“Com Trump a política comercial americana mudou e nunca mais foi revertida”, afirma. Essa guinada mais protecionista e com uma postura mais hostil à China deflagrou um movimento anti-globalização. Depois, diante da pandemia, os grandes conglomerados internacionais passaram acelerar os processos de regionalização das cadeias de suprimentos e produção. Logo em seguida, “o conflito entre Rússia e Ucrânia desestabilizou os mercados mundiais de alimentos e energia e fez as pessoas pensarem ser preciso ter autossuficiência nesses setores.”
A percepção do início da guerra, de que o cenário de fragmentação intensificado pelo conflito ucraniano pode representar uma oportunidade ao Brasil, é hoje um cenário real. “Não há dúvida de que empresas de todo o mundo estão procurando novos lugares para investir e diversificar suas cadeias de abastecimento. E na América do Sul, obviamente, o Brasil é o primeiro lugar a se buscar.”
Wolf avalia ainda os principais riscos globais neste momento e aponta a possibilidade de surgimento de novos embates geopolíticos. Segundo ele, a escalada de um conflito entre Israel e Irã poderia ser “um choque enorme, muito maior que o da guerra Rússia-Ucrânia [para o setor de energia]”. Isso porque o embate pode afetar os campos de petróleo do Golfo Pérsico. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Valor: Como tem avançado a fragmentação econômica prevista no início da guerra?
Martin Wolf: É muito cedo para dizer, na verdade. Temos que colocá-la em contexto. Não é apenas a guerra da Ucrânia o que impulsiona a fragmentação. O conflito é apenas parte da história. Então vamos voltar a 2016. Donald Trump foi eleito [presidente dos Estados Unidos] com base em uma plataforma protecionista, principalmente, visando a China e contra o comércio mundial. Isso representou, como se viu, uma mudança fundamental na América. E essa política, nunca foi revertida. Portanto, os EUA são mais hostis ao comércio e mais hostis ao comércio com a China e mais hostis à China do que eram há 10 anos. E isso foi crescendo ao longo do tempo. Então adicionamos a covid-19, que desestabilizou ainda mais a integração econômica mundial, porque fechou as fronteiras. Comércio, serviços, turismo, tudo parou. E produção e exportação pararam. Mas, de repente, reabrimos a economia mundial, e a escassez ressurgiu em todos os lugares, de navios, de suprimentos. As interrupções fizeram as pessoas pensarem que temos que diversificar nossas cadeias de suprimentos, temos que tornar nossas cadeias mais seguras. Isso não teve nada a ver com a Ucrânia. A China continuou fechada até muito recentemente. E a China é o maior fornecedor de insumos do sistema mundial para a indústria. Até pouco tempo, eles continuaram fechando fábricas, aumentando ainda mais a sensação de insegurança. Portanto, esses problemas da cadeia de suprimentos estão ligados à covid e às políticas contra a covid na China. Depois, veio o conflito entre Ucrânia e a Rússia, que está desestabilizando os mercados mundiais de alimentos e energia. Isso fez as pessoas pensarem que precisamos tornar a política alimentar mais autossuficiente, e nos tornar mais autossuficientes em energia, precisamos mudar para renováveis, em sistemas que geram energia localmente. Se você somar todas essas coisas, há forças muito poderosas de fragmentação no sistema econômico mundial, particularmente no comércio. Agora estamos em um estágio muito inicial disso tudo.
