Nathan Sheets, economista-chefe do Citi, afirma que a economia global se ajustou bem às tarifas de Trump, mantendo um crescimento próximo de 3%. Ele destaca a resiliência dos mercados emergentes, como o Brasil, apesar das preocupações com o endividamento. Nos EUA, o crescimento é impulsionado por consumidores de alta renda e empresas lucrativas, mas há vulnerabilidades. A China enfrenta desafios, mas deve manter um crescimento de 4,7% em 2026, com o governo compensando fraquezas internas.
O economista-chefe global do Citi, Nathan Sheets, avalia que a economia mundial se ajustou de forma suave e com mais flexibilidade do que o inicialmente esperado às tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na visão dele, a atividade econômica tem se mostrado resiliente e sólida, mesmo “diante de alguns choques e desafios”.
“A perspectiva para o crescimento global está parecendo bastante benigna e próxima da tendência de 3%, como nos anos anteriores”, afirma.
Sheets diz que há uma preocupação com o aumento do endividamento de vários países, incluindo o do Brasil, mas ressalta que a situação fiscal brasileira é uma questão central entre os desafios do País.
“Os mercados estão preocupados com todos, tanto com países desenvolvidos quanto com o grupo de emergentes”, diz. “Acho que, no caso do Brasil, isso é, provavelmente, um nível um pouco mais agudo em termos das preocupações.”
A seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Estadão.
Desde o início do ano, temos observado um grande aumento de recursos para mercados emergentes. No Brasil, o real tem se fortalecido ante o dólar, e a Bolsa tem acumulado recordes. O que explica esse movimento?
Passamos muito tempo pensando sobre todos os riscos existentes e todas as preocupações. É uma lista bastante longa de preocupações que lemos todos os dias no jornal. Mas, por outro lado, a economia global tem sido bastante sólida diante de alguns choques e desafios nos últimos quatro anos. Isso leva a um tipo de resiliência que também dá confiança aos mercados, no sentido de que, mesmo que choques atinjam a economia global, as empresas terão capacidade de se ajustar e se adaptar. Novamente, não estão deixando de ver os riscos, mas entendendo que eles provavelmente serão administráveis. A perspectiva para o crescimento global está parecendo bastante benigna e próxima da tendência de 3%, como nos anos anteriores. A economia dos Estados Unidos continua a ter um desempenho superior em termos de taxa de crescimento. E, nesse ambiente, os mercados emergentes têm se saído bastante bem.
No caso dos mercados emergentes, obviamente, há histórias diferentes em países diferentes. Mas a nossa percepção é que eles têm sido mais robustos, mais resilientes a esse ciclo global do que teríamos imaginado. E, na minha visão, estamos vendo cada vez mais evidências do desenvolvimento da demanda doméstica em alguns desses países, sendo o Brasil um ótimo exemplo disso. O que estamos vendo no mercado, de modo geral, é uma espécie de sensação de confiança de que vai ficar tudo bem.
O que explica a resiliência da economia dos EUA?
Eu diria que há alguns fatores-chave. Os consumidores de renda mais alta, ou seja, os 40% do topo da distribuição de renda respondem por cerca de 65% do consumo. Eles se beneficiaram de balanços patrimoniais fortes e estão bem posicionados no mercado de trabalho. Outro motor-chave são as empresas americanas, que estão enxutas e competitivas, gerando muitos lucros e que se ajustaram bastante bem aos vários choques e desafios que surgiram. E, à medida que elas lucram, isso significa que gastam. Elas diminuíram o ritmo de contratações, mas não estão demitindo trabalhadores em massa. E, além disso, temos o boom da inteligência artificial. Portanto, esses são os três motores principais. Agora, cada um deles também sugere vulnerabilidades.
Poderia detalhar quais seriam essas vulnerabilidades da economia dos EUA?
Os consumidores de renda mais alta estão indo bem. Mas e os consumidores de renda mais baixa? Eles continuam avançando, mas são mais vulneráveis. As grandes empresas estão indo bem, mas e as pequenas empresas, aquelas com menos de 50 funcionários? A evidência que temos sugere que elas provavelmente estão enfrentando dificuldades na comparação com as grandes. E, no caso da inteligência artificial, a vulnerabilidade é a seguinte: achamos que teremos mais investimentos em IA no próximo ano, mas obviamente há riscos quanto à sustentabilidade disso.
E o que o sr. enxerga para a economia dos EUA neste ano?
Vemos o crescimento dos Estados Unidos entre 2,25% e 2,5%. É bastante sólido. E é razoável pensar que, como cenário-base, esses motores de crescimento continuem e permaneçam em funcionamento. E, além disso, é provável que haja alguns estímulos neste ano por meio projeto big beautiful bill de Trump. Há ainda outro ponto: o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) acabou de cortar (as taxas de juros em) 75 pontos-base (0,75 ponto porcentual). E os mercados estão precificando mais alguns cortes em 2026, o que é consistente com a nossa visão de que haverá mais alguns. Portanto, o quadro para o crescimento dos Estados Unidos e globalmente está parecendo sólido.
