A divulgação do balanço do terceiro trimestre do fundo Vinci Energia (VIGT11), da Vinci Partners, informando um corte de 35,4% nos rendimentos distribuídos neste ano e de até 81% em 2025, agitou o mercado nesta terça-feira e levou a uma forte queda do valor da cota. Na B3Cotação de B3, onde o FIP-Infraestrutura (FIP-IE) é negociado, o recuo foi de 36,95% no dia, de R$ 54,58 na segunda-feira para R$ 34,41, na mínima do dia. O volume de negociação também explodiu, da média diária de R$ 1 milhão para mais de R$ 15,987 milhões.
No início da noite, em meio à tensão entre investidores, gestores da Vinci fizeram uma apresentação dos resultados fechada para cotistas duramente criticada em fóruns especializados. “Webinar ridículo, parece que está tudo normal, perguntas provavelmente elaboradas por eles”, disse um deles. “Aguardando mais 30% de queda para comprar mais algumas cotas”, afirmou outro.
O VIGT11 investe em participações de ativos de geração e transmissão de energia operacionais (sem risco de construção) e é voltado a investidores qualificados. O relatório apontou forte impacto dos cortes na geração de energia determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), conhecido como “curtailment”, na receita das empresas que compõem a carteira do fundo.
O mais afetado foi o parque eólico de Mangue Seco, no Rio Grande do Norte, que sofreu cortes do ONS de 40% no trimestre, segundo o balanço da Vinci. Além disso, a transmissora Vineyards teve acessos e torres atingidas pelos eventos climáticos no Rio Grande do Sul, em maio, e terá novos gastos de recuperação de R$ 15,8 milhões nos próximos meses, ainda conforme o relatório.
“Com o persistente cenário de taxas de juros elevadas, a gestão vem trabalhando em alternativas para mitigação desse impacto, que considera ações para redução na alavancagem das companhias, tais como: o alongamento das dívidas, alternativas de reperfilamento, ou a reciclagem do portfólio”, afirma o relatório.
Fontes próximas à Vinci afirmaram ao Valor que a avaliação na gestora é de que houve exagero na reação do mercado, já que, na visão da asset, os eventos que estão afetando as empresas são temporários e o valor dos ativos permanece o mesmo. Procurada, a Vinci Partners preferiu não comentar o assunto.
Com patrimônio de R$ 662,5 milhões e 7,5 mil cotistas, até setembro os rendimentos eram pagos trimestralmente. O projetado para este ano era de distribuição entre R$ 9 e R$ 9,60 por cota, mas o valor será de R$ 6,20, montante 35,5% menor. Nos dois primeiros trimestres de 2024, foram distribuídos R$ 2,25 em cada um, no terceiro, R$ 1,60 e agora, no último trimestre, R$ 0,10.
A partir de dezembro, a distribuição será mensal e no valor de R$ 0,10 ao menos até março. Entre abril e dezembro, a projeção é de pagamento total entre R$ 1,50 e R$ 2,70 aos cotistas. No total, portanto, em 2025 a distribuição de rendimentos inicialmente estimada em R$ 9,50 por cota cairá para algo entre R$ 1,80 e R$ 3, uma redução que pode chegar a 81%.
O documento atribui a diminuição na distribuição de rendimentos a uma geração eólica 29% menor que a meta diante da expectativa de continuidade do curtailment ao longo de 2025, ao contingenciamento de recursos para reparos no Rio Grande do Sul e ao aumento nas despesas financeiras dos ativos em carteira em R$ 8,6 milhões por causa da elevação da Selic. Os gestores esperam que o impacto menor a partir de 2026, com a entrada em operação de novas linhas de transmissão para escoar a produção de energia.
No ano até outubro, o total de perdas estimado pelas associações de usinas solares e eólicas, que concentram as suspensões determinadas pelo ONS, é de R$ 1,7 bilhão. Só no terceiro trimestre, 14% de toda a energia renovável gerada no Brasil foram para o lixo, segundo relatório do Itaú BBA.
Os cortes seletivos sem ressarcimento às usinas se intensificaram fortemente a partir de 15 de agosto de 2023, depois do blecaute que afetou 25 Estados e o Distrito Federal. Segundo o ONS, o apagão aconteceu por conta do desligamento de uma linha de transmissão no Ceará, que desencadeou o apagão, após uma falha no desempenho de equipamentos de parques eólicos e solares.
O órgão afirma que os equipamentos responsáveis pelo controle de tensão funcionaram abaixo do ideal. Para evitar nova desestabilização do sistema, o ONS passou a ser mais conservador e ampliou o curtailment.
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