Por Leo Lewis e Eri Sugiura — Financial Times, de Tóquio
09/08/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
As perdas gigantescas do Vision Fund, braço de investimento do SoftBank, vão obrigar a empresa a fazer um corte de custos “dramático”, depois de as fortes quedas das ações de tecnologia e a debilidade do iene terem levado o atribulado conglomerado de Masayoshi Son a registrar um prejuízo trimestral recorde de 3,1 trilhões de ienes (US$ 23 bilhões).
Em entrevista coletiva descrita pelo próprio Son como “deprimente”, ele admitiu que sua estratégia mundial de investimentos, famosa pela agressividade, deveria ter sido mais seletiva. “Estou envergonhado de mim mesmo por ter ficado tão eufórico com os grandes lucros do passado.”
Son disse que o SoftBank se sujeitará a um exercício “dramático” de cortes de custos generalizados, depois de os ganhos de investimentos de 7 trilhões de ienes dos dois fundos Vision terem sido completamente revertidos nos últimos seis meses.
Além de ter sido impactado pela onda mundial de queda das ações de tecnologia entre abril e junho, o SoftBank sofreu perdas cambiais de 820 bilhões de ienes, causadas pela forte desvalorização do iene, que em julho atingiu sua pior cotação em relação ao dólar em 24 anos.
O Vision Fund anunciou prejuízo combinado de 2,3 trilhões de ienes no segundo trimestre, que se soma à perda entre janeiro e março, até então recorde, de 2,2 trilhões de ienes. “Se tivéssemos sido um pouco mais seletivos e investido apropriadamente, não teria doído tanto”, disse Son.
Mantendo a tradição de apresentações excêntricas, Son explicou a situação atual de sua empresa fazendo referência a um retrato de Ieyasu Tokugawa, unificador nacional e xogum no século XVII, que em certa batalha sofreu perdas enormes para não perder prestígio diante dos inimigos. “Quero refletir sobre isso e lembrar disso como um alerta”, disse.
Son também questionou a estratégia de busca por “unicórnios” do primeiro Vision Fund, que conta com US$ 100 bilhões e com o qual ele queria construir as bases de um plano de 300 anos. “Se formos unilateralmente atrás de nossos planos, corremos o risco de aniquilação. Isso deve ser evitado a todo custo”, disse.
O SoftBank atribuiu seus problemas a “desafios cada vez mais profundos” no ambiente macroeconômico, à inflação, às medidas monetárias do banco central japonês e às tensões geopolíticas. O enorme prejuízo chega depois da promessa feita por Son em maio, de que ele jogaria na “defesa” dada a piora das condições.
A empresa descreveu a recente onda de vendas de ações como uma “correção de mercado de proporções históricas”. Em sua apresentação, porém, Son reconheceu que a parte negociada em bolsa das carteiras de investimento do Vision Fund teve desempenho bastante inferior ao mercado.
Entre as empresas do portfólio do Vision Fund mais atingidas há nomes cujo desempenho anterior foi estelar, como a empresa de comércio eletrônico Coupang, a companhia de inteligência artificial SenseTime e o serviço de entregas DoorDash.
“Nas empresas de capital fechado do portfólio houve diminuição do valor justo numa ampla gama de investimentos, refletindo revisões para baixo em recentes rodadas de financiamento e/ou uma piora em seu desempenho, assim como desvalorizações das ações de empresas comparáveis de mercado”, de acordo com o comunicado do SoftBank.
Em alerta que pode sinalizar mais tormentos pela frente, Son observou que, embora as perdas do Vision Fund reflitam baixas contábeis no valor nocional de empresas de capital fechado na carteira, elas ainda estão vulneráveis às condições macroeconômicas. “O inverno para as empresas não registradas em bolsa pode ser mais longo que o inverno para as empresas registradas”, disse.
Son acrescentou que os contratos pré-pagos de adiantamento com base nas ações do Alibaba, com os quais o grupo levantou US$ 10,5 bilhões no trimestre passado, proporcionam um “bom nível de posição de caixa”.
Quando perguntado se ainda havia espaço para usar as ações do Alibaba na captação de recursos, Son disse que estava “considerando questões”, em vista do preço das ações e da própria situação financeira do SoftBank, sem dar mais detalhes.
Son não quis falar sobre a fabricante de chips britânica Arm ou comentar se o SoftBank pode ser convencido pelo governo do Reino Unido a considerar seu registro em bolsa em Londres e nos Estados Unidos. Ele disse que a situação vai bem na Arm e adicionou: “essa é a única coisa que posso dizer hoje”. (Tradução de Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico