis próximos de zero, o que limitou sua capacidade de lucrar.
Mas eles usufruíram, em grande medida, uma revitalização desde o começo da pandemia, com muitas empresas, como a Caxton Associates e a Brevan Howard, tendo lucrado generosamente quando as taxas de juros foram cortadas em 2020, na tentativa de reinstaurar o crescimento econômico.
E, embora alguns fundos, notadamente a Rokos Capital e o Odey, tenham sido grandemente prejudicados pela grande volatilidade do mercado de bônus no último trimestre de 2021, o ano passado foi o mais sólido para os fundos macro desde o advento da crise financeira, em 2007.
Os fundos, em média, registraram 9% em ganhos no ano passado, ajudados pela disparada dos rendimentos dos bônus e pelo fortalecimento do dólar, comparativamente à queda de 17,7% computada pelo índice S&P 500 em termos de retornos totais e aos grandes prejuízos sofridos por muitas gestoras de ações.
Entre os maiores ganhadores do segmento macro estava o Citadel, de Ken Griffin, que ganhou 32,6% em seu fundo de renda fixa e macro, seu melhor retorno anual de todos os tempos, e o Caxton Associates, cujo fundo Macro chefiado pelo CEO Andrew Law computou ganhos de 35%.
E o Rokos, que lucrou mais de 50% e que já subiu mais 6,5% neste ano, se abriu para dinheiro novo e tenta reforçar seus US$ 15,5 bilhões em ativos em aproximadamente US$ 3 bilhões, ao visar aproveitar as atraentes oportunidades na área das transações.
As grandes mudanças nos mercados de bônus e de câmbio também forneceram um ambiente lucrativo para fundos comandados por computadores que apostam nessas tendências dos mercados globais. O Man Group, uma das maiores empresas de fundos hedge, informou na semana passada que a maior parte de seus US$ 779 milhões de 2022 em taxas de desempenho foram conquistadas a partir de seus fundos macro sistemáticos (em que se desenvolvem modelos matemáticos, estatísticos e comportamentais para identificar ineficiências de mercado).
“A dispersão macro está vindo de bancos centrais e governos, o que cria oportunidades para [o braço de transações quantitativas] AHL”, disse o diretor-executivo Luke Ellis, citando a grande guinada nos mercados globais.
O fundo DBMF, da empresa de investimentos americana Dynamic Beta, contabilizou 23,5% em ganhos no ano passado, e seus ativos mais que triplicaram, para cerca de US$ 2,2 bilhões. Os mercados deixaram de ser tolhidos pelos bancos centrais, o que significa que as tendências com base nas quais esses fundos prosperam tendem a persistir por vários anos, disse Paul Britton, CEO do Capstone, que fez contratações em monitoramento de tendências e em transações no mercado de câmbio.
Apesar dos sólidos retornos, os fundos macro amargaram quatro anos consecutivos de evasões de investidores, segundo o grupo de dados eVestment. Esse movimento, provavelmente, foi impulsionado pela redução, pelos investidores, de suas alocações em resposta a anos de retornos medíocres, enquanto no ano passado alguns investidores diminuíram as alocações macro que tinham ficado grandes demais em suas carteiras em relação às de ações e de bônus, ambos os quais caíram acentuadamente de preço.
Muitos acham, no entanto, que os investimentos macro tendem a continuar a ser os grandes vencedores no atual ambiente do mercado. “Vemos a necessidade das [transações] macro em todas as nossas carteiras”, disse John Sedlack III, diretor-sênior de investimentos e de alternativas da Abrdn. “O aumento das taxas de juros rendem melhores retornos para [a estratégia] macro.”
Em recente pesquisa entre investidores responsáveis por cerca de US$ 1,4 trilhão em ativos, o BNP Paribas detectou que o investimento macro foi a estratégia de melhor desempenho em 2022, e que é agora uma das mais requisitadas como destino de aplicações.
Fonte: Valor Econômico


