Autoridades comerciais estão avaliando as consequências da mais nova escalada na batalha tecnológica entre EUA e China, depois que Pequim disse que imporá restrições às exportações de metais usados na fabricação de chips.
O Ministério do Comércio da Coreia do Sul convocou uma reunião de emergência para discutir a decisão da China de controlar as exportações de gálio e germânio, metais usados em chips, veículos elétricos e uma série de produtos de telecomunicações.
“Não podemos descartar a possibilidade de a medida ser estendida para outros itens”, disse Joo Young-joon,vice-ministro do Comércio da Coreia do Sul.
O ministro do Comércio do Japão, Yasutoshi Nishimura, disse que Tóquio está estudando o impacto sobre as companhias japonesas e também verificando os planos de Pequim para a implementação dos controles. Tóquio manteve a porta aberta para alguma iniciativa da Organização Mundial do Comércio (OMC), alertando que seria contra qualquer violação das regras internacionais.
Coreia do Sul e Taiwan abrigam a Samsung e a TSMC, companhias que dominam a fabricação de semicondutores, enquanto as empresas japonesas têm um papel muito importante na cadeia de suprimentos de chips.
Roy Lee, vice-ministro das Relações Exteriores de Taiwan, disse que a decisão de Pequim deverá ter algum impacto de curto prazo, como aumento dos preços. Os controles às exportações “serão um tipo de acelerador para países como Taiwan, Coreia do Sul e Japão reduzirem nossa dependência da China pelo fornecimento desses materiais críticos”, acrescentou Lee.
Na Alemanha, maior importador europeu de metais, Wolfgang Niedermark, membro do conselho do grupo lobista industrial BDI, disse que os controles mostram o quão perigosa é a dependência que a Europa tem da China.
“A Europa e a Alemanha precisam reduzir rapidamente a dependência da China” em matérias-primas importantes, acrescentou ele.
O anúncio de Pequim, na segunda-feira, mostra como o governo de Xi Jinping está disposto a atingir interesses ocidentais, em reação ao aperto de Washington no acesso da China a tecnologias sofisticadas. As restrições aos metais são significantes porque a China domina a produção de muitas matérias-primas fundamentais para a tecnologia e a infraestrutura modernas.
Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, disse nesta terça-feira que Pequim “implementa medidas justas e não discriminatórias de controle de exportações”. Ela afirmou que as medidas são “uma prática internacional comum e não visam um país específico”.
O gálio e o germânio estão entre as dezenas de minerais classificados pelo governo dos EUA como críticos para a segurança econômica e nacional. O Departamento de Estado dos EUA não respondeu a um pedido para comentários.
A decisão ocorre dias antes de uma visita da secretária de Estado americana, Janet Yellen, a Pequim, que começa nesta quinta-feira — uma viagem anunciada como uma tentativa de estabilizar as turbulentas relações entre EUA e China.
“Isso parece um soco da China nos EUA — um alerta sobre o que interrupções nas cadeias de suprimentos podem fazer com a inflação, as taxas de juros e a eleição presidencial”, diz CW Chung, analista da Nomura em Cingapura.
Segundo autoridades e especialistas em China, Pequim deverá introduzir outras medidas retaliatórias em resposta à ampliação dos controles às exportações liderados pelos EUA. “Haverá mais medidas retaliatórias contra controles crescentes de países ocidentais às exportações de semicondutores”, diz uma autoridade próxima do Ministério do Comércio da China.
As ações dos produtores chineses de gálio e germânio subiram nesta terça-feira após o anúncio, com operadores acreditando que os controles às exportações elevarão os preços desses metais.
As ações da Yunnan Lincang Xinyuan Germanium Industrial fecharam com a alta máxima de 10% permitida em Shenzehn nesta terça-feira, enquanto as ações da Yunnan Chihong Zinc & Germanium fecharam em alta de 6%. A alta acrescentou um total de US$ 350 milhões ao valor de mercado combinado das duas empresas.
“Veremos a China se engajar na aplicação extraterritorial de suas leis, renegando as obrigações do tratado e impondo contramedidas de maneira recíproca – tudo em nome da percepção de segurança nacional da China e de seu interesse público”, diz James Zimmerman, um advogado da Perkins Coie em Pequim.
Zimmerman também observa que a China aprovou na semana passada uma lei de relações externas que, aos olhos de Pequim, fortaleceu a base legal para contramedidas às ameaças à sua segurança nacional e econômica.
Kim Yang-paeng, um pesquisador do Kore Institute for Industrial Economics and Trade, diz que as restrições são “preocupantes” para os fabricantes de chips coreanos. “As companhias coreanas conseguirão encontrar fontes alternativas, mas isso levará algum tempo… Se você carece de alguns materiais, não importa o quão importantes eles são, isso poderá afetar a produção de chips”, diz ele.
Samsung e SK Hynix, os dois maiores produtores mundiais de chips de memória, não quiseram comentar. O tabloide nacionalista chinês “Global Times” disse que os controles às exportações ocorrem depois que os EUA e alguns de seus aliados “intensificaram implacavelmente a repressão ao desenvolvimento tecnológico da China”.
Fonte: Valor Econômico

