Por Marina Guimarães — Para o Valor, de Buenos Aires
11/10/2023 05h04 Atualizado há 4 horas
A Argentina viveu ontem mais um dia de forte escalada do dólar, que passou dos 1.000 pesos no paralelo, com o candidato favorito à Presidência, Javier Milei (La Libertad Avanza), de extrema direita, incitando a dolarização da economia antes das eleições no próximo dia 22. Para analistas ouvidos pelo Valor, Milei busca promover a desvalorização do peso ainda no governo atual, que tem o seu rival Sergio Massa (Unión por la Patria) como ministro da Economia.
“Há duas razões muito óbvias para Milei encorajar o caos econômico: por um lado, serve para aumentar a sua votação nas eleições de 22 de outubro, visto que é o candidato que mais consegue captar o descontentamento social. Ao mesmo tempo, se ele for eleito presidente, seria útil que a desvalorização do peso seja realizada por Sergio Massa e não por ele”, disse Claudio Caprarulo, diretor de Analytica Consultora.
Ontem, o paralelo fechou cotado a 1.010 pesos, elevando o spread com a taxa oficial a mais de 188%. Em um esforço para conter a pressão de alta sobre o paralelo, o governo argentino anunciou ontem a fusão de cotações de dólares usados para consumo, promovendo uma nova desvalorização.
O economista Juan Manuel Telechea, docente da Universidade Arturo Jaurethe, estima que nas últimas semanas houve uma perda de depósitos de no sistema financeiro entre 15% a 20%. Para ele, o governo teve de agir porque o dólar turista estava “barato”, visto que as pessoas estão antecipando a compra de passagens e pacotes para o próximo verão. “O dólar turista estava em 650 pesos contra um paralelo da véspera de mais de 900 pesos, é uma diferença abismal que incentiva a população a usar o cartão para gastos no exterior em vez de usar dólares do seu bolso, que são os que não afetam as reservas.”
“Milei quer usar o governo atual para que faça o trabalho sujo da dolarização” — Alejandro Vanoli
O processo de dolarização na Argentina se acelera a cada dia pelas declarações incendiárias de Milei e complica a situação de crise financeira, diz Alejando Vanoli, ex-presidente do banco central argentino. Para ele, Milei está tentando quebrar o governo e antecipar uma vitória no primeiro turno das eleições, de maneira a abrir o caminho para a dolarização da economia. “Acho que ele está tentando ganhar no primeiro turno ou, pelo menos, conseguir uma diferença muito grande para ir com folga para o segundo turno”, diz.
Para Vanoli, o candidato busca desestabilizar o dólar, após um período de relativa estabilidade em setembro. “Isso é uma irresponsabilidade política”, afirma.
Nos últimos dois dias, Milei tem incitado a população a abandonar o peso, não renovar os depósitos de prazo fixo e comprar dólares. Ontem foi a vez do candidato a prefeito de Buenos Aires pelo partido de Milei pedir aos argentinospara que abandonem o peso. “Hoje mais do que nunca: não economize em pesos”, escreveu Ramiro Marra nas redes sociais.
Para Vanoli, o plano do candidato de extrema direita é, caso seja eleito, chegar ao governo com o trabalho de desvalorização já realizado pelo governo atual de Alberto Fernández.
“Quer usar o governo atual para que faça o trabalho sujo de implementar a dolarização”, diz ele, acrescentando que a queda nos depósitos bancários está diretamente ligada as declarações de Milei de que “o peso é um lixo”.
A menos de duas semanas das eleições, Vanoli antecipa dias de muita tensão nos mercados. “É possível que o governo adote algumas medidas pontuais, como o aumento das taxas de juros ou de maior controle do câmbio, mas nada vai mudar substantivamente até que o cenário eleitoral fique mais claro”, afirmou.
Ontem, as quatro associações de bancos do país emitiram uma nota em conjunto, na qual apelam aos candidatos para que “demonstrem responsabilidade nas suas campanhas e declarações públicas”. Sem mencionar Milei, o texto diz que “recomendar a não renovação de depósitos nada mais faz do que gerar preocupação num setor da população”.
Os argentinos têm US$ 241 bilhões fora do sistema, enquanto no sistema financeiro argentino os depósitos não chegam a US$ 15 bilhoes. “Este é um problema estrutural da economia argentina, por exemplo a saída de dólares também continuou num governo pró-mercado como o [do ex-presidente Mauricio] Macri. Revertê-la exigirá muitos anos de construção de credibilidade e de manutenção dos incentivos certos”, diz Claudio Caprarulo, da Analytica Consultora.
Fonte: Valor Econômico