Por Dan Strumpf e Liza Lin — Dow Jones Newswires
02/01/2023 05h01 · Atualizado
Após três anos de descontinuidade econômica instaurados pela política de covid-zero, muitas empresas chinesas despertaram para uma feliz e nova realidade em dezembro: o fim das restrições.
Mas, antes de poderem aproveitar as medidas, os proprietários de empresas da China têm de pôr suas cadeias de suprimentos em ordem após um período de caos causado pela reversão abrupta das limitações. Além disso, os empresários têm de enfrentar uma onda de casos de covid-19 que assola muitos trabalhadores.
“Todo mundo ficou doente quase ao mesmo tempo”, disse Hong Binbin, gerente da fabricante de brinquedos Shenzhen Jiaoyang Industrial, ao descrever a disparada dos casos de covid do começo de dezembro, que afastou 90% de seu corpo de funcionários em duas semanas.
A escassez de mão de obra o obrigou a adiar para janeiro uma remessa de brinquedos personalizados a um cliente sul-coreano. O prazo combinado originalmente era 25 de dezembro.
O próprio Hong, que contraiu o vírus no mês passado, disse ter se sentido indefeso e frustrado com a falta orientação de alerta e de acompanhamento que cercou a suspensão das rígidas restrições ao avanço da covid-19. Atualmente está preocupado com a possibilidade de que os clientes, por temerem uma onda de reinfecções na metrópole de Shenzhen, no sul do país, segurem as encomendas.
Desde o abandono das últimas restrições importantes adotadas pela China, em 7 de dezembro, a pandemia se propagou rapidamente por todo o país. As empresas se descrevem como despreparadas para o abrupto encerramento da testagem generalizada, das quarentenas em massa e dos lockdowns das cidades, e para os consequentes episódios de falta de mão de obra, à medida que os funcionários contraíam a doença.
As atividades de produção industrial e de serviços caíram em dezembro para seus níveis mais baixos desde fevereiro de 2020, quando o vírus se disseminou pela primeira vez pelo país, segundo divulgou o governo no sábado.
“O mundo está conectado por meio de cadeias de suprimentos centradas na China”, disse Stephen Roah, professor-visitante-sênior da Universidade de Yale e ex-presidente para a Ásia do conselho de administração do Morgan Stanley. Qualquer ‘torção’ dessa corrente significa problemas para a produção global e a economia mundial.”
Mas a perspectiva de que o país registre um grande número de casos em janeiro – época em que o nível de atividade econômica do país é perde força por causa do feriado do Ano-Novo Lunar – encontra no setor de produção indústria e de serviços um grande contingente de pessoas otimistas de que a normalidade possa se instaurar já no início de fevereiro.
“Pode soar estranho, mas eu acho que isso é mais proveitoso do que prejudicial”, disse Andreas Nagel, diretor comercial da fabricante de equipamento de controle de temperaturas Stulz, que foi atingida em dezembro por uma onda de absenteísmo causada pela covid. “Temos a oportunidade real de voltar ao normal após o Ano-Novo chinês.”
As restrições estão sendo abolidas num momento de estagnação da demanda externa por produtos de fabricação chinesa. As exportações de novembro, por exemplo, caíram em seu ritmo mais acelerado de mais de dois anos. Philip Richardson, proprietário da Trueanalog Strictly, fabricante de equipamentos de áudio de Panyu, na periferia do polo manufatureiro de Guangzhou, no sul do país, disse que sua empresa enfrenta um duplo inconveniente: as interrupções induzidas pela covid e uma problemática onda de desaceleração no ciclo de negócios, ambos com reflexos sobre toda a cadeia de suprimentos.
Os clientes do exterior, de modo geral, estão superestocados, após terem finalmente sido contornados os gargalos da cadeia de suprimentos da China, no começo de 2022, disse Richardson, lotado na China há mais de 20 anos.
