Quando Donald Trump irrompeu na cena política dos Estados Unidos em 2015, ele se declarou como um aficionado dos livres mercados — com um porém.
“Sou 100% livre-mercadista”, disse aos republicanos quando disputava a indicação do partido para a presidência. “Mas precisamos de pessoas espertas negociando. E nós não temos pessoas espertas negociando.”
Passados dez anos, já com sete meses de seu segundo mandato como presidente, Trump assumiu, ele próprio, esse papel de negociador, com uma abordagem transacional para a presidência que virou de ponta-cabeça a forma como o governo dos EUA trata as empresas privadas e estilhaçou a filosofia de livre mercado do Partido Republicano.
Na sexta-feira (22), o presidente anunciou mais um acordo: o governo dos EUA assumirá uma participação de 10% na fabricante de chips Intel, que passa por dificuldades, valendo-se de verbas federais já aprovadas para financiar um investimento de US$ 8,9 bilhões no capital social da empresa.
A decisão vai diretamente contra a ortodoxia republicana, que exalta os benefícios do capitalismo de livre mercado e se opõe, em termos gerais, a intervenções estatais no mundo empresarial americano.
“Em termos de políticas governamentais dos EUA, isso é totalmente pirado”, disse Scott Lincicome, vice-presidente da área de economia geral do centro de estudos libertário Cato Institute.
“A única vez em que fizemos isso foi durante guerras ou durante a Grande Recessão [2007 a 2009], quando a argumentação basicamente era: é isso ou o colapso econômico.”
“Isso abre a porta para uma espécie de capitalismo gerido pelo Estado sobre o qual nós conservadores tipicamente falamos contra”, disse Bob Inglis, ex-deputado republicano da Carolina do Sul, um autodeclarado republicano reaganista. “Mas estes não são tempos típicos, e este não é um Partido Republicano conservador.”
Trump rejeita críticas como essas com veemência. Diz que Washington não pagou nada pela participação na Intel, pois o acordo foi financiado por verbas disponíveis que ainda estavam sem aplicar.
A fabricante de semicondutores, hoje em dificuldades após décadas como um dos grandes nomes tecnológicos do Vale do Silício, contabilizou seis trimestres consecutivos de prejuízo líquido, em razão do fraco desempenho de suas operações de produção de chips.
“Por que pessoas ‘estúpidas’ estão descontentes com isso? Eu vou fazer acordos como esse para o nosso país o tempo todo”, disse Trump, na plataforma de relacionamento social on-line Truth Social.
O executivo-chefe da Intel, Lip-Bu Tan, também comemorou o negócio, em uma publicação na plataforma X, acompanhada de uma foto dele com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, ambos exibindo grandes sorrisos.
“Estou animado com o trabalho à frente para assegurar que a mais avançada tecnologia de silício e os produtos de computação do futuro sejam projetados e fabricados bem aqui, nos EUA”, disse Tan.
O negócio com a Intel foi apenas mais um na série de jogadas intervencionistas do presidente, mais parecidas ao capitalismo de Estado europeu dos anos 1960 do que à ortodoxia de livre mercado que, por décadas, guiou o Partido Republicano.
Em junho, em troca de uma chamada “participação dourada” para o governo, Trump deu luz verde à compra da US Steel pela japonesa Nippon Steel. Em julho, o Pentágono tornou-se o maior acionista da MP Materials, operadora da única mina ativa de terras raras dos EUA.
Mais recentemente, o presidente disse que os EUA permitiriam à Nvidia e AMD venderem seus chips para a China, em troca de uma fatia de 15% das receitas dessas operações.
Segundo a Casa Branca, o governo Trump, ao mesmo tempo, também leva adiante políticas de livre mercado — como medidas de desregulamentação e cortes de impostos — “para restaurar os EUA como a economia mais dinâmica do mundo”.
As intervenções em setores como os de chips e de aço foram pensadas para combater “políticas dos EUA em último lugar e, finalmente, proteger” a segurança nacional e econômica, acrescentou a Casa Branca.
A atitude mais intervencionista recebeu elogios de alguns antigos críticos de Trump, assim como de executivos da área de tecnologia, que cada vez mais se adaptam ao modo dele de fazer negócios, para evitar se tornarem alvos do presidente.