O que esperar do processo de transição para o próximo presidente do Fed?
Será uma grande transição. Os mercados estarão observando atentamente. Mas todos os nomes que foram colocados parecem ser de economistas sólidos ou profissionais que entendem como os mercados funcionam, que entendem como a economia funciona. Estou razoavelmente confortável de que essa será uma transição tranquila. Obviamente, há algumas incertezas que teremos de atravessar, mas, no fim das contas, isso deve resultar em um bom desfecho.
O que explica o fato de a economia global ter se ajustado às tarifas?
O presidente Trump impôs tarifas significativas. Atualmente, os Estados Unidos têm as tarifas mais altas que vimos para o país nos últimos 80 anos — ou algo assim. Portanto, são tarifas relevantes, significativas, muito mais altas do que aquelas que existiam quando ele assumiu o cargo. E a realidade é que a economia se ajustou de forma muito tranquila a isso. Ao longo do último ano, a nossa participação de importações vindas da China caiu cinco pontos porcentuais, e a China conseguiu redirecionar exportações para outras jurisdições.
Portanto, o ajuste dos padrões globais de comércio — estamos vendo isso nos dados — aconteceu de forma mais suave, com mais flexibilidade e menos disrupções do que esperávamos. Trata-se realmente da flexibilidade da economia global e das empresas diante dessas tarifas. E também uma das razões pelas quais vimos menos impacto na economia global é o comportamento do repasse das tarifas para os preços aos consumidores e aos clientes. As empresas absorveram esses custos nas margens mais do que esperávamos.
E como as empresas podem responder a esse movimento de absorver custos?
É possível que o enfraquecimento do mercado de trabalho dos Estados Unidos e o enfraquecimento da demanda por trabalho que temos observado representem o outro lado das tarifas, no qual as empresas ficam mais hesitantes em contratar por causa dessas pressões sobre as margens. Portanto, também pode ser que as tarifas estejam se manifestando no enfraquecimento do mercado de trabalho.
Internamente, fala-se muito sobre a situação fiscal do Brasil, mas esse problema também atinge outros países. Esse tema preocupa os investidores?
Se você olhar para os países ao redor do mundo, há muitos que enfrentam um cenário de dívida pública elevada e desafios fiscais severos. São muitos países desenvolvidos, como Estados Unidos, França, Japão, Itália, Bélgica, Canadá e Reino Unido. Além disso, há uma série de mercados emergentes bastante endividados. E o Brasil está nessa lista, assim como Índia e China. Agora, a diferença entre Brasil, Índia e China é que esses outros dois países estão crescendo um pouco mais rapidamente do que o Brasil.
Mas, de forma ampla, os mercados estão preocupados com o endividamento dos países desenvolvidos. Também estão preocupados com o endividamento dos mercados emergentes, sendo os desafios que o Brasil enfrenta, acho, uma preocupação central. Os mercados estão preocupados com todos, tanto com países desenvolvidos quanto com o grupo de emergentes. Acho que, no caso do Brasil, isso é, provavelmente, um nível um pouco mais agudo em termos das preocupações.
E sobre a China, qual é a expectativa para o desempenho deste ano e as consequências para o mundo?
No ano passado, a economia chinesa cresceu a um ritmo de 5%, ou seja, em 2025 muito próximo da meta de crescimento anunciada. Achamos que o crescimento pode desacelerar um pouco, mas não muito neste ano. Nossas projeções apontam para um crescimento de 4,7% na China, ainda assim relevante e sólido.
Dito isso, a economia chinesa certamente enfrenta muitos desafios e preocupações. O principal motor de crescimento são as exportações — e isso já é assim há algum tempo. A máquina exportadora chinesa é muito impressionante. Ela é competitiva e demonstrou essa capacidade de redirecionar e se reorientar para ampliar sua participação em novos mercados. Ao mesmo tempo, o lado doméstico privado da economia é muito fraco. O consumidor está enfraquecido desde a pandemia. Os consumidores estão cautelosos em relação aos seus gastos. E, mais recentemente, o investimento caiu de forma muito acentuada. Como explicação, um fator-chave é que o setor imobiliário continua como uma fonte de fraqueza.
Há muita coisa em curso restringindo o gasto privado na China. E, então, o governo meio que compensa a diferença para manter o crescimento na faixa de 4,5% a 5%. Se a economia desacelera um pouco mais, o governo oferece mais estímulos fiscais, monetários e outras políticas. Se está um pouco mais forte, faz um pouco menos.
E esse modelo é sustentável?
Não sei o quão sustentável isso é para a China, por quanto tempo a China pode continuar, de certa forma, impulsionando sua economia — sendo uma economia tão grande — apoiada em exportações sempre crescentes. Mas, de qualquer forma, achamos que eles provavelmente conseguirão ter sucesso em alcançar isso por pelo menos mais um ano.
Fonte: Estadão


