As exportações de países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês) aos EUA no período de janeiro a março superaram as destinadas à China pela primeira vez em seis trimestres, uma vez que o comércio da região parece estar se transformando de forma concomitante às mudanças nas cadeias de fornecimento mundiais.
A Nikkei Asia compilou os dados de dez países da Asean a partir de números do secretariado do bloco econômico, de governos nacionais e de notícias dos meios de comunicação locais.
Os dados compilados mostram que as exportações da Asean aos EUA somaram US$ 67,2 bilhões de janeiro a março, superando as da China, que chegaram a US$ 57 bilhões. De acordo com especialistas, a tendência é reflexo tanto de um aumento nas compras pelos EUA de semicondutores e peças elétricas feitos na Asean quanto da perda de força da economia da China.
As exportações da Malásia aos EUA cresceram 8% na comparação com o primeiro trimestre de 2023, enquanto as exportações à China caíram 3,3%.
“A tendência atual é guiada por fatores tanto estruturais quanto cíclicos”, disse a economista Intan Nadia Jalil, do banco CIMB Group, à “Nikkei Asia”. “Embora a China continue a ser uma parte integral da cadeia de valor [de componentes elétricos e eletrônicos], o aumento dos custos, assim como fatores políticos e institucionais — principalmente as tensões comerciais entre as duas superpotências — têm levado cada vez mais as empresas dos EUA a se realocar da China, com a Malásia sendo um dos beneficiários.”
Ela acrescentou que causas estruturais amplificam as tendências econômicas cíclicas, referindo-se às mudanças do consumo na China, que passou a dar mais importância aos componentes de alta tecnologia produzidos internamente, como os chips, em vez de às importações.
Arinah Najwa, diretora do BowerGroupAsia, uma firma regional de consultoria, citou outro fator. “As empresas dos EUA estão reduzindo a exposição a riscos na China e diversificando suas cadeias de fornecimento para depender menos da China, com a Malásia sendo uma alternativa atraente em razão de seu sólido ecossistema de indústria, localização estratégica e mão de obra qualificada”, disse, acrescentando que a tendência pode oscilar.
No caso do Vietnã, os EUA foram o destino de 28% das exportações do país em 2023 e a China, de 17%. As exportações do Vietnã aos EUA aumentaram 24%, para US$ 25,7 bilhões no primeiro trimestre, o maior crescimento entre os membros da Asean, bem à frente da Tailândia, com US$ 12,6 bilhões, e Cingapura, com US$ 12 bilhões.
Le Dang Doanh, economista em Hanói, disse à “Nikkei Asia” que os EUA e o Vietnã se complementam. “O Vietnã exporta telefones celulares, produtos eletrônicos, agrícolas, florestais e pesqueiros, móveis de madeira, têxteis e vestuário a preços competitivos”, disse. “O potencial das exportações do Vietnã ao mercado dos EUA ainda é enorme, trazendo benefícios para ambos os lados.”
Ele também destacou as repercussões da guerra comercial entre EUA e China, na qual Washington impôs altas tarifas de importação sobre produtos chineses. “Algumas exportações chinesas para os EUA são altamente tributadas, reduzindo a competitividade no mercado e criando certas vantagens para os produtos exportados pelo Vietnã.”
Em tendência correspondente, as exportações da Tailândia à China caíram 5,1% no primeiro trimestre, na comparação anual, com declínios nas remessas de borracha natural, produtos de tapioca e frutas. Em contraste, as exportações aos EUA aumentaram 9,8%, puxadas por produtos agrícolas e agroindustriais.
Segundo um analista da firma de análises tailandesa Kasikorn Research Center, a China corre o risco de deflação. Em março, o índice de inflação recuou pelo quarto mês consecutivo, sinal que a demanda poderia continuar fraca.
Outro fator crítico que pesou nas exportações tailandesas no primeiro trimestre deste ano foram as de automóveis. Surapong Paisitpattanapong, chefe do clube automotivo da Federação das Indústrias da Tailândia, disse que o número de veículos produzidos para exportação caiu para 273.680, uma queda de 5% na comparação anual.
Poonpong Naiyanapakorn, diretor-geral da Agência de Políticas e Estratégia Comercial, disse que isso se deve principalmente à fraca demanda na China. “Embora possamos ver um sinal de recuperação econômica na China neste ano, ela ainda não se recuperou totalmente”, disse. “E a demanda não é muito forte.”
Se Hong Kong for incluída — o território costuma ser separado das estatísticas da China continental porque muitas vezes serve como ponto de trânsito para exportações a terceiros países — as exportações da Asean para a China e Hong Kong no primeiro trimestre de 2024 atingiram US$ 69,4 bilhões, superando as destinadas aos EUA. Ainda assim, a diferença é bem menor em comparação com o passado. No primeiro trimestre de 2021, as exportações da Asean para a China e Hong Kong haviam somado US$ 86,4 bilhões, enquanto as destinadas aos EUA, US$ 59 bilhões. (Colaborou Kim Dung Tong, na Cidade de Ho Chi Minh)
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Fonte: Valor Econômico
