O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou nesta segunda-feira que o aspecto fiscal sempre é uma fonte de preocupação, que os investidores falam muito desse tema, e que a questão nesse ponto é como endereçar “o fato de que precisamos mostrar a investidores no longo prazo que podemos ter uma trajetória sustentável da dívida”.
Campos Neto também mencionou que a mudança da meta fiscal pelo governo para 2025, de superávit de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para déficit zero criou alguma incerteza no mercado. Ele destacou que o importante para a autoridade monetária não é o fiscal em si, mas o que ele significa para as variáveis macroeconômicas que são relevantes para a função reação. O presidente do BC participou de evento virtual promovido pela Constellation Asset Management.
Campos Neto ainda pontuou que as pesquisas não mostram uma reprecificação dos números fiscais, mas há uma mudança quando se olha o qualitativo. Em sua apresentação, o presidente do BC citou um dado do último “Questionário Pré-Copom”, em que 79% dos respondentes disseram que a situação fiscal piorou entre as duas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).
Na sessão de perguntas, o presidente do BC foi questionado sobre os maiores riscos para a economia brasileira nos próximos dois a cinco anos. Ele respondeu que acredita que a maior percepção de risco no Brasil está relacionada à habilidade de se envolver no sistema em que “há harmonia entre política fiscal e política monetária. É nisso que as pessoas concentram mais no curto prazo”.
Campos Neto ressaltou, no entanto, que o grande desafio que existe no Brasil é a produtividade, pontuando que houve aumento no setor da agricultura, mas fora disso, parou. Exemplificando com efeitos da reforma trabalhista no emprego, disse que há muito foco no curto prazo. “Acho que as coisas que importam são, às vezes, coisas que você faz hoje e não vê o efeito no curto prazo”, disse.
Sobre inflação, destacou que o país está em processo de convergência e que os três últimos números vieram melhor do que o esperado e no último houve melhora na qualidade. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo –15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação, teve alta de 0,44% em maio, abaixo da mediana do Valor Data.
Segundo Campos Neto, o BC vem fazendo um trabalho para tentar dissecar os componentes de serviços para ver se há correlação entre intensidade de trabalho e ajuste de preços. A ata do último Copom mostrou que houve debate sobre possível transmissão do aperto do mercado de trabalho para salários e preços, mas que ainda “não há evidências conclusivas de impacto do mercado de trabalho sobre a inflação”, diz o documento.
O presidente do BC ressaltou que há o fenômeno no Brasil de inflação corrente com comportamento “mais ou menos” como se esperava, mas com expectativas de inflação começando a desancorar. Ele ressaltou que a última comunicação oficial mudou o entendimento de “parcial ancoragem” para “desancoragem” e destacou que essa foi, parcialmente, a razão da mudança de ritmo de ajuste nos juros. A taxa básica de juros, a Selic, passou de 10,75% para 10,50% ao ano. Nas reuniões anteriores, os cortes haviam sido de 0,50 ponto percentual.
Campos Neto ainda tratou da atividade econômica, que segundo ele, trouxe boas notícias nos últimos meses com revisões de crescimento para cima. A atual previsão do BC é de alta de 1,9% no PIB este ano, já o mercado projeta crescimento de 2,09%, segundo a mediana do Focus. A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda estima alta de 2,5% este ano.
Ao responder a outra questão, sobre o que faria diferente se voltasse ao mercado após a experiência no BC, Campos Neto disse que “provavelmente navegaria melhor pelos ruídos porque estando desse lado você meio que vê como o bolo é assado e ver isso acho que coloca uma perspectiva diferente”.
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Fonte: Valor Econômico