Na ausência de testagem em massa, é difícil rastrear o avanço do vírus. Mas conversas com donos de empresas de várias partes do país sugerem que ele se espalhou pelo norte da China no início de dezembro, antes de alcançar Xangai e o sul da China. Os hospitais ficaram lotados de pacientes principalmente idosos, enquanto as pessoas em idade ativa conseguiram voltar, na maioria, após aproximadamente uma semana de afastamento.
Na cidade de Zhengzhou, na região central do país, funcionários da maior fabricante terceirizada do iPhone da Apple, a Foxconn Technology Group, descreveram uma propagação relativamente rápida do vírus por todo o contingente de funcionários, embora analistas e pessoas envolvidas na cadeia de suprimentos considerem que a produção dos modelos Pro, mais caros, começa a se equiparar com a demanda.
Muitas unidades de produção, atingidas por ondas de novos casos, se limitaram a antecipar as suspensões de produção planejadas para o Ano-Novo Lunar.
Xie Haifeng, de 38 anos, um operador de empilhadeira em Xangai que relata que metade de sua equipe contraiu o vírus, disse que voltará à sua cidade cidade natal, na província de Jiangsun, próxima dali, antes do que de costume para comemorar o feriado.
Sua empregadora, a Yanfeng Global Automotive Interiors, que fornece peças para a Tesla e outras montadoras, pretende autorizar os trabalhadores a suspender o trabalho cinco dias antes de 21 de janeiro, data de início formal do feriado semanal.
O aperto de mão de obra tem prejudicado também o setor de serviços. A Disneylândia de Xangai disse que seu parque temático, com quadro de pessoal reduzido, fechou ou diminuiu a frequência de alguns espetáculos ao vivo, atrações e restaurantes. O parque não deu retorno a um pedido por seus comentários.
A covid também afasta os clientes de algumas empresas.
Xu Hengqiang, que vende rolinhos de macarrão de arroz no populoso distrito de Bao’an, de Shenzhen, disse que os pedidos da última semana de dezembro representaram uma parcela diminuta do normal, diante da continuidade da alta do número de novos casos na cidade. Os pedidos de entrega e dos clientes presenciais totalizaram cerca de 90 na quarta-feira, e repetiram essa frequência na quinta, disse, comparativamente aos cerca de 500 recebidos num dia comum.
A maioria dos clientes de refeições presenciais já pegou o vírus, disse ele, enquanto as encomendas on-line estancaram, diante da preocupação dos clientes de que o vírus acabe, sem querer, sendo entregue à porta de suas casas – preocupação comum na China, onde as autoridades determinaram a desinfecção de alimentos congelados e outros produtos.
As redes de logística da China, normalmente eficientes, também foram paralisadas temporariamente pelos novos casos de covid, fazendo com que a colosso do comércio eletrônico JD.com enviasse mil funcionários para Pequim para liberar um acúmulo de entregas em atraso em Pequim e com que as autoridades de Xangai oferecessem incentivos de cerca de US$ 8,60 por cia para seduzir motoristas a se apresentarem para trabalhar.
Mei Zhang, de 30 anos, dona de uma lanchonete em Shenzhen, disse que a entrega de comida e café torrado seus clientes enfrenta dificuldades extraordinárias desde a suspensão das restrições. “O pessoal da entrega está agora, na maioria, [testando] positivo em covid”, disse Zhang, que tem trabalhado sem descanso depois que toda a sua equipe contraiu covid-19, após a mudança de política.
Nos últimos três meses de 2002, as empresas chinesas tomaram mais empréstimos junto a instituições não bancárias do que em qualquer outro período desde 2012, quando a empresa de pesquisas China Beige Book começou a monitorar os dados – um sinal potencial de que enfrentam dificuldades.
“Quando as empresas recorrem ao crédito, sempre nos perguntamos se estão fazendo isso por otimismo ou por estarem em apuros”, disse Leland Miller, CEO da China Beige Book. “Neste caso, as evidências de apuros são claríssimas.”
Fonte: Valor Econômico


