Por Sam Fleming, Henry Foy e Andy Bounds, Financial Times — Bruxelas
31/03/2023 11h10 Atualizado há 2 dias
A Europa deveria rejeitar as exigências de Washington para restringir o comércio com Pequim, disse na quinta-feira um diplomata de alto escalão da China, alertando que qualquer país que romper os laços comerciais com Pequim estará fazendo isso “por sua própria conta a risco”.
Fu Cong, embaixador da China na União Europeia (UE), disse que os Estados Unidos “não pararão por nada” no esforço para interromper as relações entre o bloco e a China, acrescentando que “uma tendência protecionista” está crescendo na Europa.
“Quem em sã consciência abandonaria um mercado tão grande e próspero como a China?”, disse Fu ao “Financial Times” (FT), alertando os políticos europeus para que eles não arruínem a relação positiva com a China. “Isso seria apenas por sua conta a risco”.
O embaixador citou a Holanda por ter “cedido à pressão dos EUA” ao anunciar restrições às exportações para a China de tecnologia de ponta para a produção de semicondutores. Ele deu a entender que Pequim poderá retaliar dependendo da extensão dos controles.
“Esperamos que os governos europeus e os políticos europeus consigam ver onde estão seus interesses e então resistam à pressão injustificada dos EUA”, disse Fu, pedindo que a UE persista no esforço por “autonomia estratégica”.
Ao se referir à Holanda, ele acrescentou: “Eles precisam estar cientes do fato de que a China não pode ficar simplesmente sentada e ver seus interesses serem pisoteados desse jeito, sem adotar nenhuma medida em resposta”.
Fu falou no mesmo dia em que Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, prometeu endurecer a fiscalização dos fluxos de comércio e investimentos em áreas tecnológicas sensíveis como a computação quântica e a Inteligência Artificial (AI).
Bruxelas precisa desenvolver “novas ferramentas de defesa” à medida que atualiza suas políticas de segurança diante de uma China cada vez mais assertiva, disse Leyen em um discurso. “Uma política entre Europa e China forte depende de uma coordenação forte… e uma disposição para evitar as táticas de dividir para conquistar que sabemos que poderemos enfrentar”.
Os EUA intensificaram os esforços para convencer aliados a endurecer a postura em relação à China, à medida que as relações entre as duas superpotências econômicas azedam em relação a Taiwan e o apoio de Pequim à Rússia. Leyen está tentando seguir uma linha distinta da dos EUA, enfatizando que seu objetivo não é “dissociar” da China e sim “eliminar riscos”.
Os laços das empresas chinesas com alguns países europeus continuam sólidos. Companhias alemãs investiram um montante recorde de 11,5 bilhões de euros na China em 2023, segundo um estudo divulgado na quarta-feira pelo Institut der deutschen Wirtschaft, um centro de estudos alemão.
Propostas recentes da UE para reduzir a dependência das importações chinesas incluem melhorar o fornecimento de matérias-primas críticas e incrementar a produção interna de tecnologia verde. Novos instrumentos de defesa comercial também dão mais poderes para a UE retaliar contra a intimidação econômica e restringir o acesso de empresas ou produtores subsidiados pelo Estado chinês que usam trabalho forçado.
“Muitas das medidas são, na verdade, uma violação das regras da Organização Mundial do Comércio”, disse Fu, sugerindo que Pequim se queixará formalmente ao organismo sediado em Genebra.
Os EUA e seus aliados acusam a China de prejudicar o sistema comercial global por meio do uso de subsídios industriais maciços, restrições à entrada de investimentos e violações das proteções à propriedade intelectual.
A retificação de um acordo de investimentos entre os EUA e a China empacou em 2021, depois que Pequim impôs sanções a membros do Parlamento Europeu. Fu disse esperar que a liderança da UE “reúna coragem suficiente e também força política” para dar a aprovação final ao acordo.
Perguntado se a China suspenderá as sanções para desbloquear o processo, ele disse que Pequim está aberta a “todas as soluções, contanto que elas sejam baseadas na reciprocidade e igualdade”.
O embaixador disse que foi um erro da UE permitir que a guerra na Ucrânia ditasse suas relações com a China. “Não acho que seja uma abordagem racional vincular as relações com a China apenas à crise ucraniana”, disse ele, acrescentando que os “interesses de segurança legítimos” da Rússia precisam ser respeitados: “A situação não é tão preto no branco como algumas pessoas pensam”.
Mas ele sustentou que há “espaço para negociação e até mesmo para a China e a UE se juntarem na promoção da paz”.
Ele acrescentou que “nenhuma possibilidade está excluída” em relação a um possível telefonema ou encontro entre o presidente Xi Jinping e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, observando que autoridades chinesas de alto escalão estão em contato com seus colegas ucranianos.
Fonte: Valor Econômico