Mark Cuban, investidor bilionário e apoiador de Kamala Harris na eleição presidencial de 2024, disse que a decisão de Trump de pressionar a Nvidia e a AMD a repassar parte das receitas ligadas à China ao Estado é uma boa medida redistributiva, que deveria ter sido apoiada pelos democratas.
“Isso é um ‘imposto sobre bilionários’ estruturado como um royalty ou imposto sobre vendas de semicondutores da empresa mais valiosa do mundo, vendidos para a China”, disse Cuban no X.
“Se isso vai compensar a explosão dos déficits que enfrentamos? Da forma como está agora, não. Nem de perto. Mas dê a ele o crédito por saber como esses CEOs abordam problemas e oportunidades, e por usar seu poder de influência para gerar arrecadação tributária”, acrescentou Cuban. “O presidente dos EUA é mais progressista em matéria de tributação do que qualquer um na ala progressista dos democratas jamais foi.”
O presidente tem deixado claro que a inserção do governo dos EUA em assuntos do setor privado está longe de terminar. “Espero ter muitos outros casos como este”, disse Trump, na segunda-feira, referindo-se ao acordo com a Intel.
Especialistas fazem a ressalva de que o presidente não é guiado por alguma mudança ideológica, mas, sim, por décadas de experiência negociando como magnata imobiliário em Manhattan, tratando as interações com o mundo empresarial como uma oportunidade de trocas de favores.
“Minha interpretação é que isso é bem pouco pensado, bem pouco estratégico”, disse Michael Strain, diretor de estudos de política econômica do centro de estudos American Enterprise Institute, de tendência direitista.
“O que estamos vendo, mais do que uma reorientação estratégica em direção ao capitalismo de Estado, é o presidente, de forma inadequada, extorquindo empresas privadas por achar que isso faz dele um melhor negociador.”
Carlo Invernizzi Accetti, professor de ciências políticas do City College, de Nova York, acrescentou que “a disposição de [Trump] em intervir nos mercados, empregando o poder estatal para produzir resultados específicos, poderia ser reminiscente do ‘dirigismo’ francês dos anos 1950 e 60, não fosse tão descaradamente clientelista e de autointeresse”.
A abordagem rendeu elogios de vozes improváveis para um presidente republicano, assim como reprovações de aliados tradicionais.
Bernie Sanders, senador de esquerda, elogiou o acordo da Intel, espelhado em uma proposta dele próprio, de que o governo recebesse participação acionária em troca dos subsídios concedidos pela Lei Chips de 2022.
“Estou contente pelo governo Trump estar de acordo com a emenda que apresentei há três anos”, disse Sanders, em comunicado.
“Se as empresas de microchips ganham um lucro a partir dos generosos subsídios que recebem do governo federal, os contribuintes dos EUA têm direito a um retorno razoável sobre esse investimento.”
Em Wall Street, porém, a recepção foi bem mais fria entre os tradicionais aliados republicanos no mundo empresarial.
“Três diretores, que vinham sendo bem favoráveis a Trump, me ligaram, na última semana mais ou menos, muito alarmados com essa tendência”, disse um assessor sênior que trabalha com algumas das maiores empresas americanas e seus CEOs.
“A maior preocupação deles é que isso venha a levar a uma distorção da política governamental em favor de empresas nas quais o governo tenha interesse financeiro.”
Trump prometeu que a participação do governo na Intel será passiva, sem representação no conselho de administração ou outros direitos de governança. Analistas advertem, contudo, que essa promessa dificilmente será mantida.
“Não há como o governo dos EUA se tornar o maior acionista de um grande nome nacional dos chips em dificuldade […] e não pegar o telefone quando começar a não gostar do que essa empresa vem fazendo“, disse Lincicome, do Cato Institute.
No fim das contas, quaisquer que sejam as motivações do governo, e quaisquer sejam suas intenções, sua reorientação rumo ao intervencionismo será difícil de reverter, acrescentou Lincicome.
“Essas coisas — tarifas, subsídios, participações acionárias, o que você imaginar — são muito difíceis de remover uma vez que se tornam a política pública.”
Fonte: Valor Econômico