Há duas semanas, o economista Simon Neaime lecionava na Universidade Americana de Beirute (AUB, na sigla em inglês) e vivia com a família em uma casa no leste da capital libanesa, num bairro de maioria cristã. Mas Neaime viu essa rotina mudar radicalmente no início do mês, quando Israel passou a bombardear a capital Beirute, primeiro os subúrbios ao sul, reduto do Hezbollah, e depois passando para áreas como o centro, antes consideradas “seguras” pela menor presença do grupo militante xiita, aliado do Irã. Neaime hoje vive no Canadá, onde migrou com a família para fugir do conflito Israel-Hezbollah.
Os ataques israelenses em curso no sul do Líbano e em Beirute são uma escalada de um conflito latente que voltou a crescer a partir de 8 de outubro de 2023, quando o Hezbollah passou a lançar foguetes contra o norte de Israel, um dia depois da invasão do território israelense por militantes do Hamas, que deixou 1.200 mortos.
Assim como na guerra de 2006, quando Israel invadiu o sul do Líbano, também agora se vê um êxodo da população libanesa. O governo estima que mais de um milhão de pessoas deixaram o Líbano desde que os ataques se intensificaram. Neaime, PhD em economia pela canadense York University, foi um deles.
A nova guerra e a crise humanitária devem afetar ainda mais uma economia combalida há anos e que nos últimos tempos vem passando por choques intensos. Segundo o Banco Mundial, a pobreza entre as famílias do Líbano passou de 12% em 2012 para 44% em 2022. A situação piorou com o colapso financeiro de 2019. A fuga de investimentos e risco de default resultaram na desvalorização de 98% da libra libanesa. Em 2020, o Banco Mundial rebaixou o nível de renda do país para nação de rendimento médio-baixo. A pandemia de covid-19 em 2020 e a explosão de silos no porto de Beirute naquele ano agravaram ainda mais a situação econômica.
A sequência de crises levou à ondas de protestos que resultaram na renúncia do então premiê Hassan Diab em 2022. Desde então, o Congresso — dividido entre as principais linhas religiosas do Líbano — não consegue formar um novo governo e o país está há dois anos com um Gabinete interino.
“O establishment político do Líbano está paralisado”, diz Neaime, que falou com o Valor por telefone de sua nova casa em Toronto. “Sem governo, com uma crise econômica e financeira que ainda está se desenvolvendo, a situação está muito difícil para a população. O governo interino não tem poder para realizar nenhum tipo de reforma, essenciais para sair da crise, não podem assinar acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Não podem nem mesmo declarar situação de emergência”.
A paralisia política provocada por discordâncias entre as diferentes linhas religiosas do Líbano abriram espaço para o Hezbollah aumentar sua influência no país, com programas de assistencialismo e ajuda financeira vinda do Irã. Além de ser mais forte que o exército libanês, também é uma força política poderosa, por representar a população xiita do Líbano.
“O braço político do Hezbollah é uma força estabelecida que representa em torno de 30% da população. A não ser que toda essa população deixe o país, você não irá acabar com o braço político do grupo. Eles são parte do espectro político do país”, afirma Neaime, PhD em economia pela canadense York University e especialista em economias do Oriente Médio e Norte da África.
A disfunção da classe política e a crescente força do Hezbollah são hoje os maiores obstáculos para o Líbano superar a crise atual.
“Hoje, não só os membros da diáspora libanesa no mundo deixaram de enviar dinheiro ao país, como países que ajudaram em 2006, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, relutam em enviar recursos, enviam apenas alimentos”, disse Neaime. “Em 2006 nós tínhamos um governo funcional, o que não temos hoje.”
Para piorar, no domingo Israel ampliou sua ofensiva contra o Hezbollah bombardeando sua infraestrutura financiera, especificamente a rede da Associação Al Qard Al Hassan (AQAH). Para Israel, a AQAH serve como sistema bancário alternativo do Hezbollah, para o grupo obter recursos e continuar funcionando.
Segundo Neaiman, o banco nasceu na esteira da crise bancária do Líbano em 2020, que deixou os bancos tradicionais insolventes. A AQAH oferecia microcrédito para pequenas empresas. “Você basicamente vai lá, deposita ouro e obtém um crédito. Empréstimos pequenos, de US$ 5 mil, US$ 10 mil, para serem usados em pequenos negócios”, disse Neaime, que teme as consequência da ausência desse tipo de financiamento. A AQAH era a única possibilidade da população de obter microcréditos.
“O sistema bancário do Líbano está paralisado. Esse setor precisa ser reconstruído junto com o setor financeiro para que o país seja capaz de atrair investimentos estrangeiros novamente. Além de tudo isso, é preciso restabelecer a estabilidade política no Líbano”, afirma o economista.
Grande parte das reformas necessárias para reconstruir a economia do Líbano estão contidas em um acordo com o FMI, elaborado em 2022, mas que nunca chegou a ser assinado devido à falta de um governo eleito. O acordo garantiria ao governo libanês acesso a cerca de US$ 3 bilhões ao longo de quatro anos com a contrapartida de aplicar reformas estruturantes no país.
Inicialmente o acordo foi barrado pela classe política do país, que acreditava que o país conseguiria se reconstruir sem um acordo com o FMI e não estavam dispostos a conduzir as reformas previstas no acordo, segundo Neaiman. Com o governo interino, o acordo ficou ainda mais distante.
“Um acordo com FMI seria só o primeiro passo para que o Líbano saia do crise. As contrapartidas incluídas no acordo com o FMI são as reformas estruturais que devem ser realizadas em algum momento no país. Se isso não acontecer, não haverá solução econômica viável para a crise”, diz Neaime.
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Fonte: Valor Econômico
