Por Adriana Cotias — De São Paulo
18/05/2022 05h02 Atualizado há 5 horas
Embora os ativos locais tenham ficado em segundo plano nas carteiras dos investidores estrangeiros, a americana Franklin Templeton é compradora de Brasil, tomadora de risco de longo prazo e está disposta a participar do jogo de consolidação pelo qual passa o mercado de investimentos. Segundo Marcus Vinícius Gonçalves, CEO da gestora de recursos no país, o grupo que reúne o equivalente a US$ 1,5 trilhão globalmente e que cresceu por meio de uma série de aquisições busca “montar o negócio para aproveitar o fluxo onde o mercado deve crescer”.
“Ao longo do tempo, a Franklin Templeton mostra ter uma veia aquisitiva grande, tem um balanço forte, com US$ 6 bilhões de liquidez em caixa, e sempre avalia as oportunidades e se tem um bom ‘fitting’ aqui. O desafio é o tamanho, tem que ser algo que faça diferença”, diz, em conversa com o Valor por videoconferência. “O trabalho para integrar uma operação de R$ 10 bilhões é o mesmo para uma de R$ 100 milhões, a gente tem olhado em geral coisas com escala maior para um bom aproveitamento com a operação lá fora.”
Questionado sobre uma eventual associação com a BB DTVM – como se cogitou no setor há cerca de dois anos -, Gonçalves afirma que o grupo sempre avalia as oportunidades e que costuma estar entre os nomes consultados. “Mas as aquisições não estão aparecendo, têm aparecido operações pequenas, de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões”, afirma. “O Brasil é um mercado estratégico, reiteradamente a gente analisa e é cobrado por isso. O país tem suas peculiaridades, vicissitudes, mas tem escala e tamanho, do ponto de vista geográfico, renda. A empresa sabe disso e segue monitorando.”
Em mercados como os Estados Unidos e a Ásia, o grupo tem buscado negócios de gestão de riqueza com viés da inovação, e no Brasil pode avaliar algo “com pegada tecnológica, não um distribuidor tradicional” diz. “Por exemplo, uma plataforma que tenha uso de inteligência artificial para recomendação [de investimentos], e que pudesse fazer parceria com um distribuidor aqui”, descreve Gonçalves.
Fundada em 1947, a Franklin Templeton atual é fruto da união de 18 empresas que se consolidam debaixo do mesmo guarda-chuva. Uma das compras mais relevantes foi a da Legg Mason, no início de 2020, por US$ 4,5 bilhões mais US$ 2 bilhões em dívida. O grupo adquirido já era uma combinação de outras nove gestoras de recursos, entre elas a Western Asset, que tem operação no Brasil, agregando um total de mais de US$ 800 bilhões. Segundo Gonçalves, a decisão estratégica foi manter as marcas independentes, atuando em cooperação na área comercial.
Entre os planos de crescimento orgânico está ganhar terreno em fundos alternativos, e o Brasil vem em linha com essa diretriz. “Quando olha nossa empresa versus outras assets, o ‘fee’ efetivo [taxa de administração] é, em média, maior por causa das estratégias de maior valor agregado.”
Além de ampliar a grade local fazendo conexões com o que há lá fora, a gestora colocou na oferta soluções de “asset allocation”, com a contratação de Daniel Popovich. O mandato do executivo, que passou por casas como JGP e Bradesco na seleção de ativos internacionais, prevê compor esse mix para fundações e para a pessoa física.
Gonçalves conta que, globalmente, a Franklin Templeton já tem uma ferramenta de otimização de metas (GOE, em inglês), em que são colocados os objetivos de investimentos, a propensão a risco, o perfil, e as carteiras são rodadas automaticamente, com autocorreções ao longo do caminho, dependendo da direção do mercado, do momento de vida do investidor.
Ele diz haver conversas com potenciais parceiros para uma modelagem a quatro mãos, primeiro para ativos locais e ao longo do tempo combinando opções no exterior. Mesmo com as assets de grandes bancos criando suas próprias carteiras inteligentes, ele acha que há espaço entre instituições que não desenvolveram soluções nesse campo. “Ainda que o cliente esteja aqui, cada vez mais ele precisará aumentar a fronteira eficiente, nossa ferramenta tem uma leitura melhor do ambiente lá de fora, enquanto as locais têm o sabor do mercado local.”
No universo de alternativos, além de trazer estratégias internacionais por meio de veículos locais para os brasileiros, a Franklin Templeton Alternatives (antiga Darby Overseas Partners) é o ponto de atração do capital externo para o Brasil. Já há um fundo de energia renovável rodando, com cerca de R$ 1 bilhão, que tem clientes da Ásia e da Oceania, e que começa a fazer desinvestimentos.
O Brasil ficou muito tempo fora do radar do estrangeiro e, com o aumento dos preços das commodities, após o conflito entre Rússia e Ucrânia, o caso foi revisitado, diz Frederico Sampaio, gestor de renda variável da casa. A incerteza eleitoral é um fator de preocupação, “mas na medida em que ficar mais claro que trajetória o país vai seguir, há um potencial grande de recuperação do espaço perdido. O Brasil ficou muito relegado nas carteiras internacionais, por razões óbvias, não cresce desde 2010, pegou um desvio que custou caro”, afirma. “A grande pergunta que o investidor faz é quando vai retomar o trilho do crescimento.”
Ele lembra que o país chegou a ter peso de 17% nos índices de mercados emergentes, e que hoje a participação se limita a 5%. Como o Banco Central andou na frente do ajuste monetário para controlar a inflação, há boas chances de o Brasil se destacar no ambiente global de alta de juros. Localmente, a Franklin tem cerca de R$ 7 bilhões sob gestão, mas, se considerar a exposição de fundos globais da casa, o valor chega a R$ 20 bilhões.
Entre as estratégias locais, o fundo de valor e liquidez, que existe desde 1998 e nasceu por meio do programa do BNDES para dar liquidez a empresas de média capitalização, ganhou abordagem ambiental e social, além da de governança, que já perseguia. Já há uma versão de previdência com a XP e agora a casa lança uma “long bias”, em que a exposição em ações é calibrada conforme o cenário, com uma porção maior de ativos internacionais.
Fonte: Valor Econômico