28/07/2022 05h01 Atualizado há 5 horas
O Federal Reserve dobrou a dose de sua política agressiva de juros ao elevar ontem a taxa básica em 0,75 ponto percentual, para 2,25% a 2,5%, e não descartou a possibilidade de novo ajuste da mesma magnitude na próxima reunião. Os mercados americanos acentuaram alta durante a entrevista do presidente do Fed, Jerome Powell, preferindo se embalar com parte de sua frase de que “em algum momento será apropriado diminuir o ritmo”. Em três reuniões, o banco central americano elevou em 2 pontos percentuais os fed funds, no aperto monetário mais intenso desde 1981.
Os juros americanos estão agora na faixa considerada neutra, a que não freia nem estimula as atividades econômicas. O Fed, segundo Powell, busca atingir juros moderadamente restritivos em seu plano de voo, algo entre 3% e 3,5% que, tentativamente, poderiam fazer o serviço de casar a demanda e a oferta agregada. Powell ainda acha que é possível realizar um pouso suave da economia, driblando uma recessão que os analistas acreditam estar próxima.
Powell afirmou que a economia americana desacelerou no segundo trimestre, com a diminuição dos gastos de consumo e esfriamento do mercado imobiliário e dos investimentos das empresas. No entanto, a prova dos nove dos efeitos desejados da política monetária será feita pelo mercado de trabalho, que continua, para o Fed, muito apertado. Esse é o motivo simples pelo qual Powell não acredita que os EUA estão em recessão – há contradição evidente entre a economia em pleno emprego e o declínio acentuado das atividades.
Há sinais muito incipientes de que esta situação começa a mudar. As pressões salariais estão arrefecendo, ainda que, mesmo em seu auge, tenham sido suplantadas pela inflação muito elevada (9,1% em junho, a mais recente leitura). Há evidências esporádicas de alguma diminuição da oferta de trabalho. Mesmo que o emprego esteja crescendo em velocidade menor do que a do início do ano, o ritmo de 450 mil contratações mensais é forte suficiente para manter o mercado em desequilíbrio a curto prazo.
O fato de o Fed ter um plano de voo não significa que ele terá sucesso. Há enormes incertezas e grande espaço para surpresas ruins. Os índices de mercado indicam que o banco começaria a cortar os juros em 2023, mas Powell não corroborou esta expectativa, ao afirmar que, se em condições normais já é muito difícil prever a situação da economia 12 meses à frente, a tarefa agora é impossível. “Será preciso um período em que o crescimento esteja abaixo do seu potencial por tempo suficiente”, disse, para que o mercado de trabalho desaqueça e a inflação perca seu impulso vital.
Parte dos investidores conta com a perspectiva de que, diante de ameaça de recessão, o Fed interromperá a sequência de altas de juros e passará a cortá-los. O presidente do Fed não pensa bem assim. Ele não respondeu a uma pergunta direta se preferia pecar por elevar as taxas em demasia ou menos do que o necessário, mas deixou claro que ser leniente com a inflação traria mais prejuízos à economia e habituaria os agentes econômicos a precificar uma inflação maior em seu cotidiano. Como o compromisso firme do Fed é levar a inflação de volta à meta de 2%, não será uma recessão que o impedirá de agir. A condição necessária para cessar o aperto monetário será convincentes evidências de que a inflação está fazendo o caminho de volta para 2%.
A tarefa do Fed, que se move em terreno desconhecido, é mais complicada a partir de agora. Powell disse que o banco não fornecerá mais orientação futura tão clara quanto a que foi feita para conduzir os juros ao terreno neutro agora atingido. É impossível sinalizar que na reunião de setembro o Fed elevará os juros em 0,75 ponto percentual, o que foi mencionado, ou os reduzirá a 0,5 ponto, disse Powell. A única certeza é que “novos aumentos dos juros serão apropriados”, como registra o comunicado após a reunião do Fomc.
Depois de ser surpreendido por uma inflação muito maior que a esperada, o Fed naturalmente está lançando a maior parte da carga de juros no início do ciclo de aperto monetário. Um aumento de 0,75 ponto em setembro já o colocaria muito perto de onde pretende teoricamente chegar, entre 3,25% e 3,5%. Se os indicadores não forem desfavoráveis, e não houver surpresas inflacionárias negativas, a cadência dos juros pode diminuir na próxima reunião.
Fonte: Valor Econômico

