Nova prática é uma resposta ao aumento de casos de transtorno de saúde mental entre profissionais
Por Sophia Smith e Janina Conboye, Financial Times
13/08/2022 08h00 Atualizado há 2 dias
Nos últimos anos, o uso de microdoses de psicodélicos se tornou mais aceito, mas as drogas ainda são um tabu no local de trabalho. Ainda assim, alguns líderes empresariais e profissionais de recursos humanos fazem propaganda da terapia auxiliada por cetamina como um benefício médico para os funcionários que é cada vez mais popular.
A cetamina é uma substância legal para uso médico nos Estados Unidos e no Reino Unido e, embora em geral seja mais utilizada como anestésico, estudos concluíram que ela é eficaz no tratamento da depressão e outras doenças mentais. À medida que as taxas de doenças mentais aumentaram – mais de 25% no primeiro ano da pandemia, de acordo com um relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) –, a terapia auxiliada por cetamina ganhou popularidade como tratamento na área de saúde mental.
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Nos últimos anos, o uso de microdoses de psicodélicos se tornou mais aceito, mas as drogas ainda são um tabu no local de trabalho — Foto: Unsplash
Jason Duprat, enfermeiro anestesista que ensina outros profissionais da área de serviços de saúde a melhor maneira de fornecer cetamina terapêutica, diz que as inscrições em sua Ketamine Academy aumentaram 15% a cada ano desde que a fundou, em 2017. Mas foi apenas nos últimos dois anos que ele observou a expressão “psicoterapia auxiliada por cetamina” se popularizar.
Shane Metcalf, cofundador e diretor de pessoas e cultura da 15Five, uma fornecedora de software de recursos humanos, planeja tornar sua empresa a primeira da área de tecnologia a oferecer o acesso a psicodélicos como benefício, e quer fazê-lo ainda este ano. A 15Five seguiria o exemplo da fabricante de sabonetes Dr. Bronner’s, que está entre as primeiras empresas americanas a oferecer esse tipo de benefício.
“Não estamos falando de uso recreativo”, diz Shane. “É uma experiência completamente diferente tomar [o medicamento] com um terapeuta que o orienta e permite que você ganhe uma nova perspectiva.”
Sherry Rais, cofundadora e coexecutiva-chefe da Enthea, a provedora de serviços de saúde com psicodélicos que fez a parceria com a Dr. Bronner’s, diz que 8% dos 450 funcionários e parentes cobertos pelos planos usaram o benefício até agora. O programa da Dr. Bronner’s é um piloto para a Enthea, mas a empresa tem pelo menos outros 25 empregadores que manifestaram interesse em implantar benefícios que envolvam psicodélicos.
Para Steven Huang, tornar a terapia com psicodélicos um benefício para os funcionários “resolve muitos dos problemas” que acompanham a acessibilidade, os custos e o estigma associados ao uso de psicodélicos como tratamento médico. “De repente é como ‘oh, meu empregador me dá segurança para fazer isso’”, diz Steven, que trabalha na interseção entre diversidade, equidade e inclusão e os psicodélicos na Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies.
As consultas presenciais de cetamina podem custar mais de US$ 5 mil. A alternativa de telemedicina pode sair por cerca de um décimo disso – e ter um empregador que cubra esse custo a torna ainda mais acessível. Steven, que trabalhou na área de recursos humanos de empresas de tecnologia como Facebook e Square e tem visto várias oferecerem muitos serviços diferentes em nome do bem-estar, diz que a terapia auxiliada por cetamina é um benefício relativamente acessível para as empresas.
Shane e Steven concordam que a terapia auxiliada por cetamina pode ser especialmente útil para líderes. “Traumas não resolvidos transparecem em nossos estilos de liderança”, diz Shane. Os psicodélicos podem nos tornar mais abertos a novas ideias e mais compassivos, e podem permitir conversas com mais nuances.
Shane prevê que muitas mais empresas começarão a oferecer benefícios na área de saúde mental que envolvam medicamentos psicodélicos nos próximos dois a quatro anos. “Quando você tem pessoas que se curam, [elas] vão tratar melhor os outros. [Elas] terão mais interesse pelo ser humano como um todo, em vez de vê-lo como uma peça transacional na engrenagem”, diz ele. “Existe uma maneira melhor de fazer negócios.” (Tradução Arutha Martins)
Fonte: Valor Econômico