Segundo três pessoas bem-informadas sobre a situação, Washington e Pequim vão criar dois grupos de trabalho para focar em questões regionais e em assuntos marítimos da Ásia-Pacífico e, possivelmente, um terceiro grupo, que deverá se concentrar em áreas mais amplas.
A iniciativa ocorre em meio à tensão instaurada entre as potências em torno de temas que vão desde a atividade assertiva da China em torno de Taiwan e sua recusa em condenar a invasão da Ucrânia até as preocupações de Pequim com as alianças dos EUA no Indo-Pacífico e com os rígidos controles sobre as exportações implementados pelo governo americano.
O “Financial Times” informou nesta semana que a Casa Branca pedirá ao Congresso mais dinheiro para armas destinadas a Taiwan, em uma medida que, se aprovada, levará os contribuintes americanos a financiar o fornecimento de armas pela primeira vez. Além disso, o presidente Joe Biden, está prestes a emitir uma ordem executiva que restringirá os investimentos americanos em setores chineses que envolvam aplicações militares.
Prevê-se que autoridades americanas e chinesas concluirão os detalhes nos próximos meses. A articulação foi discutida quando Yang Tao, uma graduada autoridade chinesa, se reuniu com altos funcionários do governo americano em Washington, no dia 31 de julho. Uma quarta pessoa chamou a atenção para o fato de que os dois lados ainda não tinham alcançado uma decisão definitiva.
A medida é o primeiro avanço tangível rumo à meta pactuada por Biden e pelo presidente chinês, Xi Jinping, em Bali, em novembro, de instaurar “um piso sob a relação, para impedir que a competição descambe para o conflito”.
Segundo essa quarta fonte, os dois lados estudam realizar uma série de reuniões para abordar questões difíceis com metas claras, mas que os EUA não estão reeditando os “diálogos” formais realizados em antigos governos, que críticos agora dizem terem se concentrado demais no processo, e não nos resultados.
A aversão a criar “diálogos” oficiais ocorre depois que os republicanos do Congresso americano atacaram o governo por promover a retomada de interações de alto nível com Pequim que o presidente da Câmara para a China, Mike Gallagher, descreveu como “um compromisso zumbi”.
“Este seria o primeiro avanço real em alguns anos na recriação de comunicação sistemática — em contraposição a comunicação ‘ad hoc’ [voltada para determinado fim] — sobre questões centrais”, disse Kurt Tong, sócio-executivo da consultoria The Asia Group. “É uma maneira muito importante de reforçar a segurança nacional por meio da comunicação diplomática clara das intenções a um adversário potencial, tanto para dissuasão quanto para [fornecer] garantias.”
A iniciativa de criar os grupos segue-se a visitas de altas autoridades americanas à China, meses após esforços para restaurar as relações terem sido abortados devido ao suspeito balão de espionagem chinês. A secretária do Tesouro americana, Janet Yellen, visitou recentemente a China e a secretária do Comércio, Gina Raimondo, fará o mesmo em breve.
“É de profundo interesse nacional dos EUA intensificar a comunicação com a China em questões críticas, onde guerra e paz estão em jogo”, disse Scott Kennedy, especialista em China do instituto de análise e pesquisa CSIS.
Ryan Hass, especialista em China da Brookings Institution, disse que os EUA não estão interessados em negociar apenas por negociar e que não retomaram os diálogos formais que existiram no passado. “Eles não cederam nada em troca dos intercâmbios que tiveram com seus colegas chineses. Espero que essa postura se mantenha.”
Bonnie Glaser, especialista em China do German Marshall Fund, saudou a disposição da China de formar grupos de trabalho com os EUA, mas disse que resta conferir se os novos canais produzirão resultados.
“Será que Pequim estará disposto a trabalhar com os EUA para pressionar a Coreia do Norte a voltar às negociações sobre a eliminação de suas armas nucleares ou a discutir qual poderia ser a participação da China em pôr um fim na guerra da Ucrânia?”, perguntou ela.
Fonte: Valor Econômico