Por Eduardo Magossi — De São Paulo
04/12/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
Dificilmente os EUA conseguirão realizar um pouso suave da economia, avalia o estrategista-chefe do UBS Investment Bank, Bhanu Baweja. Em entrevista ao Valor, Baweja disse que a atividade econômica mais forte que o esperado ao longo de 2023 nos EUA fez investidores interpretarem essa dinâmica como uma redução permanente da sensibilidade da economia à política monetária. “Nós interpretamos como uma defasagem mais longa que o esperado na política monetária. A maior parte do impacto do aperto será sentida até 2024 e 2025. Esperamos uma recessão muito moderada, com resultados negativos do PIB no segundo e terceiro trimestres do próximo ano. É uma recessão modesta em termos reais, mas uma mudança negativa muito maior em termos nominais, que é o que importa para margens e lucros”, disse ele.
Baweja estima que cerca de 80% do excedente de poupança das famílias já foi gasto e que, a partir de agora, os pagamentos de juros comecem a aumentar mais rapidamente que a renda disponível. “Com menos investimento, fim dos estímulos e uma grande parte da transmissão monetária ainda pela frente, será difícil evitar alguns trimestres negativos de crescimento”, afirma.
O economista trabalha com um cenário em que a maioria dos bancos centrais do G10 começa a cortar juros em 2024, de forma modesta, com exceção dos EUA. “Em média, a expectativa é que os bancos centrais do G10 reduzam cerca de 80 pontos-base dos juros nos próximos três anos, o que implica que as taxas não regressarão a níveis neutros e muito menos se tornarão acomodatícias”, avalia.
Segundo ele, no caso dos EUA, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve iniciar os cortes já no primeiro trimestre de 2024 e continuar até o início de 2025. “O Fed vai precisar reduzir os juros de forma mais agressiva para calibrar a restritividade da economia, já que a inflação deve cair rapidamente, o que aumenta o aperto mesmo sem nova alta nas taxas.” Baweja explica que, historicamente, uma economia enfraquecida provoca reações grandes e rápidas por parte do Fed. “Acreditamos que os juros terminem 2024 no intervalo entre 2,50% e 2,75%”, disse ele, nível bem inferior ao precificado atualmente, entre 4% e 4,25%.
Sobre a trajetória da inflação, a expectativa do economista é que o ritmo de queda nos últimos seis meses continue pressionado pelo aumento da oferta de bens. “O abrandamento do mercado de trabalho vai desacelerar os preços dos serviços essenciais. Nossa previsão para a inflação para 2024 é menor que o consenso, com o índice de preços de gastos com consumo [PCE, na sigla em inglês] ficando abaixo da meta do Fed de 2%. O núcleo do PCE deve terminar 2024 a 1,8%.”
Sobre a Europa, Baweja projeta que o Banco Central Europeu (BCE) vai ficar muito restritivo durante os próximos trimestres e só retornará à posição neutra no fim de 2025. “O BCE deverá começar a cortar as taxas em junho de 2024, a um ritmo de 25 pontos-base por trimestre, e acelerar no segundo semestre de 2025. Como resultado, a taxa de depósito diminuirá dos atuais 4% para o nível neutro de 2% no fim de 2025.”
Em relação ao mercado acionário, Baweja observa que, apesar do crescimento global melhor que o esperado em 2023, os retornos das ações foram apenas ligeiramente positivos no índice de mesma ponderação do S&P 500. E, segundo ele, o retorno positivo do S&P 500 só foi possível com o avanço das sete maiores empresas de tecnologia dos EUA: Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Nvidia, Tesla e Meta, conhecidas como “Magnificent-7”. “Agora, as vendas deverão cair e, junto com isso, as margens. Esperamos um crescimento de pouco menos de 2% nos lucros das companhias americanas. Seriam negativos se não fosse o setor de tecnologia, impulsionado pela inteligência artificial. Já na Europa, prevemos uma queda nos lucros entre 5% e 10%.”
Para 2024, a expectativa é de que, com os “valuations” incapazes de evitar a queda dos lucros, o retorno das ações do S&P 500 fique estável, encerrando 2024 em torno de 4.600 pontos, perto do nível atual. “Em termos gerais, a fraqueza global e os rendimentos mais baixos dos títulos conduzem a um desempenho inferior das ações europeias. Definimos um preço-alvo de 410 para o Stoxx 600 para o fim de 2024, uma queda de mais de 10% em relação aos níveis atuais.”
O economista é cauteloso quando analisa se as “big techs” continuarão sustentando o S&P 500 em 2024. “As Magnificent-7 entregaram um crescimento anual composto de lucros de 15,2% na última década. É difícil manter esse crescimento à medida que as empresas crescem. Apesar disso, o consenso espera que o crescimento dos lucros aumente 40% nos próximos dois anos. O consenso também espera que o crescimento dos lucros das 493 empresas restantes do S&P 500 aumente de 6% nos últimos dez anos para 7,6% nos próximos dois anos. Expectativas muito otimistas, a nosso ver.” Segundo ele, o UBS está mais otimista com empresas de tecnologia da Ásia.
Sobre o Brasil, Baweja acredita que o maior desafio do país é gerar crescimento suficiente para reduzir a dívida pública e evitar um evento fiscal no futuro. “Nesse contexto, um regime de juros elevados por mais tempo nos países desenvolvidos cria riscos de expor ainda mais as vulnerabilidades através de taxas mais elevadas, e também de um provável impacto no crescimento se a demanda de investimento for cada vez mais prejudicada pelo aumento das taxas reais”, avalia.
Ele projeta que o Brasil cresça 3,2% este ano, impulsionado por uma forte safra agrícola, mas também graças ao resiliente consumo privado. “No curto prazo, o mercado de renda fixa do Brasil é muito atraente. À medida que o dólar enfraquece, o real deverá permanecer praticamente estável e ter um bom desempenho numa base de retorno total, mas a maior parte dos retornos de um dólar mais fraco deverá reverter para as moedas do G10, e não dos mercados emergentes, uma vez que o crescimento global enfraquecerá e os pontos de partida dos prêmios de risco ficarão muito apertados.”
Fonte: Valor Econômico


