Por Gideon Rachman — Financial Times
28/06/2022 05h01 · Atualizado
Os grandes choques do petróleo na década de 70 ensinaram aos políticos uma lição sobre o poder das superpotências energéticas globais. Cinquenta anos depois, essa lição está sendo reaprendida.
A Rússia está reagindo às sanções ocidentais restringindo o fornecimento de gás para a Europa. A possibilidade de um corte total do gás russo está provocando pânico na Europa, com a Alemanha e outras grandes econômicas avaliando o risco de racionamento de energia no próximo inverno.
Enquanto isso, Joe Biden, preocupado com a alta do preço do petróleo num ano de eleições para o Congresso, teve de esquecer sua retórica de campanha de dar um tratamento de pária à Arábia Saudita. O presidente dos EUA vai a Riad em julho apelar aos sauditas que elevem a produção de petróleo.
A lição parece simples e desanimadora. Em 2011, assim como em 1973, os megaprodutores de petróleo ainda podem fazer as maiores potências políticas globais dançarem a sua música.
Mas, olhando além das manchetes imediatas, a geopolítica da energia é muito mais complexa. A Rússia tem uma mão forte no curto prazo, mas sua posição vai piorar dramaticamente nos próximos três anos. Os EUA têm um grande problema no curto prazo, mas terão uma posição forte no futuro.
É a União Europeia (UE) que tem os maiores problemas de curto e médio prazos. Apesar da conversa corajosa sobre diversificação e descarbonização, os europeus ainda estão longe de achar uma nova estratégia energética viável.
Rússia e UE estão envolvidas numa corrida contra o tempo. O objetivo russo é claramente causar uma crise econômica na Europa neste inverno, enfraquecendo assim o apoio europeu à Ucrânia. O governo da Hungria, que tem atitude indulgente com Putin, já está pressionando por um cessar-fogo rápido na Ucrânia, citando o risco de uma catástrofe econômica.
Os europeus têm vários meses até o inverno para se preparar para o aperto no gás russo que se aproxima. Mas, mesmo que a tática da pressão de Moscou funcione no curto prazo, no longo prazo Putin está destruindo um dos principais pilares do poderio russo.
A Europa aprendeu uma lição amarga sobre os perigos da dependência energética da Rússia e está determinada a nunca mais ser tão vulnerável. Uma autoridade alemã diz: “Antes da guerra, a Rússia esperava mais 30 anos de receitas garantidas com o petróleo e o gás. Agora, eles estão esperando três.”
Mesmo no curto prazo, cortar as exportações de gás para a Europa é um jogo perigoso para a Rússia. Cerca de € 1 bilhão por dia ainda fluem para os cofres russos, oriundos principalmente da Europa. Se Putin sacrificar essa receita, sua capacidade de sustentar a guerra diminuirá rapidamente.
A Rússia pode encontrar facilmente mercados alternativos para o seu petróleo – é só olhar para a ânsia com que Índia e China estão aumentando as importações de petróleo russo com desconto. Mas seu gás é exportado por tubulações, e os principais gasodutos seguem para a Europa. Construir novos para a China levará anos, de modo que em breve a Rússia poderá estar diante de um ativo ocioso.
A seriedade dos esforços europeus para se libertar da dependência da energia russa pode ser vista nas agendas de viagens de seus líderes. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, acaba de passar por Israel e Egito, assinando um novo acordo de fornecimento de gás. Olaf Scholz, premiê da Alemanha, visitou recentemente o Senegal e jogou seu peso no desenvolvimento de um novo campo de gás no país.
No entanto, uma grande questão permanece: a rapidez e facilidade com que a Europa conseguirá substituir a energia russa. Privadamente, algumas figuras importantes do setor mostram-se céticas. A situação nos próximos cinco anos deverá deixar a Europa numa posição desconfortável, com a necessidade da energia russa reduzida, mas não eliminada, enquanto os consumidores enfrentarão preços persistentemente mais altos e o fornecimento será inseguro.
Os EUA, por outro lado, estão numa posição de longo prazo bem mais confortável. Segundo Dan Yergin, importante analisa do setor de energia, o país tirou da Rússia o posto de maior exportador de energia do mundo.
Os preços maiores da energia são um problema para os consumidores americanos, mas são uma bênção para o setor de gás de xisto dos EUA. Uma lição da guerra na Ucrânia é que é perigoso para um país depender de um adversário geopolítico para a energia que consome. Os EUA são hoje um grande exportador líquido de energia, enquanto a China seguirá muito dependente de importação.
Mas, sozinha, a produção americana não protege os consumidores dos EUA do aumento dos preços mundiais do petróleo. O desejo do país de isolar não só a Rússia, mas também o Irã e a Venezuela, fortaleceu a posição da Arábia Saudita. É impossível, mesmo para os EUA, tratar todos os grandes produtores mundiais de petróleo como párias ao mesmo tempo. E ao contrário de Rússia e Irã, a Arábia Saudita é um aliado de longa data dos EUA.
A verdadeira ameaça à posição saudita não é geopolítica, e sim ambiental. A descarbonização poderá eventualmente significar que o mundo não vai mais comprar o que os sauditas vendem.
No curto prazo, porém, a crise global de energia causada pela guerra na Ucrânia está ampliando a demanda por combustíveis fósseis não russos – incluindo o carvão, o mais sujo deles. A Alemanha está reabrindo usinas desativadas movidas a carvão. E a China está se apegando ainda mais à sua forma mais confiável de produção doméstica de energia, o carvão.
A invasão da Ucrânia pela Rússia é uma notícia ruim para o mundo. Pode ser uma notícia ainda pior para o planeta.
Fonte: Valor Econômico