Por Gideon Rachman, Valor — Financial Times
06/03/2023 21h11 Atualizado há 11 horas
Escolha de fornecer armas à Rússia sugeriria que a China acredita que uma intensificação da rivalidade com os EUA é inevitável
O presidente chinês, Xi Jinping, chamou o colega Vladimir Putin de seu melhor amigo. Mas agora, o líder russo precisa urgentemente da ajuda da China. O Exército de Putin está atolado na Ucrânia e ficando sem munição.
Xi deve mostrar que é de fato um amigo, fornecendo armas para a Rússia? A decisão da China dirá muita coisa sobre como o país vê o futuro do mundo.
A escolha de fornecer armas para a Rússia sugeriria que a China acredita que uma intensificação da rivalidade com os EUA é inevitável — e talvez desejável. Por outro lado, uma decisão de não fornecer armas para a Rússia indicaria que a China ainda acredita que as tensões com os EUA podem ser administradas e que a globalização pode ser salva.
“Alvorecer da terceira guerra mundial”
Vozes influentes em Pequim entendem perfeitamente os riscos de fornecer à Rússia as munições cruciais que faltam às forças de Moscou — como projéteis de artilharia e drones. Na semana passada, Zhou Bo, um ex-coronel do Exército chinês, escreveu no “Financial Times”: “Se Pequim ficar do lado de Moscou no conflito, então já estamos no alvorecer da terceira guerra mundial”.
Dito assim, uma decisão chinesa de fornecer armas à Rússia parece inconcebível. E, mesmo assim, o governo dos EUA acredita que há uma discussão séria em Pequim — e que a China poderá acabar tomando essa decisão fatídica.
O motivo pelo qual Xi poderá decidir aumentar dramaticamente o apoio a Putin remonta à parceria “ilimitada” anunciada pelos líderes russo e chinês em fevereiro de 2022 — três semanas antes de a Rússia lançar sua invasão em grande escala da Ucrânia.
Mais importante que o anúncio da parceria foi a análise compartilhada que a sustentou. Putin e Xi estabeleceram uma visão comum sobre o mundo. Ambos veem os EUA como a principal ameaça às ambições e regimes políticos de seus países. Lutar contra os EUA é a tarefa comum que os une.
Xi visitou Putin mais do que qualquer outro líder mundial. O pior cenário para ele seria a queda de Putin e sua substituição por um líder pró-ocidental. Isso ainda parece uma possibilidade remota. Mas, mesmo que Putin permaneça no poder, uma Rússia humilhada e enfraquecida faria os EUA parecerem ressurgentes, e a China, isolada. Há em Pequim quem afirme que, uma vez que os EUA tiverem resolvido o problema da Rússia, eles se voltariam contra a China.
Há mais duas razões pelas quais a China poderá se arriscar a apoiar Putin. A primeira é que os conselheiros mais próximos de Xi podem ter mais confiança do que Zhou de que a China conseguiria controlar o risco de escalada. Eles afirmam que, uma vez que Washington perceber que Pequim não deixará Moscou perder, o Ocidente pressionará a Ucrânia a fazer um acordo de paz em termos aceitáveis para a Rússia.
Invasão de Taiwan
A segunda razão pela qual a China pode arriscar um conflito global é mais sombria. Os nacionalistas de Pequim podem acreditar que o confronto direto com os EUA já começou. A CIA afirma que Xi já instruiu os militares chineses a se prepararem para invadir Taiwan até 2027. Joe Biden já disse várias vezes que os EUA defenderiam Taiwan se a ilha fosse atacada.
É claro que há uma diferença entre a China desenvolver capacidade para invadir Taiwan e tomar uma decisão firme de atacar. Mas, se os analistas ocidentais mais pessimistas estiverem corretos — e a China estiver se aproximando de uma invasão —, então faria sentido para Pequim apoiar o esforço de guerra russo. Se o Ocidente tiver que continuar despejando recursos militares na Ucrânia, ele poderá ter menos recursos disponíveis para defender Taiwan.
No entanto, a desvantagem para a China de fornecer armas para a Rússia é também clara. O clima anti-China em Washington, já muito poderoso, dispararia. Todas as formas de pressão imaginadas pelos americanos seriam exercidas sobre a China. As restrições às exportações de tecnologia já existentes seriam complementadas por sanções muito maiores.
Pequim também perderia qualquer esperança de semear uma discórdia entre a União Europeia e os EUA. O apoio militar chinês à Rússia seria visto como uma ameaça direta à segurança da Europa. Restrições da UE aos laços comerciais e de investimentos com a China certamente viriam logo.
Pequim sabe que empresas e consumidores ocidentais dependem muito da China para que o Ocidente tente um descolamento econômico completo. Mas, se o comércio com o Ocidente caísse até 30%, os resultados seriam sentidos na forma de um maior desemprego na China — o que preocupa um governo que é muito sensível a demonstrações de agitação popular.
A visita
Por esse motivo, a China poderá optar por uma concessão difícil. Ela continuará se apresentando como um mediador neutro da paz na Ucrânia, garantindo a visitantes, como o premiê da Alemanha, Olaf Scholz, que não tem intensão de fornecer munições à Rússia. Enquanto isso, ela poderá tentar canalizar armamentos para a Rússia indiretamente, talvez por meio de países como Irã ou Coreia do Norte. O presidente do Irã, Ebrahim Raisi, visitou Xi em Pequim no mês passado — a primeira visita de um presidente iraniano à China em 20 anos.
Mas uma política de apoio militar chinês secreto ou dúbio à Rússia não representa uma bala de prata para Pequim. Ela poderá ser muito restrita para virar a maré a favor de Putin. E ainda estaria vulnerável à detecção pelos EUA.
O apoio militar indireto da China à Rússia poderá acabar se mostrando uma rota tortuosa para o mesmo destino: um confronto direto com os EUA.
Fonte: Valor Econômico