Valor: Mas já temos visto movimentos de realocação de cadeias de suprimentos…
Wolf: Como escrevi em um artigo na época do Fórum Econômico Mundial, sobre globalização, de certa forma, as mudanças que estamos vendo não são tão dramáticas quanto pensávamos. Houve alguma mudança, mas, simplesmente, não é verdade que estamos vendo um “reshoring” [movimento de trazer a manufatura de volta para o próprio país] abrangente ou um “friendlyshoring” [de instalar plantas produtivas em países vistos como estáveis e aliados] abrangente, ou mesmo um protecionismo abrangente. Eu deveria ter acrescentado, que houve mudança ainda da política industrial americana. A Lei de Redução da Inflação nos Estados Unidos [sancionada pelo governo Joe Biden em agosto de 2022] é uma política industrial enorme e cara. Não vimos algo semelhante nos países desenvolvidos desde os anos 50. É realmente uma grande mudança [a legislação abrange subsídios e incentivos como US$ 80 bilhões em descontos para impulsionar a adoção de soluções de energia verde ou o uso de veículos elétricos pelas famílias no país]. As perguntas que temos feito agora são: Como isso vai acontecer? Está apenas começando? A resposta honesta é que não sabemos. Acho que seria justo esperar que haja algum desmoronamento da globalização, maior incerteza sobre investimentos em fábricas e atividades que dependam do comércio e uma maior tendência de se investir em países que são vistos como amigos ou estáveis ou ainda “perto de casa”. A simples verdade, como apontei muitas vezes, é que os EUA não podem simplesmente importar as coisas de que precisam de seus vizinhos da América do Sul ou mesmo da Europa, porque muitos deles são fabricados na Ásia. A Ásia é hoje a maior região manufatureira do mundo. Então, realisticamente, há um limite para o que pode acontecer. O que acontecerá dependerá muito do que acontecerá a seguir, geopoliticamente, ou seja, se a guerra [na Ucrânia] se resolver, se as relações entre a China e os EUA se estabilizarem, se a economia [global] estiver relativamente bem, daqui para frente – e parecem um pouco melhores agora do que pensávamos há seis meses. Há um pouco de otimismo se recuperando. O choque da Ucrânia não foi tão longevo quanto se pensava e os preços da energia estão caindo. As mudanças no final podem ser marginais. Não algo como um colapso total da globalização.
Os EUA são hoje mais hostis ao comércio com a China do que eram há 10 anos. E isso aumentou com o passar do tempo ”
Valor: O processo de reorganização de cadeias pode acelerar?
Wolf: É claro, se houver uma guerra entre a China e os EUA, talvez por causa de Taiwan ou algum outro evento como esse então tudo muda, novamente. Sabemos pela história, que uma guerra ou grande conflito arruina completamente a globalização. E uma situação de conflito pode acontecer muito rapidamente. Eu enfatizo que [a transformação das cadeias de valor] é um processo de longo prazo. Ainda estamos no início e realmente não sabemos o que vai acontecer a seguir.
Valor: Sanções contra a Rússia impulsionaram um movimento de tentar reduzir a dependência do dólar em parte do mundo?
Wolf: Esse é um tema muito debatido entre os economistas, o que sugere que ainda não sabemos de nada. Neste momento, penso que haverá uma mudança nos meios de pagamento entre a China e os seus parceiros comerciais, no sentido da utilização do renminbi digital [moeda chinesa] que se tornará mais importante. E isso vai reduzir um pouco a demanda pelo dólar. Mas há outra dimensão da moeda, a política, que é mais difícil de mudar. Isso significa o uso de uma moeda como uma reserva de valor contra a incerteza. A maioria dos países mantêm dólares, não porque eles precisam armazenar tantos dólares para lidar com os pagamentos do dia a dia no comércio. Não é por isso que eles têm reservas em dólares. As pessoas físicas também mantêm dólares como uma reserva de valor, que pode ser usada em emergências. Há uma grande participação do dólares como reserva de valor, mas também há uso de outras moedas, como o euro, o iene e a libra. Porque as divisas são vistas como relativamente seguras e líquidas. E aqui fica mais complicado. O problema é que, do ponto de vista dos países que, potencialmente, podem entrar em conflito com o Ocidente, ficou óbvio com as sanções [contra a Rússia] que, talvez, você não possa usar a reserva em dólares. Esse é um bom motivo para diversificar. Mas a dificuldade que esses países têm é o que mais eles podem manter como reserva? O renminbi é um problema, porque o sistema financeiro chinês não é aberto internacionalmente. As políticas do governo chinês são imprevisíveis e não é óbvio para ninguém que reservas de RMB serão mais seguras do que em dólares. O renminbi não é conversível, o que é um problema. Vamos supor que você queira comprar algo da Alemanha ou do Japão. O RMB não vai te ajudar, porque esses países não querem manter o RMB. Você vai ter que convertê-lo em dólares ou em euros. Portanto, o problema com essa ideia de que vamos derrubar o dólar como reserva de valor é que, embora seja uma discussão perfeitamente lógica, o que as sanções russas mostram é que todos os outros países com moedas conversíveis são aliados confiáveis dos EUA. Você não ganha nada mudando para o euro. Porque as políticas dos europeus estarão alinhadas com os EUA. O problema é que não há alternativa. E invenções como o Bitcoin não são essa alternativa. A criptomoeda não é grande o suficiente, não é estável, na verdade, o mercado é muito pequeno.
