Não aposte um dólar na eleição dos EUA. Com margens tão apertadas, seria necessário arriscar muito para um ganho mínimo. No entanto, é certo que os EUA continuarão tão divididos após a eleição quanto antes. Seja o vencedor Donald Trump ou Kamala Harris, a proximidade da disputa reflete a polarização profunda do país. A maioria dos americanos prefere enfrentar grandes dificuldades a votar no outro partido. Metade do país verá o vencedor como uma fraude.
A última vez que uma eleição foi tão apertada nos EUA foi em 2000 — e aqueles eram tempos mais tranquilos. Mesmo assim, o resultado na Flórida foi decidido por uma controvertida decisão da Suprema Corte. Imagine como uma disputa semelhante se desenrolaria em 2024. Em vez dos “distúrbios Brooks Brothers“, quando republicanos bem-vestidos voaram até Miami-Dade para interromper a recontagem, agora, milícias se reuniriam nas zonas eleitorais contestadas. A “militarização” da contagem de votos já se tornou parte da vida política americana.
Há apenas uma entre quatro possibilidades em 5 de novembro que traria um retorno ao modelo tradicional de governança dos EUA: a vitória de Kamala com os democratas mantendo o controle do Senado e retomando a Câmara dos Representantes. Um domínio democrata permitiria a retomada da governança do país e limitaria as chances de Trump contestar sua derrota. Mas esse é o cenário menos provável. As disputas pela Presidência e pela Câmara estão indefinidas, e o mapa do Senado favorece muito os republicanos.
A segunda possibilidade é Kamala vencer a Presidência, mas os democratas perderem o Senado. Mesmo que retomem a Câmara, os republicanos bloqueariam suas nomeações e projetos no Senado — e o fariam. Assim, a agenda doméstica de Harris estaria paralisada desde o início. A instabilidade global tornaria a política externa pouco atraente como alternativa. Uma vitória apertada dela também aumentaria o risco de uma crise constitucional. Centenas de advogados republicanos já estão preparando contestação no caso de sua eventual vitória.
No último fim de semana, Trump previu que “lunáticos da esquerda radical” tentariam roubar a eleição. Segundo ele, esses grupos deveriam ser contidos pela Guarda Nacional ou, “se necessário, pelo Exército”. Ao contrário de 2020, Trump não tem mais controle sobre essas instituições, mas usará qualquer recurso disponível para contestar a vitória de Kamala.
O terceiro cenário é Trump retomar a Casa Branca, com os partidos trocando de posição no Congresso — os republicanos recuperando o Senado e os democratas, a Câmara. Esse desfecho é mais provável do que o inverso. Mesmo assim, Trump conseguiria avançar boa parte de sua agenda. O governo dividido sempre funciona melhor para presidentes republicanos do que para democratas. Ainda assim, um dos ramos do Congresso controlado pelos democratas poderia conter os planos mais radicais de Trump.
O último cenário é uma trinca republicana — Trump vencendo a Presidência com o controle do Senado e da Câmara. Isso é tão improvável quanto uma vitória completa de Kamala. A probabilidade de cada um desses cenários é de cerca de 20%. Um domínio completo da linha “Maga” [o movimento trumpista “Make America Great Again”] sobre Washington colocaria os EUA em águas inexploradas. Trump já conta com o apoio da Suprema Corte inclinada para o conservadorismo, com uma maioria de 6 a 3. Recentemente, a Corte decidiu que o presidente dos EUA tem imunidade criminal para quase qualquer ato “oficial”, incluindo a eliminação de opositores.
Não é preciso acreditar que Trump chegaria a tais extremos para perceber que essa decisão lhe dá carta-branca para agir como quiser. Sem freios legislativos ou judiciais, ele interpretaria isso como uma licença para perseguir seus inimigos. Mark Milley, ex-chefe do Estado-Maior Conjunto sob Trump, recentemente descreveu-o como “fascista até o âmago”. Milley é um dos vários ex-funcionários que Trump rotulou de traidores. Com seus aliados no poder, Trump implementaria o Projeto 2025, o plano da Heritage Foundation para transformar os EUA em uma democracia iliberal.
A questão é o que (se é que algo pode) poderia encerrar essa guerra fria doméstica nos EUA. Para a maioria dos americanos, a única solução seria a rendição do outro lado. Trump deveria ser preso; liberais precisariam se arrepender de sua “desordem mental”; e assim por diante. Não há espaço para concessões com o que é visto como maligno. Para Trump, a derrota pode significar prisão futura. Para os democratas, uma vitória completa de Trump pode significar o fim das esperanças de retomar o poder em uma eleição justa.
Como cada partido acredita no pior sobre o outro, ambos jogam para vencer não apenas os próximos quatro anos, mas de forma definitiva. É difícil olhar para os números ou sentir o clima do país e imaginar uma solução fácil para esse impasse. Em outras democracias, a lealdade aos partidos flutua bastante. Nos EUA, quase nada — nem tentativas de assassinato, mudanças de candidatos ou debates desastrosos — altera significativamente o panorama.
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Fonte: Valor Econômico
