As negociações para a produção no Brasil da vacina contra a dengue Qdenga, da fabricante japonesa Takeda Pharma, avançaram. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) entrou, há cerca de 15 dias, com um pedido formal no Ministério da Saúde para transferência de tecnologia e produção do imunizante no país.
Essa solicitação foi feita por meio de uma Parceria de Desenvolvimento Produtivo (PDP), mecanismo inédito para a vacina da dengue. O processo para a produção local da Qdenga, da farmacêutica Takeda, está em etapa de submissão, ou seja, o Ministério da Saúde ainda vai analisar a viabilidade do projeto.
Em 2009, houve uma transferência de tecnologia da vacina pneumocócica 10-valente, da GSK, mas na época esse processo não foi feito via PDP porque esse programa não existia. Passou a ser parte do programa em 2012.
A Fiocruz e a Takeda confirmaram que houve a formalização de um pedido junto ao Ministério da Saúde. “Mais informações poderão ser detalhadas após a avaliação da proposta encaminhada”, informou a Fiocruz.
Em entrevista concedida, em agosto, ao Valor, o presidente da Takeda Brasil, José Manuel Caamaño, informou que havia conversas para a produção local. “Já temos algumas discussões para podermos fazer um projeto que possamos apresentar para ajudar o governo brasileiro a ter produção local da vacina, o que também ajudará na produção global da vacina contra dengue”, disse na época.
A parceria entre Takeda e Fiocruz faz parte da meta do governo federal em reduzir a dependência da indústria internacional em medicamentos, materiais e saúde digital considerados estratégicos para o Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, iniciativas voltadas a emergências sanitárias, como dengue, também estão na lista de prioridades. As parcerias ocorrem entre instituições públicas nacionais e empresas privadas.
Atualmente, a Qdenga é a principal vacina para dengue no mundo. O mercado brasileiro, por sua vez, é o maior consumidor global do imunizante e boa parte da produção, feita atualmente numa fábrica localizada na Alemanha, vem para cá. Neste ano, a farmacêutica Takeda está destinando ao governo federal 6,5 milhões de doses e outras 9 milhões estão previstas para 2025, com prioridade para a rede pública de saúde.
A fabricante japonesa não revela a produção atual, mas destaca que, em 2030, seu objetivo é estar produzindo 100 milhões de doses da vacina, por ano. Essa produção virá de uma nova unidade fabril na Alemanha e de uma parceria fechada, neste ano, com uma farmacêutica indiana chamada Biological E. Limited (BE). “Os casos de dengue, infelizmente, vão continuar aumentando, temos os efeitos climáticos e muitas regiões no mundo têm chances de serem afetadas”, afirmou Caamaño.
Nessa corrida, há ainda a vacina do Butantan que, em agosto, divulgou dados da fase 3 de pesquisa. O estudo, publicado na revista científica ‘The Lancet Infectious Diseases’, mostrou eficácia de 89% para casos graves, além de eficácia e segurança prolongadas por até cinco anos.
O Brasil é considerado o mercado prioritário para a Takeda devido à epidemia de dengue que atingiu o país. Segundo dados do painel de monitoramento de arboviroses do Ministério da Saúde, foram registrados 6,5 milhões de casos prováveis e 5,6 mil mortes pela doença neste ano (até meados de outubro).
“Hoje, já há mais de dois milhões de pessoas vacinadas com as doses que entregamos. Temos uma vacina que está em estudo há mais de 15 anos, com mais de 28 mil participantes do estudo em 13 países, incluindo o Brasil. É um produto que demonstrou eficácia e segurança em uma população global”, disse o presidente da Takeda Brasil. A farma investe US$ 4,8 bilhões por ano em pesquisa e desenvolvimento (P&D), o equivalente a 15% de sua receita global.
Caamaño destacou ainda que a Qdenga tem “uma efetividade de oito em cada 10 pessoas vacinadas, elas não contraíram a doença. A efetividade é de redução de 80% da dengue na população vacinada nos primeiros 12 meses e 90% das pessoas que não chegaram à internação, ou seja, nove em cada 10 pessoas que contraíram a doença não foram hospitalizadas”.
Um dos diferencias da Takeda em relação a Dengvaxia, do laboratório francês Sanofi-Pasteur, é que o imunizante da farmacêutica japonesa pode também ser aplicado na população que ainda não contraiu o vírus da dengue.
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Fonte: Valor Econômico