Valor: A democracia liberal ainda está em recessão?
Wolf: Acho razoável dizer que a democracia liberal ainda está em recessão. Se você comparar com onde estávamos há 15 anos, ou até um pouco menos, seis ou sete anos atrás, não houve uma reversão fundamental. Mas acho que é justo dizer que há alguns sinais, particularmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, de que o populismo de direita, por assim dizer, está enfraquecendo. Você vê isso em alguns outros países importantes como o Brasil. Quero dizer, a última eleição presidencial brasileira foi muito reveladora e encorajadora. A votação foi muito, muito apertada, o que é assustador, mas o [ex-presidente Jair] Bolsonaro foi derrotado e as eleições não foram anuladas. Isso é importante. Da mesma forma, o novo presidente das Filipinas, certamente é muito melhor do que [ex-presidente Rodrigo] Duterte. Nos EUA, [ex-presidente Donald] Trump foi enfraquecido, embora não saibamos quem serão seus substitutos. [O ex-primeiro ministro britânico] Boris Johnson foi substituído por um político mais convencional. Então eu diria que, o capitalismo democrático ou democracia liberal parece que está um pouco melhor desde o ano passado. Eu acho isso absolutamente maravilhoso. Mas é muito cedo para dizer que toda a maré tenha mudado. Não podemos dizer isso de forma alguma, ainda há grandes problemas.
Valor: A ascensão do autoritarismo está então se revertendo?
Wolf: Minha opinião é que só podemos estar realmente confiantes em uma reversão, pelo menos no Ocidente, no Brasil e em outros países, se o que eu chamo de capitalismo democrático, democracias liberais ou social-democracia, começarem a gerar crescimento e prosperidade para a grande maioria das pessoas. Em todos os lugares as pessoas votam com base em sua percepção de que os governos os ajudarão a levar uma vida melhor. Isso é completamente normal. Se as pessoas sentirem que isso não está acontecendo, ficam com raiva, começam a perder o respeito pelas elites de seu país e, pior ainda, se as são vistas como corruptas e incompetentes. E o que temos visto é que na narrativa de políticos de extrema-direita há oferta de soluções simplórias e óbvias, muitas vezes temperadas com muita raiva. É uma mistura de soluções de raiva e loquacidade. Não acho que esse período [de polarização política] tenha terminado de forma alguma, porque poucos países estão tendo sucesso. As economias estão estagnadas, a desigualdade é alta. As elites parecem não saber o que estão fazendo. A política está paralisada e ineficaz. Então tudo isso é bastante deprimente. Mas ainda está muito longe de ser um cenário otimista. Também estou, devo dizer, encorajado que o mundo ocidental conseguiu alcançar um certo nível de unidade contra o que [o líder russo Vladimir] Putin tem feito na Ucrânia.
A democracia ainda está em recessão, mas é justo dizer que há sinais de que o populismo de direita está se enfraquecendo”
Valor: As vozes da extrema-direita podem se tornar ainda mais radicais diante dos revezes?
Wolf: O liberalismo econômico radical, o que eu chamo de libertarianismo, em todas as sociedades democráticas, é [representado por] uma minoria. Portanto, é claro que se as pessoas querem vencer com base em uma economia de direita radical, elas devem combinar mentiras ao nacionalismo e, muitas vezes, ao racismo e às guerras culturais. Essa é a coalizão. Mas é uma coalizão muito instável. Muitos dos eleitores, na verdade, não estão interessados nisso. Isso significa que eles provavelmente não têm certeza de que esses movimentos serão capturados também por liberais econômicos além de pessoas que são mais nacionalistas de extrema direita, guerreiros da cultura nativista. Trump foi uma exceção. Mas eu acho que uma perspectiva econômica mais autoritária se assemelha a uma perspectiva economicamente mais nacionalista, uma visão que tem pontos de vista muito hostis sobre algumas iniciativas das corporações, o que [ajuda a visão extremista] se tornar mais plausível. Essa ideologia de extrema direita, a tendência natural é se tornar corporativista. Acho que esse tipo de política é mais provável do que o casamento do liberalismo econômico extremo, com o tipo de aspecto nacionalista nativista autoritário da direita, mas isso pode estar errado. Acho que esse tipo de ideologia é um desenvolvimento muito plausível em muitos países.
Valor: Na mesma lógica da ascensão da extrema-direita, um governo de extrema-esquerda é possível nos EUA?
