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O uso de inteligência artificial e da robótica têm potencial de revolucionar o setor de saúde. Há experimentos com bons resultados em diferentes áreas – da administrativa até a ponta, com uma série de serviços de telemedicina promovendo a equidade na saúde. No entanto, para a expansão da saúde digital alguns desafios precisam ser superados, na opinião de especialistas. A falta de conectividade com qualidade e a interoperabilidade de dados estão entre os principais, mas há também problemas relacionados ao letramento digital e a desigualdades sociais.
“Mais de 40% das Unidades Básicas de Saúde no Norte e Nordeste não têm conectividade de qualidade”, diz Marcia Ogawa, do Inova HC (Núcleo de Inovação Tecnológica do Hospital das Clínicas de São Paulo – USP). Isso inviabiliza, por exemplo, levar para a UBS um equipamento de ultrassom ou um ecocardiograma para uma região remota para que o médico que está atendendo o paciente faça exames e realize uma consulta on-line com o especialista de um hospital de referência.
“Temos promovido experimentos estruturantes que tragam equidade, mas precisamos ter conectividade de qualidade para ampliar o acesso a saúde”, afirma Ogawa. Ela também aponta a necessidade de avanços no compartilhamento de informações. “É preciso construir uma camada de interoperabilidade de dados”, defende. No HC, o núcleo de inovação tem um piloto com o uso de inteligência artificial generativa para colocar “tradutores” na camada da interoperabilidade para que prontuários eletrônicos tenham um padrão.
Anderson Rocha, professor do Instituto de Computação da Unicamp e especialista em inteligência artificial, observa que as grandes redes hospitalares estão fazendo pesquisas internas com o uso da IA na saúde, mas não há padronização entre especialistas, equipamentos e na forma como os dados são tratados. “Ainda estamos engatinhando nesse processo. Para dar um passo adiante, temos que começar a pensar no problema independentemente da instituição, como país, depois como mundo. Quando falamos de IA, é uma questão global”, afirma.
Para o médico Edson Amaro Junior, do Hospital Albert Einstein, o problema da interoperabilidade não é nem técnico e nem regulatório, mas administrativo, de comunhão de interesses e um problema global, não só do Brasil. “No âmbito regulatório temos a LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados], que é muito importante, estamos discutindo a lei de IA em todos os setores da sociedade, mas é preciso ter exemplos de adoção em escala.”
Na sua visão, as pessoas não sabem o valor dos dados e as instituições não sabem como lidar com a transferência de informações de um local para o outro. “É uma questão de política, de vontade e capacidade de alinhar os interesses, essa é a articulação necessária”, acrescenta Amaro.
Do lado do governo, o Ministério da Saúde mantém, desde 2009, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), por meio de uma aliança com seis hospitais filantrópicos de referência – Hcor, Beneficência Portuguesa (BP), Albert Einstein, Oswaldo Cruz, Sírio-Libanês, de São Paulo, e Hospital Moinhos de Vento, do Rio Grande do Sul. Como contrapartida à imunidade fiscal, essas instituições destinam recursos para projetos na rede pública, incluindo capacitação de profissionais, pesquisa, adoção de tecnologias, gestão e assistência especializada.
O médico do Einstein cita como exemplo o Projeto Trauma (sigla para Tecnologia de Rápido Acesso Unificado para Mitigação da Acidentalidade), que trabalha com ciência de dados. O objetivo é estruturar e integrar informações sobre registros de vítimas atendidas por serviços de urgência e emergência (como violências e acidentes), que possam servir de base para direcionamento de políticas públicas e prevenção de acidentes.
Outra barreira detectada pelos especialistas que trabalham com telemedicina é o letramento digital, tanto de pacientes como de uma parcela dos profissionais de saúde. A cardiologista Camila Rocon, do Hcor, que participa do projeto TeleNordeste, outro dos programas do Proadi-SUS, conta que em alguns locais o agente de saúde sequer tem e-mail. O TeleNordeste tem como objetivo fortalecer a atenção primaria, por meio de teleconsultas trianguladas (médico e paciente na UBS e, do outro lado, um especialista da instituição de referência). “As pessoas têm resistência à telessaúde, ao entendimento dos processos, receitas, certificado digital e até navegar pelas plataformas”, afirma.
Rocon destaca, no entanto, que a iniciativa é positiva: diminui o tempo de espera por consulta especializada, reduz o custo com deslocamentos e capacita as equipes locais, entre outros benefícios. Somente no Hcor, há profissionais de 14 especialidades atuando no TeleNordeste.
“O letramento digital é fundamental para falarmos de equidade, porque, além de dar o acesso, o usuário precisa saber manusear e reconhecer os benefícios”, observa a enfermeira Camila Tothi, que também participa do programa.
No triênio 2021-2023, o Proadi-SUS teve 169 projetos executados, 5.139 profissionais envolvidos, dos seis hospitais de excelência participantes, e investimentos de R$ 2,3 bilhões. Para o triênio 2024-2026 estão previstos R$ 2,88 bilhões, segundo o Ministério da Saúde.
Fonte: Valor Econômico