O Brasil voltou ao radar global dos investidores num movimento tão brusco que pegou até os veteranos de surpresa – e isso pode antecipar movimentações das empresas nacionais, desde estreias na bolsa a aquisições.
“Janeiro sempre tem realocação, mas a velocidade e o tamanho desse fluxo surpreenderam”, diz Daniel Barros, CEO do UBS BB, ao Pipeline. A entrada de capital estrangeiro no primeiro mês do ano está perto de R$ 22 bilhões – ante entrada líquida de R$ 27 bilhões no ano inteiro de 2025.
O pano de fundo das últimas semanas é o ruído político nos Estados Unidos, com dúvidas sobre a trajetória do Fed e um Donald Trump mais imprevisível do que nunca. O efeito colateral foi uma migração intensa para mercados emergentes, e o Brasil despontou por tamanho, liquidez e desconto relativo.
O UBS BB promoveu nesta semana sua conferência anual em São Paulo, com mais de mil investidores. O tema eleitoral praticamente sumiu das conversas, enquanto os painéis que discutiam equities estavam abarrotados. Um dos maiores fundos globais enviou sete representantes à conferência, o dobro do costumeiro; outro gestor global contava que tinha uma meta anual de US$ 400 milhões para emergentes e já havia captado US$ 300 milhões antes do fim de janeiro.
A leitura é que não se trata de um movimento tático pequeno, mas de uma rotação global mais estrutural. O Brasil, que vinha ficando à margem da discussão geopolítica, passou a ser visto como um mercado relativamente organizado em meio ao caos. “Não tem nada a ver com IPCA cair agora. É geopolítica. Emerging versus developed markets”, resume Barros.
Esse fluxo ajudou a destravar expectativas também no front macroeconômico. Marcelo Okura, co-head de global markets na América Latina do banco, nota que os gestores passaram a falar em um ciclo de queda de juros mais longo — 400 a 450 pontos-base, contra os 250 ou 300 que eram consenso até pouco tempo atrás. Uma queda maior de juros pode ajudar os fundos locais a aumentarem captação e posição em bolsa, um movimento ainda descasado dos gringos.
“Nos últimos anos, o discurso dominante era sul-norte: investidores brasileiros levando dinheiro para fora e empresas buscando mercados externos. Agora, pela primeira vez em muito tempo, o movimento parece invertido”, diz Okura.
O volume médio diário negociado na B3 vinha estagnado em cerca de R$ 25 bilhões por três anos. Em 2026, já roda em R$ 32 bilhões. Em dólar, ainda está longe dos “old good times” de 2021, mas pode mais que dobrar se 1% do fluxo americano olhar para o mercado local.
“Na prática, isso significa mais receita na corretora, mais operações em equity capital markets e um efeito indireto positivo sobre M&A, já que parte relevante dos recursos captados acaba sendo usada para crescimento inorgânico”, afirma Anderson Brito, chefe do banco de investimento do UBS BB.
A projeção do banco é um crescimento de 25% na receita total, puxada pela retomada de ofertas de ações e volume de M&A, seguido de dívida local e dívida internacional, que historicamente reduz volume em anos eleitorais.
Uma pesquisa do banco com investidores mostrou que mais de 75% esperam mais de 10 IPOs de empresas brasileiras em 2026. “Tem um estoque represado enorme de empresas das carteiras dos fundos de private equity e o setor de tecnologia voltou com força, puxado pelo volume de ofertas e os múltiplos nos Estados Unidos”, diz Brito. Cerca de 80% dos investidores ouvidos projetam o Ibovespa acima de 190 mil pontos — e 40%, acima de 200 mil.
Fonte: Pipeline