Wolf: Não consigo ver um governo de extrema-esquerda ganhando a presidência nos EUA. Posso estar completamente errado, mas a extrema esquerda realmente não tem raízes ideológicas. Claro, depende do que você quer dizer com extrema esquerda, nesse caso quero dizer gente que acha que a economia deveria ser mais ou menos estatizada e socializada. Mesmo os democratas mais de esquerda são realmente social-democratas de acordo com o padrão europeu. Querem mais bem-estar, mais redistribuição de renda, impostos mais altos, mas não se opõem aos mercados e às empresas. Então não vejo isso como um perigo. É que realmente não há raízes nos EUA. Não vejo muito perigo na maior parte da Europa Ocidental. Esse tipo de socialismo está associado aos ex-soviéticos, e eles são vistos como fracassados. A extrema-direita é um caso diferente. Acho que, se não é o tipo de apelo completamente pessoal de alguém como Trump, parece que uma possibilidade é o discurso ser socialmente mais centralizador, coercitivo e nacionalista. Também diria, provavelmente, mais nativista, focado em questões de guerra cultural como aborto, direitos dos transgêneros, sendo contra as vacinas e todas essas coisas, que nada têm a ver realmente com o liberalismo econômico.
Valor: Brasil pode perder oportunidade de se inserir na reorganização global de cadeias?
Wolf: Eu não sei muito sobre o Brasil, mas a resposta honesta é que as circunstâncias econômicas globais são obviamente difíceis. Durante um período bastante longo, o Brasil tornou-se relativamente menos competitivo, principalmente na indústria. Obviamente, o Brasil é altamente competitivo em certos setores agroindustriais. Mas o país tem se desindustrializado até certo ponto, principalmente por causa da imensa concorrência da China. O sucesso do país depende claramente de iniciar um novo período de crescimento econômico mais rápido. Isso é essencial. Há muito tempo o Brasil não consegue alcançar as economias mais avançadas, em termos de posição relativa. O PIB per capita não é muito diferente de onde estava há 30 ou 40 anos. Acho que, para isso mudar, algumas políticas muito importantes precisam mudar. A taxa de poupança nacional é muito baixa, a de investimento é muito baixa, diria drasticamente baixa. A carga tributária sobre as empresas é muito alta. E o setor produtivo investe muito pouco. Há outros problemas significativos, como o nível de educação da força de trabalho. Portanto, é preciso haver uma mudança de longo prazo. Isso está relacionado, é claro, ao sistema fiscal e todo o resto. Então, eu diria simplesmente que é muito importante para o novo governo ter uma política que combine uma estratégia de crescimento plausível, crível, que construa competitividade de longo prazo para a economia brasileira, ao mesmo tempo em que lida de forma correta e adequada com esses muitos problemas sociais. Se vocês não fizerem as duas coisas, o governo pode se encontrar em tremendas dificuldades. É importante lembrar que os governos de centro-esquerda, em particular do Lula [presidente Luis Inácio Lula da Silva], tiveram alguns sucessos reais, mas no final, o sucessor de Lula [a ex-presidente Dilma Roussef], não foi muito bem. Vou deixar de lado toda a questão de quem é o responsável e dizer simplesmente que o desempenho da economia não foi muito bom. E assim [o atual governo] deveria evitar repetir o que deu errado.
Valor: Mas a oportunidade para o país se inserir nas cadeias de valor globais ainda existe?
Wolf: Não há dúvida de que empresas de todo o mundo estão procurando novos lugares para investir e diversificar suas cadeias de abastecimento. E eles estão procurando em todos os lugares. Por assim dizer, eles estão olhando para a Índia, para o Vietnã, para Bangladesh, para a Indonésia. Os americanos, é claro, vão olhar para o México e a América do Sul. Obviamente, o Brasil é o primeiro lugar a se procurar [na América do Sul]. Se os grupos estrangeiros farão investimentos no Brasil, dependerá dos julgamentos de como está o Brasil, como um lugar para fazer negócios, se o país tem infraestrutura confiável, política confiável e tudo mais. Mas há, inquestionavelmente, uma oportunidade para o Brasil se integrar mais à economia manufatureira global. A Europa, como alternativa, está muito longe, obviamente. Então a distância é um fator. Mas é claro, se você for competitivo o suficiente e puder produzir em um volume grande o suficiente um investimento em produção no Brasil ou no Mercosul, com vistas apenas a exportar para os países da Europa pode funcionar.
Fonte: Valor Econômico