27/07/2022 05h01 Atualizado há 6 horas
A economia global teve sua primeira contração desde a pandemia no segundo trimestre do ano – e isso pode ser apenas o começo de uma trajetória que pode levá-la a uma recessão. Para o Fundo Monetário Internacional, tudo o que poderia dar errado está dando. “Os riscos são esmagadoramente inclinados para o lado negativo”, apontou o FMI na revisão de julho do seu Perspectiva da Economia Mundial. As chances de consolidação de um cenário recessivo se tornaram muito maiores agora.
O crescimento global deverá ser em 2022 praticamente a metade do que foi no ano passado – 3,2% ante 6,1% – e será ainda menor em 2023, de 2.9%. Os países ricos avançarão 2,5%, enquanto que os emergentes terão um desempenho um pouco melhor, de 3.6%. A China, que contribuiu durante muito tempo com a maior parte da expansão global, agora puxa a média para baixo, com expansão prevista de 3,3%, a mais baixa em décadas.
A reação dos bancos centrais à maior inflação em 40 anos nos Estados Unidos e na zona do euro, a desaceleração chinesa provocada pela estratégia do governo de covid-zero e os problemas de seu setor imobiliário, além do aperto monetário dos maiores países emergentes. retiraram o fôlego da recuperação. O fator mais imediato e relevante do declínio do crescimento, no entanto, foi a invasão da Ucrânia e, com as sanções à Rússia, o aumento generalizado e forte dos preços dos alimentos e da energia. Esse choque de preços ocorreu quando as cadeias de produção, desorganizadas pela pandemia, ainda não haviam se recomposto.
A aceleração da inflação, inesperada pela magnitude, mudou a estratégia dos bancos centrais, que passaram a aumentar mais rapidamente do que o previsto as taxas de juros. Países emergentes importantes, como o Brasil, já vinham subindo os juros desde o ano passado. “O aperto monetário resultante em muitos países”, afirma Pierre-Olivier Gourinchas, economista-chefe do FMI, “é historicamente sem precedentes”, e seus efeitos serão um crescimento menor em 2023 e a desaceleração da inflação.
O FMI não é otimista quanto ao declínio da inflação, logo quanto à reversão da política de aperto nos juros, que deverá ser mais prolongado do que se imaginava. Embora os indicadores de mercado apontem que os BCs começarão a reduzir as taxas já no ano que vem, os cálculos do FMI indicam, no entanto, que a inflação cheia ainda estará acima de 4% no último trimestre de 2023 e o núcleo de inflação, pouco abaixo de 4%. Tanto a inflação como os juros, dessa forma, não arrefecerão logo.
As três principais economias do mundo estão desacelerando. A China reduzirá seu crescimento a 3,3% este ano e 4,6% em 2023, ambos distantes da meta do PC chinês de obter expansão de 5,5% este ano. No segundo trimestre, o PIB chinês encolheu 2,6%, a maior queda desde o primeiro trimestre de 2020, e a covid-19 pode provocar ainda mais estragos, como ocorreu em Xangai.
Novos focos de preocupação surgiram no fim de semana no centro industrial de Shenzen, objeto de medidas de contenção drásticas usuais. O setor imobiliário, um dos motores da expansão chinesa, continua avariado, enquanto Pequim anuncia estímulos para que pelo menos a grande quantidade de imóveis não concluída seja finalizada.
A economia americana, a maior do mundo, perde fôlego rapidamente. A previsão do Fundo é que o crescimento será de 2,3% este ano e apenas 1% no próximo. No último trimestre de 2023, comparado ao último de 2022, a expansão será de apenas 0,6%, “e não será preciso muito para jogar a economia no que se chama de recessão técnica”, afirmou Gourinchas. A zona do euro, por seu lado, foi atingida em cheio pela redução das exportações russas de gás e óleo. O bloco crescerá 2,6% em 2022 e 1,2% em 2023.
O aperto das condições financeiras pode causar novas crises de dívidas em países emergentes e em desenvolvimento. Segundo o FMI, mais de 40% das emissões destes países pagam agora rendimentos superiores a 10%.
Há mais riscos a caminho. No cenário alternativo do FMI, a virtual cessação do fornecimento do gás russo levaria o crescimento na zona do euro e nos EUA a zero.
Sem o fim do conflito na Ucrânia dificilmente a inflação voltará a seu curso normal sem recessão. Com índices de 9,1% nos EUA e 8,6% na zona do euro, estratégias gradualistas têm baixas chances de sucesso. O isolamento da Rússia, grande fornecedor de petróleo e gás, em um momento difícil de transição energética, traz enorme complicador adicional, que não pode ser resolvido por políticas monetárias.
Fonte: Valor Econômico


