“O planeta Terra é grande o suficiente para que os dois países tenham êxito”, disse o presidente da China, Xi Jinping, quando se reuniu com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em São Francisco. Esta foi uma das várias mensagens otimistas trocadas entre os líderes dos EUA e da China enquanto faziam a tentativa mais nítida de estabilizar as relações desde que uma guerra comercial intensa estourou em 2018. Embora a iniciativa continue incipiente, as indicações são de que eles conseguiram pelo menos o começo de uma “reinicialização” nas relações entre os dois países, que tinham despencado para o nível mais baixo dos últimos 40 anos.
Mais de quatro horas de negociações resultaram em alguns acordos importantes. O mais significativo foi o compromisso da China de reabrir os canais de comunicação entre as forças armadas dos dois países, que se fechara depois que a então presidente da Câmara dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, visitou Taiwan, em agosto de 2022. Pequim anunciou ainda que restringirá a exportação de produtos químicos usados para fazer o fentanil, o potente opioide sintético que tem sido associado a centenas de milhares de mortes nos EUA.
Também houve sinais de esforços para reduzir as tensões a respeito de Taiwan. Xi teria manifestado uma certa “exasperação” com sugestões de autoridades americanas de que a China poderia partir para uma ação militar já em 2027, com o objetivo de reunificar a ilha autônoma com o continente — e teria dito que esses planos não existem. Autoridades chinesas têm mostrado inquietação com comentários de Biden de que ordenaria às forças armadas americanas que defendessem Taiwan de um ataque chinês, mas depois da reunião o presidente dos EUA evitou explicitamente responder a perguntas sobre se mantinha essas declarações.
O fato de que o presidente dos EUA se referiu a Xi como um “ditador” em uma entrevista coletiva realça a profundidade da desconfiança entre os dois lados — e os riscos de que o avanço ainda pode desmoronar. Por enquanto, porém, os dois países têm razões prementes para tentar colocar suas relações em bases mais sólidas.
Para os EUA, a estabilização com Pequim tornou-se cada vez mais desejável enquanto Washington se vê às voltas com guerras tanto na Ucrânia como no Oriente Médio. O temor de que o conflito Israel-Gaza possa evoluir para uma conflagração regional mais ampla levou autoridades americanas a encararem a China como uma possível influência moderadora sobre os principais atores regionais, sobretudo o Irã.
Para além da deterioração da situação geopolítica, a China tem sido abalada por problemas econômicos internos crescentes, como a desaceleração do crescimento, as dívidas dos governos locais, um mercado imobiliário enfraquecido e o que deve ser a primeira queda no investimento direto estrangeiro em 25 anos neste ano. Pequim convenceu-se de que precisa atrair de maneira mais assídua as comunidades empresariais estrangeiras. A visita de Xi incluiu um apelo para um público de mais de 300 empresas americanas, em que enalteceu as oportunidades do mercado chinês.
As relações não estão prestes a melhorar da noite para o dia. É pouco provável que haja uma retomada do investimento ocidental na China se Pequim continuar com ações que são consideradas hostis, como as batidas em empresas de consultoria americanas. Autoridades dos EUA vão acompanhar a situação atentamente para ver se a China cumprirá de maneira enérgica sua promessa de restringir a comercialização de precursores do fentanil. A reabertura dos canais de comunicação entre as forças armadas dos dois países é apenas um primeiro passo no restabelecimento da confiança, ainda que ela permita um nível mínimo de prevenção de conflitos.
Há oportunidades para aprofundar o avanço desta semana com mais inciativas de cooperação em torno das mudanças climáticas na COP 28, a próxima Conferência das Nações Unidas sobre o tema nos Emirados Árabes Unidos, e na contenção de conflitos regionais. Outros incidentes, como a furor diplomático a respeito do balão “espião” chinês que sobrevoou os EUA, que tirou dos trilhos a “reinicialização” esperada no início deste ano, podem ser inevitáveis. Mesmo assim, o encontro entre Biden e Xi ofereceu indicações encorajadoras de que os dois lados tentam gerir as relações, apesar da sua rivalidade estratégica cada vez mais profunda. Se eles quiserem evitar que se chegue ao conflito, esta é a única opção que têm.
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Xi Jinping e Joe Biden em reunião de cúpula em São Francisco — Foto: Doug Mills/NYT via Pool/AP
Fonte: Valor Econômico


