Por Adriana Cotias — De São Paulo
13/04/2022 05h03 Atualizado há 12 minutos
Os fundos de investimento em participações (FIP) fizeram aportes de R$ 11,6 bilhões em companhias brasileiras no primeiro trimestre, volume 8,4% superior ao do mesmo intervalo do ano passado. O maior ritmo, desta vez, aparece entre os portfólios de “private equity”, que investem em empresas mais maduras, com R$ 5,2 bilhões, ante R$ 1,9 bilhão em igual período em 2021. Já as carteiras de “venture capital” (VC), que transitam em projetos em estágios iniciais, direcionaram R$ 6,4 bilhões de janeiro a março, com um decréscimo de 27,3% na comparação de 12 meses atrás, mas ainda liderando em valores absolutos.
Os dados são de pesquisa trimestral realizada pela KPMG e a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), e foram antecipados para o Valor.
Olhando-se para os números friamente, a comparação sazonal diz pouco do que se passa no segmento de capital de risco como um todo, diz Roberto Haddad, sócio-líder de private equity e venture capital da KPMG no Brasil. “Nos últimos dois anos, cresceu um absurdo, dobrou de tamanho, mas no meio do caminho há flutuações”, afirma. “O grande indicativo é a força dessa indústria de fundos dentro do contexto de aquisições e de movimentação da economia brasileira.”
Haddad chama atenção para o fato de que, no primeiro trimestre de 2020, o setor tinha investido R$ 5,7 bilhões entre fundos de private equity e de venture capital, mas não é possível atrelar o desempenho mais fraco à pandemia de covid, que entrou na pauta para valer a partir de março daquele ano.
Já a força aparente mostrada pelos fundos de private equity no primeiro trimestre pode não se estender durante o ano, diz Piero Minardi, presidente da Abvcap. Para o executivo, que também lidera a Warburg Pincus no Brasil, o segmento tende a ser mais sensível às questões relacionadas à eleição e ao ambiente macroeconômico. “No momento em que o quadro político estiver definido, independentemente de quem ganhe, e haja um caminho claro, se tira a volatilidade do caminho. O segmento de private equity investe em ciclos mais longos, é difícil se posicionar hoje por causa do risco de revés por determinada política macro.”
De qualquer forma, privatizações, negócios na área de infraestrutura e em segmentos mais básicos como química e petroquímica têm atraído fundos com cheques grandes. Para Minardi, dependendo da agenda, projetos de saneamento e portos, por exemplo, têm muito potencial. O setor de consumo costuma ser acompanhado de perto pelas gestoras de private equity.
“Tem um vetor que pode ser importante, os juros. As companhias, para se financiar, voltaram a ter custo de 20% ao ano, o que pressiona o caixa, é um problema para quem tem dívida de longo prazo. É um fator para as empresas considerarem um pouco de “equity” [venda de participação] para ter uma base de capital melhor e sair da armadilha dos juros.”
No venture capital, a avaliação é que a alta atividade vai prevalecer, correndo um pouco à margem dos ciclos econômicos. “Se a inovação for boa, vai dar certo em qualquer situação, grandes marcas surgiram em crises, como o Uber”, cita Haddad. “Há um movimento gigante em fintech, o mercado financeiro sempre foi muito forte e tem mostrado força nas aquisições Tem os novos bancos, mas também os grandes incorporando os menores para se atualizar.” Seguros, saúde e logística são outros setores que tendem a continuar crescendo e atraindo recursos.
Os juros mais altos podem, contudo, atrapalhar a captação dos novos veículos em reais porque voltou a haver a situação em que o gestor de fundos de pensão não tem motivação para migrar de uma renda fixa, que paga 5%, 6% de juro real, para um ativo de maior risco, avalia Haddad.
Assim como houve um movimento de correção lá fora nas avaliações das companhias novatas, o Brasil também experimenta essa revisão, diz Minardi. “Tem ajustes nos ‘valuations’, acabou a euforia. Isso pode ser determinante para rodadas à frente, inclusive o formato. As empresas menores vão ter que pensar em como vão tomar dinheiro. Não atrapalha o fluxo, mas as negociações.”
O executivo diz já observar uma volta à racionalidade, principalmente em negócios em estágio mais avançado [“late stage”] e de crescimento. “Nas rodadas ‘A’ e ‘B’ [iniciais], os investidores também estão mais criteriosos, querem saber se a companhia já se provou ou não.”
Com R$ 2,5 bilhões investidos em 15 companhias, a Kinea está concluindo a captação do seu quinto fundo, que levantou R$ 2,4 bilhões do ano passado para cá. “Foi um período em que o setor sofreu muito, mas nós fomos uma das exceções”, diz Cristiano Lauretti, gestor de private equity da casa, referindo-se ao fato de as carteiras de venture capital liderarem os investimentos em 2021, algo que era impensável nos seus mais de 20 anos de histórico profissional.
A operação até aqui foi ancorada pelo investidor local, que capturou resultados em fundos anteriores (média de 20% ao ano) e se motivou a participar, a despeito da alta de juros e das eleições no segundo semestre. “No passado, ele não entendia essa classe e passou a compreender a importância de ter uma parcela de x% em renda variável e, dentro dela, y% em ativos ilíquidos, passou a ver a relevância disso nos diferentes ciclos que o Brasil viveu, seja na recessão ou em outros bons.”
Com o dinheiro novo, ele diz que o plano é ter mais oito a dez investimentos, com aportes entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões, por fatias minoritárias. Saúde, educação, agronegócio e tecnologia estão entre as preferências, afirma Lauretti.
A onda de venture capital no Brasil foi alimentada por competidores gigantes como SoftBank, mas o private equity também avança em ritmo acelerado, diz Gabriel Felzenszwalb, sócio da Vinci Partners, gestora que fez três transações nos últimos 12 meses.
O executivo considera que o arrefecimento que se viu lá fora com as teses de venture capital também vai ser observado aqui, mas vê um bom momento à frente para o capital de risco. Com o Brasil bem posicionado para surfar um novo ciclo de commodities, esse impulso extrapola para outros setores da economia. “Com as dificuldades geopolíticas, os investidores globais podem eventualmente tirar um pouco da Ásia e olhar mais para a América Latina e África, é um movimento secular.”
Fonte: Valor Econômico