A NFL, a liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos, aprovou grandes mudanças em suas regras de propriedade que permitirão a firmas de “private equity” investirem em equipes, abrindo pela primeira vez o esporte mais lucrativo do país ao setor.
Na terça-feira (27), os donos da NFL deram sinal verde para as mudanças, que permitirão aos proprietários de times venderem participações minoritárias às firmas de “private equity”.
A liga indicou um pequeno grupo de gestores de investimento, incluindo nomes como Ares Management, Arctos Partners, Sixth Street e um consórcio composto por Blackstone, Carlyle, CVC, Dynasty Equity e Ludis, fundado e liderado pelo ex-jogador de futebol americano Curtis Martin, como compradores preferenciais para os proprietários que desejem vender.
A NFL permitirá às empresas adquirirem até 10% do capital social de cada equipe, mas impedirá investimentos em ações preferenciais, algo já comum em outras ligas.
Cada investidor aprovado se comprometeu a investir pelo menos US$ 2 bilhões na liga, incluindo capital alavancado, sendo que poderá dividir a quantia entre vários times. Estima-se que o compromisso total chegará a US$ 12 bilhões. A NFL exigiu que as firmas mantenham as participações em cada time por pelo menos seis anos e limitou o investimento a seis times por empresa.
Um alto executivo da NFL acrescentou que as empresas escolhidas como investidores foram selecionadas, em parte, pela capacidade de entrar com uma grande quantidade de capital desde o “primeiro dia”, mas que mais empresas devem ser adicionadas à lista.
Depois da onda de valorização das equipes que as levou a serem estimadas em bilhões de dólares, o negócio abrirá caminho para que os donos de times que desejem monetizar suas participações possam fazê-lo, e, enfim, trará Wall Street para a liga esportiva mais rica dos EUA.
“O apoio hoje na sala [da diretoria] foi muito forte”, disse Greg Penner, presidente do conselho de administração do Walmart e dono do Denver Broncos, sobre a votação dos donos das equipes.
Penner acrescentou que, para a liga, era uma questão importante poder oferecer “aos donos uma opção diferente de fontes de capital, mas ao mesmo tempo manter” sua forma de operar e o “ethos central” de serem sócios. “[São] trinta e dois donos em torno da mesa, tomando decisões, deliberando, e isso não mudará com este passo dado hoje.”
A NFL é a última grande organização esportiva dos EUA a se abrir a investimentos institucionais. A MLB, a liga profissional de beisebol dos EUA, foi a primeira a fazê-lo, em 2019, e logo foi seguida pelas grandes ligas de futebol, basquete e hóquei dos EUA.
A lista de compradores preferenciais da NFL representa a elite do mundo dos investimentos esportivos. A Ares, que gerencia mais de US$ 400 bilhões, investiu no Chelsea FC, da primeira divisão do futebol inglês, e no Inter Miami, da liga americana de futebol.
A Arctos comprou participações no time de basquete Golden State Warriors e, indiretamente, no Boston Red Sox, da MLB; a Sixth Street investiu na equipe de basquete San Antonio Spurs e no clube Real Madrid; e a Dynasty possui uma participação minoritária no Liverpool, do futebol inglês.
Há tempos, os investidores cobiçam o futebol americano dos EUA, que possui o pacote de direitos de transmissão mais lucrativo e caro do país. O contrato de 11 anos no valor de US$ 110 bilhões e os acordos de divisão de receita, assinados em 2021, impulsionaram as estimativas de valores dos times da liga. As equipes também têm sido vendidas por preços cada vez mais altos.
Em 2022, o herdeiro do Walmart, Rob Walton, liderou um grupo de investidores, do qual Penner também faz parte, que comprou o Denver Broncos por um valor noticiado de US$ 4,6 bilhões. No ano seguinte, os Washington Commanders, também de futebol americano, foram comprados por US$ 6 bilhões pelo cofundador da Apollo Global Management, Josh Harris.
Agora que as franquias da NFL trocam de mãos por bilhões de dólares, ficou mais difícil para que bilionários paguem sozinhos o dinheiro necessário para cobrir o valor total. Ao flexibilizar as regras de propriedade, a NFL tornará mais fácil para as equipes levantarem capital e para os proprietários existentes venderem suas participações ou saírem do investimento.
“Eles precisam se institucionalizar e aumentar o valor das franquias”, disse um investidor de “private equity”. “Josh comprou os Commanders por US$ 6 bilhões e, se ele quiser vender por US$ 10 bilhões a US$ 12 bilhões no futuro… poucas pessoas têm esse dinheiro. A lei dos grandes números está entrando em cena.”
Ainda assim, as regras de propriedade da NFL continuam bem mais rigorosas do que as de outros esportes e ligas, nos quais as firmas de “private equity” e outros fundos de investimento podem adquirir o controle total dos times.
A RedBird Capital Partners, empresa de investimento fundada por Gerry Cardinale, que trabalhou na área de fusões do Goldman Sachs, é dona do clube de futebol italiano AC Milan, enquanto a Oaktree Capital, que tem sede em Los Angeles e investe em dívidas inadimplentes, assumiu o controle do rival Inter de Milão em maio, depois de os proprietários chineses do clube de futebol não terem conseguido pagar um empréstimo de 400 milhões de euros.
Em 2022, a firma de private equity Clearlake Capital e o financiador americano Todd Boehly encabeçaram a aquisição do Chelsea por 2,5 bilhões de libras esterlinas (US$ 3,18 bilhões). Entidades vinculadas a Estados também têm mais liberdade no futebol europeu.
Em 2021, o fundo soberano da Arábia Saudita comprou uma participação majoritária no clube inglês Newcastle United. A Qatar Sports Investments é dona dos campeões franceses Paris Saint-Germain, que agora conta com a Arctos como acionista minoritário.
Nos EUA, em 2023, o Qatar Investment Authority, um fundo soberano, comprou uma participação de 5% na empresa controladora dos times profissionais de basquete e de hóquei de Washington por US$ 200 milhões.
(Tradução de Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico
